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Início Cidades

O segredo da romaria mais antiga do país que acontece dentro de uma gruta gigante

Por Ana Carolina
11/07/2026
Em Cidades
O segredo da romaria mais antiga do país que acontece dentro de uma gruta gigante

O segredo da romaria mais antiga do país que acontece dentro de uma gruta gigante // IMAGEM ILUSTRATIVA

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Na margem esquerda do Rio São Francisco, no oeste da Bahia, a 850 km de Salvador, existe uma cidade cuja história inteira nasceu dentro de uma caverna. Bom Jesus da Lapa, com aproximadamente 70 mil habitantes segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é a Capital Baiana da Fé e o destino da terceira maior romaria do Brasil, atrás apenas de Aparecida do Norte e Juazeiro do Norte. Recebe cerca de 2 milhões de romeiros por ano, boa parte concentrada no dia 6 de agosto, data consagrada ao Bom Jesus. O ponto de peregrinação é uma gruta natural encravada no Morro da Lapa, formação calcária de 90 metros de altura e cerca de 2 km de diâmetro.

Do português açoitado em 1691 à Capital Baiana da Fé

A história da cidade começa em 1691. Naquele ano, o pintor e ourives português Francisco de Mendonça Mar, nascido em Lisboa em 1657, decidiu abandonar a vida em Salvador e seguir como eremita pelo sertão baiano. A decisão veio depois de um episódio brutal: contratado em 1688 para pintar o palácio do governador, foi preso e açoitado ao cobrar pelo trabalho. Ao ser libertado, seguiu pelo sertão levando consigo apenas duas imagens sacras, uma de Jesus Crucificado e outra de Nossa Senhora da Soledade. Ao chegar ao Morro da Lapa, encontrou uma gruta natural com 50 metros de comprimento, 15 metros de largura e 7 metros de altura, e nela fixou moradia. Uma fenda em forma de cruz o convenceu de que aquele era o lugar. Em 1702, o arcebispo Dom Sebastião Monteiro da Vide o chamou a Salvador para ordená-lo padre; ele retornou em 1706 como Padre Francisco da Soledade, e ali viveu o sacerdócio por 16 anos, morrendo em 1722, conforme documenta o site oficial do Santuário do Bom Jesus da Lapa e da Mãe da Soledade.

A caverna virou lugar de fé com o crescimento do Ciclo do Ouro. Viajantes, mineradores e mascates que atravessavam o São Francisco começaram a parar na gruta para orar. Devotos começaram a construir casas no entorno do morro, e o povoado ganhou o nome de Arraial Bom Jesus da Lapa. Em 1937, o então capelão Monsenhor Turíbio Vilanova Segura publicou a obra Bom Jesus da Lapa: Resenha Histórica, considerada o registro documental que oficializou a origem da romaria e do culto ao Bom Jesus, conforme cita a enciclopédia baseada em fontes documentais.

Bom Jesus da Lapa, Bahia // Créditos: Wikimedia Commons

Uma cidade que vive do Rio São Francisco e da fé

Bom Jesus da Lapa é a primeira grande cidade que se encontra descendo o Rio São Francisco em território baiano. Além de polo religioso, é polo regional de comércio e serviços do oeste baiano, com hospitais de referência para dezenas de municípios do Médio São Francisco. A rotina da cidade acompanha o calendário religioso, com o auge entre julho e setembro, quando cerca de 700 mil pessoas chegam ao território para agradecer ou pedir graças. O restante do ano tem ritmo mais tranquilo, com pescadores, barqueiros, comércio local e ribeirinhos organizando a vida ao redor do São Francisco. As caravanas de romeiros que chegam de todo o Brasil em caminhões pau-de-arara, chamados de Caravanas da Fé, movimentam ainda a hotelaria familiar e as rancharias.

Bom Jesus da Lapa, Bahia // Créditos: Wikimedia Commons

O que ver e fazer em Bom Jesus da Lapa

O roteiro combina peregrinação, natureza, gruta natural, mirantes e o encontro histórico com o São Francisco.

