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Início Cidades

A chapada cortada pelo mesmo paralelo de Machu Picchu guarda rochas de 1,8 bilhão de anos

Por Ana Carolina
16/07/2026
Em Cidades
A chapada cortada pelo mesmo paralelo de Machu Picchu guarda rochas de 1,8 bilhão de anos

A chapada cortada pelo mesmo paralelo de Machu Picchu guarda rochas de 1,8 bilhão de anos // IMAGEM ILUSTRATIVA

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A 230 km de Brasília e 420 km de Goiânia, no nordeste de Goiás, a região mais antiga do Planalto Central abriga um dos parques nacionais mais premiados do Brasil. A Chapada dos Veadeiros repousa sobre um platô de quartzito com idade estimada em 1,8 bilhão de anos, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O solo, rico em cristal de quartzo, reflete luz com intensidade incomum quando observado por satélite. O território é cortado pelo Paralelo 14 Sul, a mesma linha imaginária que atravessa Machu Picchu, no Peru. O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi criado em 11 de janeiro de 1961 pelo decreto do então presidente Juscelino Kubitschek, protege atualmente 240 mil hectares de bioma Cerrado e foi declarado Patrimônio Mundial Natural pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em dezembro de 2001.

Do decreto de Juscelino em 1961 aos 240 mil hectares atuais

O parque foi criado pelo Decreto 49.875 assinado por Juscelino Kubitschek em 11 de janeiro de 1961, poucos meses após a inauguração de Brasília. Ao longo das décadas, passou por sucessivas ampliações e reduções territoriais. A última mudança aconteceu em 5 de junho de 2017, no Dia Mundial do Meio Ambiente, quando o parque foi ampliado por decreto federal aos atuais 240.611 hectares. Abrange seis municípios goianos: Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Nova Roma, Teresina de Goiás, São João da Aliança e Colinas do Sul. Segundo o portal oficial Goiás Turismo, a administração de uso público é feita pela empresa Parquetur por concessão do governo federal desde 2019.

O reconhecimento internacional veio em dezembro de 2001, quando a UNESCO inscreveu o parque na lista de Patrimônio Mundial Natural ao lado do Parque Nacional das Emas. A justificativa da organização destaca que a área protege mais de 60% das espécies vegetais e cerca de 80% dos vertebrados já observados no bioma Cerrado. São 1.476 espécies de plantas identificadas dentro do parque e cerca de 50 espécies raras, endêmicas ou sob risco de extinção. Em 2021, o parque figurou entre os 25 melhores do mundo pelo TripAdvisor Travelers’ Choice Awards, ocupando a primeira posição no Brasil.

Chapada dos Veadeiros, Goiás // Créditos: depositphotos.com / Elena Skalovskaia

O Salto do Rio Preto com 120 metros e as trilhas do quartzito

O ponto mais alto do Brasil Central fica dentro da chapada. O Pico do Pouso Alto, a 1.676 metros de altitude, é onde nasce o Rio Preto, principal curso d’água do parque. As nascentes descem pelas serras do Paranã, a leste, e de Santana, a noroeste, formando paredões de até 700 metros de altura. Ao longo do curso, o Rio Preto forma duas quedas espetaculares: o Salto do Rio Preto, com 120 metros de queda livre, e a Cachoeira do Garimpão, com 80 metros, um dos poucos pontos onde é permitido banho em área delimitada.

As duas cachoeiras são acessadas pela Trilha dos Saltos, que passa por antigos garimpos de cristal de quartzo, hoje ruínas preservadas como parte da história local. A Trilha dos Cânions e Cariocas, pouco inclinada mas pedregosa, dá acesso ao Cânion I e às Corredeiras das Cariocas, com piscinas naturais e paredões escarpados. Para os aventureiros, a Travessia das Sete Quedas é o principal trekking do parque: 23 km de percurso que exige nove horas de caminhada ou pernoite em acampamentos rústicos no Vale do Rio Preto.

Chapada dos Veadeiros, Goiás // Créditos: depositphotos.com / Hackman

O que fazer entre o Vale da Lua e o Kalunga

A entrada principal do parque fica na Vila de São Jorge, a 36 km de Alto Paraíso de Goiás, base da maioria dos visitantes. Reserve pelo menos quatro dias para o essencial e amplie o roteiro para roteiros nas cidades vizinhas.

