- O que é: A síndrome das pernas inquietas é um distúrbio neurológico que causa vontade intensa de mexer as pernas, geralmente acompanhada de sensações desconfortáveis como formigamento ou “agonia”.
- Principal benefício: Identificar a causa do desconforto noturno permite buscar o tratamento adequado, melhorando a qualidade do sono e o bem-estar diário.
- Dica essencial: Nunca inicie suplementação de ferro por conta própria; faça exames de ferritina e transferrina e consulte um médico para avaliação completa.
Você já sentiu uma vontade quase irresistível de mexer as pernas ao deitar, acompanhada de formigamento ou uma “agonia” que só melhora quando você se levanta e anda? Esse incômodo noturno pode ser um sinal de síndrome das pernas inquietas (SPI), uma condição neurológica que afeta a qualidade do sono e está frequentemente ligada a níveis baixos de ferro no organismo.
O que é a síndrome das pernas inquietas e como ela se manifesta
A síndrome das pernas inquietas é um distúrbio do movimento relacionado ao sono que afeta cerca de 3% dos adultos de forma clinicamente significativa, de acordo com a revisão publicada no *JAMA* em janeiro de 2026. A condição se caracteriza por uma vontade intensa de movimentar as pernas, frequentemente acompanhada por sensações desagradáveis como formigamento, repuxão, queimação ou coceira interna.
O desconforto piora em repouso – ao sentar ou deitar – e melhora com o movimento, como caminhar ou alongar. Os sintomas costumam ser mais intensos à noite, o que interfere no início e na manutenção do sono e pode levar a cansaço diurno e irritabilidade.

4 sinais que diferenciam pernas inquietas da ansiedade
A inquietação causada pela ansiedade geralmente é difusa e acompanhada de pensamentos acelerados. Já a SPI tem um padrão mais específico. Fique atento a estes quatro critérios, que são essenciais para o diagnóstico, segundo a revisão do *JAMA*.
- Vontade intensa de mexer as pernas, com desconforto presente na maior parte do tempo.
- Piora ao descansar – os sintomas são desencadeados ou pioram ao ficar sentado ou deitado.
- Melhora com o movimento – caminhar, alongar ou massagear as pernas traz alívio temporário.
- Piora no período noturno – os sintomas são mais fortes à noite ou na hora de dormir.
A ligação entre ferro baixo e a síndrome das pernas inquietas
A revisão do *JAMA* reforça que alterações no metabolismo do ferro têm um papel central na SPI. O ferro é um cofator essencial para a síntese de dopamina, um neurotransmissor envolvido no controle dos movimentos. Quando os estoques de ferro estão baixos, mesmo sem anemia evidente, a produção de dopamina pode ser afetada, desencadeando os sintomas.
O ponto crítico é que o hemograma pode estar normal – a ferritina, que mede a reserva de ferro no organismo, é o exame mais sensível para essa investigação. Por isso, a suplementação deve ser considerada para níveis de ferritina ≤ 100 ng/mL ou saturação de transferrina < 20%.

Quais exames o médico pode pedir para investigar
A avaliação da SPI começa com a história clínica detalhada. Exames complementares ajudam a identificar causas secundárias e a orientar o tratamento. Os principais são:
- Ferritina sérica – para avaliar as reservas de ferro no organismo.
- Ferro sérico e saturação de transferrina – indicam a disponibilidade atual de ferro.
- Hemograma completo – para verificar a presença de anemia.
- Creatinina e ureia – avaliam a função renal, já que a SPI é comum em pacientes com doença renal.
- Vitamina B12 e folato – deficiências podem contribuir para os sintomas neurológicos.
O que os estudos mostram sobre o tratamento da SPI
Um ensaio clínico randomizado citado na revisão do *JAMA* mostrou que cerca de 70% dos pacientes tratados com gabapentinoides (como gabapentina e pregabalina) tiveram melhora significativa dos sintomas, contra 40% no grupo placebo. Esses medicamentos são hoje a primeira linha de tratamento farmacológico.
Já os agonistas dopaminérgicos, como pramipexol e ropinirol, não são mais recomendados como primeira opção devido ao risco de aumento (augmentation), um agravamento paradoxal dos sintomas que ocorre em 7% a 10% dos pacientes ao ano. A pesquisa também destaca que, sempre que possível, medicamentos que pioram a SPI, como antidepressivos serotoninérgicos, anti-histamínicos e antagonistas dopaminérgicos, devem ser descontinuados.
Cerca de 8% dos adultos apresentam sintomas de qualquer frequência por ano, mas 3% têm sintomas moderados a graves pelo menos duas vezes por semana.
A suplementação de ferro deve ser considerada quando a ferritina está neste nível ou a saturação de transferrina é inferior a 20%, mesmo com hemograma normal.
Nunca tome ferro por conta própria. O excesso de ferro também é prejudicial e o tratamento deve ser individualizado após avaliação médica.
Quando procurar ajuda médica para as pernas inquietas
Procure um médico se o desconforto nas pernas acontece com frequência (várias noites por semana), atrapalha o sono ou vem acompanhado de cansaço intenso, palidez, falta de ar, menstruação muito intensa, doença renal ou gravidez. Também é importante investigar quando você precisa se levantar da cama várias vezes para aliviar os sintomas.
Lembre-se: a SPI tem tratamento e a abordagem correta depende da causa identificada. Evite tomar ferro por conta própria – o excesso também pode ser prejudicial. O tratamento pode envolver reposição de ferro, ajuste de medicamentos, mudanças na rotina de sono e, em alguns casos, o uso de gabapentinoides sob orientação médica.

