Um urso polar foi rastreado por satélite enquanto nadava 687 quilômetros sem parar, numa jornada de nove dias em águas geladas. Nenhum outro mamífero terrestre chega perto dessa marca. A pergunta inevitável é: como um animal de meia tonelada mantém o calor e a energia num ambiente que mataria um humano em minutos?
Por que o urso polar não congela dentro d’água?
A resposta está numa combinação rara de isolamento térmico e metabolismo. A pelagem do urso polar não é branca, mas sim translúcida, formada por pelos ocos que canalizam a radiação solar até a pele negra. Essa pele absorve calor, enquanto uma camada de gordura subcutânea de até 11 centímetros funciona como colete térmico.
Dentro d’água, a pelagem se comprime e perde parte da capacidade isolante. É a gordura, conhecida como panículo adiposo, que assume o controle. Ela retém o calor do núcleo e mantém os músculos aquecidos o suficiente para a braçada contínua. A temperatura interna do urso permanece estável ao redor de 37 °C, mesmo com o mar abaixo de zero.

Quais são os mecanismos que sustentam o nado de longa distância?
Nadar por dias consecutivos exige adaptações que vão além do isolamento. A fisiologia do urso polar combina três fatores decisivos:
Quais adaptações térmicas protegem os órgãos vitais?
A exposição prolongada ao gelo e à água fria força o corpo a proteger cérebro, coração e pulmões. O urso polar conta com um sistema de troca de calor em contracorrente nas extremidades, que reduz a perda térmica pelas patas. Além disso, o tamanho corporal avantajado, com machos atingindo 600 quilos, diminui a relação superfície/volume e conserva calor por inércia térmica.
Outros mecanismos que ajudam na economia de energia incluem:
- Pelos ocos que criam uma câmara de ar isolante, semelhante a uma roupa de neoprene
- Pele negra que absorve radiação ultravioleta e converte em calor
- Gordura marrom em filhotes, gerando calor extra por termogênese
- Redução do fluxo sanguíneo periférico, mantendo o sangue quente no centro do corpo
- Orelhas e cauda reduzidas, minimizando superfícies de perda térmica

O que acontece com o urso polar quando o gelo diminui?
Com o aquecimento global reduzindo a plataforma de gelo do Ártico, os ursos polares precisam nadar distâncias cada vez maiores para encontrar focas, sua principal presa. Esse esforço extra eleva o gasto calórico e pode levar à exaustão, principalmente em fêmeas com filhotes, que não possuem a mesma reserva de gordura dos machos adultos.
Segundo o World Wildlife Fund (WWF), o derretimento precoce do gelo obriga os ursos a jejuar por mais tempo em terra, reduzindo suas chances de acumular a gordura necessária para o verão. Um estudo de 2021 estimou que, se a tendência atual continuar, a população de ursos polares pode cair em 30% até 2050.
Como o metabolismo do urso polar se compara ao de outros grandes mamíferos?
A tabela a seguir mostra as diferenças metabólicas e de adaptação ao frio entre o urso polar e outros animais de grande porte que enfrentam temperaturas baixas.
| Espécie | Reserva energética principal | Isolamento térmico | Capacidade de nado prolongado |
|---|---|---|---|
| Urso polar Ursus maritimus | Gordura subcutânea (até 40% da massa) | Pelos ocos + pele negra + gordura espessa | Excelente |
| Urso pardo Ursus arctos | Gordura sazonal, acúmulo para hibernação | Pelagem densa, sem propriedades ópticas | Moderada |
| Morsa Odobenus rosmarus | Gordura subcutânea espessa | Gordura como único isolante | Excelente |
| Humano Homo sapiens | Glicogênio muscular e gordura limitada | Roupas e equipamentos externos | Baixa |
Por que as crias de urso polar são mais vulneráveis ao frio e à fome?
Os filhotes nascem durante o inverno, na toca de neve, com apenas 600 gramas e dependem totalmente do leite materno, que contém 30% de gordura. Eles não possuem a camada de gordura dos adultos e precisam permanecer abrigados por quatro meses antes de enfrentar o exterior. Se a mãe não acumulou reservas suficientes, a produção de leite cai, e a taxa de sobrevivência das crias despenca.
O urso polar segue nadando enquanto o Ártico derrete. Cada quilômetro percorrido é um lembrete de que a evolução criou uma máquina de sobrevivência impressionante, mas que agora enfrenta seu maior desafio. Entender como esse animal resiste ao frio extremo é também compreender o que estamos perdendo com o avanço das mudanças climáticas.