  • Salto do Rio Preto e Cachoeira do Garimpão: dois cartões-postais do parque, com quedas de 120 e 80 metros e piscinas para banho.
  • Trilha dos Cânions e Cariocas: acesso ao Cânion I, corredeiras e piscinas naturais entre paredões de quartzito.
  • Vale da Lua: formações rochosas cinzentas esculpidas há milênios pelo Rio São Miguel, com aspecto lunar único.
  • Cachoeiras Almécegas I e II: quedas de 50 e 15 metros que escorrem por rochas íngremes próximo a Alto Paraíso.
  • Cachoeira Santa Bárbara: em Cavalcante, no território do quilombo Kalunga, com água azul-turquesa.
  • Travessia das Sete Quedas: trekking de 23 km com pernoite em acampamento à beira do Rio Preto.
  • Pico do Pouso Alto: mirante a 1.676 metros, ponto culminante do Brasil Central.

Quem busca um guia completo e detalhado para explorar a Chapada dos Veadeiros vai encontrar tudo o que precisa neste vídeo do canal Rolê Família, que conta com mais de 145 mil visualizações. O vídeo apresenta um roteiro com mais de 25 atrativos, divididos estrategicamente entre as três principais bases da região: Alto Paraíso, São Jorge e Cavalcante.

Kalunga, esperanto e o misticismo do Paralelo 14

A Chapada dos Veadeiros guarda um dos maiores territórios quilombolas do Brasil. A Comunidade Kalunga, situada principalmente em Cavalcante, é formada por descendentes de africanos escravizados que fugiram para a região no século XVIII. Reconhecida como território tradicional em 1991, abriga cerca de 8 mil habitantes espalhados por 253 mil hectares e preserva costumes, danças, comida e religião ancestral. Passeios guiados por Kalungas dão acesso a cachoeiras dentro do território, como a Santa Bárbara, a Capivara e o Poço Encantado.

A ocupação mística começou em 1957, quando uma missão espiritual vinda de Recife fundou a Fazenda Bona Espero, instituição filantrópica que ensina o esperanto. Na década de 1980, o movimento hippie atraiu a primeira grande leva de migrantes alternativos. Atualmente, mais de 40 grupos filosóficos, religiosos e místicos convivem em Alto Paraíso de Goiás, com templos budistas, centros de meditação e espaços holísticos como o Gota Sat Som, templo em forma de gota d’água com programação sonora semanal.

Como é o clima e a melhor época para visitar

A Chapada dos Veadeiros tem clima tropical de altitude, com duas estações bem definidas. A seca vai de maio a setembro, com dias ensolarados e ventos frios à noite, considerada a alta temporada. A chuvosa vai de outubro a abril, com temporais rápidos que enchem as cachoeiras. Nas altitudes acima de 1.200 metros, o inverno traz temperaturas próximas de 10°C.

🌊 Verão Chuvoso
Dez a Fev 18-28°C
☔ Alta
Cachoeiras com volume máximo. Atenção redobrada a trombas d’água!
🌊 CACHOEIRAS CHEIAS
🌿 Outono
Mar a Mai 15-27°C
🌤️ Média
Período de transição ideal para trilhas com paisagens verdes e parques mais vazios.
🌿 PAISAGENS VERDES
⭐ Seca (Alta Temporada)
Jun a Ago 10-27°C
☀️ Baixa
Alta temporada! Dias ensolarados perfeitos para travessias e o Vale da Lua.
⭐ ALTA TEMPORADA
🎒 Primavera
Set a Nov 18-30°C
🌤️ Média
Clima quente para conhecer a cultura Kalunga e trilhas de longa duração.
🎒 CULTURA E TRILHAS

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar na Chapada dos Veadeiros

De Brasília são 230 km pela BR-010 e GO-118 até Alto Paraíso de Goiás, cerca de três horas de carro. De Goiânia são 420 km pela BR-060 e GO-118. Da capital goiana até Alto Paraíso, o trajeto leva cerca de seis horas. Linhas regulares da Real Expresso conectam Brasília a Alto Paraíso. A entrada principal do parque fica na Vila de São Jorge, a 36 km de Alto Paraíso pela GO-239. O Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, em Brasília, é a principal porta aérea. É obrigatório contratar guia credenciado pelo ICMBio para acessar a maioria das trilhas dentro do parque. A vacina contra febre amarela deve ser tomada com dez dias de antecedência.

Leia também: No coração da Amazônia, este teatro foi revestido com 36 mil escamas de cerâmica trazidas da França no auge da borracha

Suba o planalto e conheça o Patrimônio Natural da UNESCO

A Chapada dos Veadeiros guarda um pedaço raro do Brasil Central, onde rochas de 1,8 bilhão de anos convivem com cachoeiras de água turquesa, comunidades quilombolas centenárias e o cerrado mais preservado do país. Poucos destinos combinam Patrimônio Natural da UNESCO, o ponto mais alto do Planalto Central e o mesmo paralelo de Machu Picchu.

Tags: chapada dos veadeirosCidadesGoiás
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