Poucos vilarejos brasileiros carregam origem tão marcada pela contradição da história colonial. Lavras Novas, distrito de Ouro Preto a 1.200 metros de altitude, nasceu no século XVIII como quilombo, no alto da Serra do Espinhaço. Enquanto o ouro escorria pelas mãos dos colonizadores na vizinha Vila Rica, dezenas de africanos escravizados fugiam pelas matas cerradas e encontravam refúgio na serra. O nome original era Lavras Velhas do Funil, mas os próprios fugitivos rebatizaram o lugar de Lavras Novas, um recomeço em liberdade que atravessou os séculos e virou um dos distritos mais visitados de Minas Gerais.
Como um vilarejo tão pequeno nasceu de fugas de Vila Rica?
Segundo a Prefeitura de Ouro Preto, a origem de Lavras Novas está ligada ao esgotamento das minas de ouro no fim do século XVIII. Enquanto expedições procuravam novas jazidas nos arredores de Vila Rica, o alto da serra virou refúgio de escravizados que fugiam do trabalho forçado nas lavras. A comunidade se organizou de forma autônoma, com liderança exercida pelo morador mais respeitado do grupo, em estrutura que se aproximava da vida em aldeias africanas.
Isolados no alto da serra, os moradores fabricavam artesanato de taquara, tipo de bambu abundante na região, e vendiam a produção em Ouro Preto para custear as necessidades da vila. Esse isolamento durou até a segunda metade do século XX: a energia elétrica só chegou por volta de 1970, e o turismo começou a se firmar a partir de 1984, com as primeiras pousadas erguidas por famílias que vinham de Belo Horizonte.

O que ver na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres?
No coração do arruamento colonial, a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres é o principal marco histórico do distrito. Segundo a Prefeitura de Ouro Preto, foi erguida em 1762 por mineradores e escravizados que povoavam a região. A construção segue o padrão simples das capelas rurais mineiras, com três altares singelos, adro pavimentado em pedra e um grande cruzeiro de pedra em cantaria no largo em frente.
A visita é gratuita durante o dia. À noite, o prédio fica iluminado e vira o cartão-postal do centrinho. Subir os degraus até a torre dos sinos vale a pena: dali de cima, as ruas de terra do distrito se desdobram entre o casario colonial e as montanhas da Serra do Espinhaço.

Quais são as principais cachoeiras de Lavras Novas?
O distrito é cercado por um circuito raro de quedas d’água acessíveis em trilhas curtas ou de dia inteiro. Confira as mais procuradas listadas pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais:
- Cachoeira Três Pingos: queda formada por três filetes de água, a cerca de 4 km da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, com poço para banho.
- Cachoeira do Castelinho: uma das mais visitadas, situada no vilarejo vizinho de Chapada, a 9 km do centro de Lavras Novas.
- Cachoeira do Falcão: banco de areia e queda principal com fundura para nado, ideal para passar o dia inteiro fora da vila.
- Cachoeira dos Namorados: sequência de pequenas piscinas naturais em área particular, muito procurada em dias quentes.
- Cachoeira dos Prazeres: vista privilegiada do Parque Estadual do Itacolomi, com relevo acidentado no percurso.
- Represa do Custódio: construída na década de 1940, fica a 8 km da sede do Parque Estadual do Itacolomi, com esportes náuticos e som alto proibidos.
O que fazer além das cachoeiras em Lavras Novas?
O distrito reúne mirantes, capelas e trilhas que aproveitam a altitude e o casario colonial. Confira alguns dos programas mais tradicionais:
- Mirante da Pedra: no final da Rua Nossa Senhora dos Prazeres, com vista de 360° das montanhas da Serra do Espinhaço.
- Serra do Trovão (Buiéié): caminhada de 40 minutos até 1.600 m de altitude, tradicional para assistir ao pôr do sol.
- Capela de Sant’Ana: pequena capela colonial na localidade de Chapada, vizinha a Lavras Novas.
- Passeios a cavalo e de quadriciclo: alternativa para conhecer os arredores em roteiros guiados pela comunidade local.
- Tirolesa e rapel nas cachoeiras: esportes de aventura oferecidos por operadoras locais.
- Centrinho colonial: ruas de terra com casario preservado, bares e restaurantes com música ao vivo, especialmente nos fins de semana.
Este vídeo do canal Viajantes App, com 140 mil visualizações, apresenta um guia completo de turismo, ecoturismo e gastronomia em Lavras Novas (Minas Gerais), um vilarejo charmoso localizado a cerca de 19 km de Ouro Preto e a pouco mais de 110 km de Belo Horizonte.
Qual a melhor época para visitar Lavras Novas?
O clima tropical de altitude marca noites frescas o ano inteiro e chuvas concentradas no verão. Confira abaixo as médias das estações:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Lavras Novas?
De Belo Horizonte, o trajeto é de cerca de 120 km pela BR-356 até o trevo de Ouro Preto, com entrada à direita para a MG-129. O tempo total é de aproximadamente 2 horas. Da sede de Ouro Preto, são apenas 19 km, cerca de 30 a 40 minutos por estrada de terra parcialmente pavimentada. Quem chega de outros estados costuma pousar no Aeroporto Internacional de Confins e seguir pela BR-356.
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Uma vila colonial no alto da serra que ninguém encontra por acaso
Poucos distritos brasileiros carregam origem tão inseparável da própria geografia. Lavras Novas nasceu porque uma serra alta e cerrada oferecia refúgio a quem fugia da escravidão nas minas de ouro. O que começou como comunidade autônoma no século XVIII virou um dos vilarejos coloniais mais preservados de Minas Gerais, com igreja de 1762, casario de rua de terra e um raio curto de cachoeiras que aproveitam a altitude de 1.200 metros.
Você precisa subir a serra até Lavras Novas para entender por que um distrito que só recebeu energia elétrica nos anos 1970 virou um dos refúgios mineiros mais procurados nos fins de semana.

