Existem paisagens no Brasil que precisam ser vistas de cima para fazer sentido. No litoral sul de Santa Catarina, a cerca de 90 km de Florianópolis, uma estradinha de terra entre morros cobertos de Mata Atlântica termina em uma meia-lua de areia com dois quilômetros de extensão. É a única praia brasileira reconhecida por uma organização francesa com chancela da UNESCO como uma das baías mais belas do planeta, e uma das poucas do mundo onde é possível avistar baleias gigantes a menos de cem metros da costa, sem embarcação. O restante do cenário são lagoas cristalinas, trilhas de 6 km entre morros verdes e ondas que atraem surfistas há mais de cinquenta anos.
Como uma antiga vila de pescadores se tornou a única praia brasileira no Clube das Baías Mais Belas do Mundo?
A Praia do Rosa fica no município de Imbituba, distrito ao sul do estado. O nome homenageia Dorvalino da Rosa, antigo proprietário das terras e pescador que recebia os primeiros surfistas e hippies no engenho de farinha da família, na década de 1970. Os visitantes chegavam por trilhas abertas na mata, atraídos pelo isolamento e pelas ondas que se formavam em qualquer direção do vento.
Com o tempo, os jovens que acampavam se tornaram empreendedores locais, ergueram pousadas, restaurantes e transformaram o vilarejo em um dos endereços mais charmosos do litoral brasileiro. A urbanização respeitou a topografia, com ruas de terra e caminhos sinuosos entre os morros. No início dos anos 2000, a baía recebeu o selo do Club des Plus Belles Baies du Monde, organização francesa com chancela da UNESCO que reconhece as baías mais belas do planeta. É a única representante brasileira até hoje.

Por que as baleias-francas escolhem essa baía como berçário?
De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a região é santuário oficial da baleia-franca-austral (Eubalaena australis), espécie ameaçada de extinção que passa pelo litoral catarinense em sua rota migratória entre junho e novembro. A geografia da baía, com águas rasas e protegidas, cria as condições ideais para as fêmeas darem à luz e amamentarem os filhotes.
O pico de avistamentos acontece em setembro. Nas semanas de maior fluxo, é possível ver as baleias dos costões da própria praia, muitas vezes a menos de 100 metros da faixa de areia, sem precisar embarcar. Alguns exemplares chegam a 17 metros de comprimento e podem ser observados também dos decks das pousadas mais altas do morro. O Dia da Baleia Franca foi instituído oficialmente no dia 31 de julho.

O que é a APA da Baleia Franca administrada pelo ICMBio?
A Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca (APABF) é uma unidade de conservação federal criada pelo Decreto Federal s/nº de 14 de setembro de 2000. Conforme o ICMBio, autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, a APA tem 156 mil hectares e 130 km de costa marítima, abrangendo nove municípios, do sul de Florianópolis ao Balneário Rincão, em Içara.
Além das baleias, a unidade protege promontórios, costões rochosos, praias, ilhas, lagoas, banhados e marismas. A gestão é participativa, com um Conselho Consultivo que reúne 42 entidades entre setor público, usuários e ONGs ambientalistas. A APA foi decisiva para a preservação da paisagem intocada da Praia do Rosa: construções na faixa de areia são proibidas e a iluminação pública é controlada para evitar interferência na fauna marinha.
Quais praias e trilhas fazem parte do roteiro?
A Praia do Rosa é o cartão-postal, mas a experiência completa envolve trilhas, lagoas e praias vizinhas. Confira abaixo os principais pontos:
- Rosa Norte: ponto de encontro dos surfistas, com ondas consistentes e vida social intensa, especialmente no verão.
- Rosa Sul: mais tranquilo, procurado por famílias e por quem busca contemplação.
- Caminho do Rei: trilha de 6 km no alto dos morros, com mirantes da Lagoa de Ibiraquera e vista panorâmica de toda a baía.
- Praia Vermelha: faixa deserta entre costões rochosos, acessível por trilha a partir do Rosa Norte, com piscinas naturais e visual selvagem.
- Praia do Ouvidor: na divisa entre Imbituba e Garopaba, com areia fina espremida entre o mar e a Mata Atlântica.
- Lagoa de Ibiraquera: águas calmas e ventos constantes, considerada um dos melhores pontos para windsurf, kitesurf e stand up paddle no sul do Brasil.
- Lagoa do Meio: entre as duas partes principais da praia, ideal para banho tranquilo e piqueniques.
Este vídeo do canal Viagens com Rossi, com mais de 157 mil visualizações, apresenta um guia completo e detalhado sobre a badalada Praia do Rosa, localizada no município de Imbituba (com acesso pela região de Garopaba), em Santa Catarina.
Que passado obscuro a cidade transformou em turismo consciente?
A relação da cidade com as baleias tem uma reviravolta histórica. A última armação baleeira do Brasil funcionou em Imbituba até 1973, caçando as mesmas espécies que hoje se tornaram a maior atração turística do município. A caça só foi oficialmente proibida no país em 1985.
A antiga armação foi transformada no Museu da Baleia, aberto ao público no bairro do Porto. O espaço tem visitação gratuita e conta essa história com ossadas, artefatos, documentos e painéis interpretativos que registram o processo de caça e depois a luta pela preservação. A memória do lugar é hoje parte do roteiro cultural da cidade, ao lado da observação viva dos animais nas praias e lagoas.
Como é o clima na região?
A costa sul catarinense tem clima subtropical úmido, com estações bem definidas. Confira abaixo as médias por estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar, especialmente no inverno, com entrada de frentes frias.
Como chegar à Praia do Rosa?
A Praia do Rosa fica a cerca de 90 km de Florianópolis, com acesso pela BR-101. A saída é no km 274, sentido Garopaba, seguindo pela SC-434. Os últimos quilômetros são feitos por estrada de terra. O trajeto de carro leva em média uma hora e meia partindo da capital.
Há linhas regulares de ônibus da Viação Santo Anjo ligando Florianópolis a Imbituba, com complemento de táxi ou aplicativo até o vilarejo. Quem vem de São Paulo percorre cerca de 760 km pela BR-116 e BR-101. A localização permite combinar a viagem com Garopaba, Laguna e Ibiraquera no mesmo roteiro.
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Uma baía que junta mar surfe e baleias em 2 km de areia
Poucos destinos do litoral brasileiro conseguem juntar em tão pouco espaço o reconhecimento internacional de uma baía preservada, o berçário de uma espécie ameaçada de extinção, ondas de nível mundial para o surfe e uma vila que cresceu sem perder a atmosfera de comunidade. A combinação transformou a Praia do Rosa em um destino que atende surfistas, biólogos, casais em lua de mel e famílias com crianças.