  • Santuário do Bom Jesus da Lapa e da Mãe da Soledade: a igreja principal fica dentro da caverna natural, cujo teto e paredes são a própria formação rochosa de calcário. É a catedral e Matriz da cidade e um dos poucos santuários brasileiros construídos sem paredes edificadas.
  • Gruta de Nossa Senhora da Soledade: conectada à gruta principal por um túnel de 1.100 metros aberto em 1966, chega a abrigar até 3 mil fiéis nos ápices das romarias. Uma das mais bonitas do complexo, com maior concentração de celebrações e do sacramento da penitência.
  • Sala dos Milagres: local onde os devotos depositam ex-votos, cartas, fotos, próteses e miniaturas de casas de madeira como pagamento de promessas. Espaço emocionante que reúne trajetórias de fé de todo o país.
  • Trilha até o topo do Morro da Lapa: subida por trilha íngreme e irregular. Do alto, vista panorâmica de toda a cidade e do Rio São Francisco. Programa preferido para orações, velas acesas ou apenas contemplação.
  • Praça do Romeiro: inaugurada em 2020, é a mais nova homenagem ao monge fundador. Arquitetura em estilo romano com 12 estátuas dos Leões de Judá, uma imagem da deusa Deméter, uma fonte de mármore e a estátua de Francisco de Mendonça Mar. Fica próxima à Gruta da Soledade e é ponto de encontro dos peregrinos.
  • Esplanada do Santuário: palco das novenas realizadas entre 28 de julho e 5 de agosto. Reúne milhares de fiéis, missas solenes e a saída da procissão de 6 de agosto, dia do padroeiro, com fogos de artifício ao chegar ao Santuário.
  • Passeio de barco pelo Rio São Francisco: saídas do porto da cidade em pequenos barcos que navegam pelo Velho Chico, revelam a imponência do Morro da Lapa vista do rio, e páram em povoados ribeirinhos.
  • Povoado Quilombola do outro lado do rio: a 3 km do centro, do outro lado do São Francisco, guarda um turismo rural autêntico e a melhor gastronomia regional, com destaque para a moqueca de surubim e o peixe frito.
  • Igreja Matriz de Bom Jesus da Lapa: além do Santuário, o centro histórico tem a Igreja Matriz da cidade, com arquitetura tradicional do sertão baiano e programação regular de celebrações.
  • Aeroporto Regional de Bom Jesus da Lapa: um dos aeroportos com voos regulares mais surpreendentes de uma cidade do interior baiano. Serve os romeiros que vêm de longe e não podem enfrentar longas horas de estrada.

Este vídeo do canal Graci Pereira, com quase 900 mil visualizações, registra a emocionante celebração da Romaria de 2024 ao Santuário do Bom Jesus da Lapa, na Bahia. O conteúdo é marcado por cânticos tradicionais de fé (“benditos”) dos romeiros, celebrando a devoção ao Senhor Bom Jesus da Lapa.

Como é o clima em Bom Jesus da Lapa?

Semiárido tropical, com temperaturas altas o ano inteiro (18°C a 34°C) e chuvas concentradas entre novembro e março (médias mensais que ultrapassam 100 mm em janeiro). A estação seca vai de abril a outubro, coincidindo com o período das principais romarias e das noites mais frescas.

⭐ Estação Seca (Romaria)
Abril a Outubro 18°C a 34°C
☀️ Baixa
Alta temporada! Período das grandes romarias, visita ao Santuário, trilhas no Morro e passeios de barco no Rio São Francisco.
⭐ ROMARIAS E TRILHAS
🌊 Estação Chuvosa
Novembro a Março 22°C a 32°C
☔ Alta
O Velho Chico ganha vida: Rio São Francisco cheio e o melhor da gastronomia ribeirinha local.
🌊 GASTRONOMIA RIBEIRINHA

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar. Leve protetor solar e beba muita água.

Como chegar a Bom Jesus da Lapa

De Salvador, são 850 km pela BR-242, com percurso de cerca de 12 horas de carro. De Brasília, o trajeto é de aproximadamente 900 km. O Aeroporto Regional de Bom Jesus da Lapa (LAZ) opera voos regionais, o que evita as longas viagens rodoviárias. Alternativamente, o Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães (SSA), em Salvador, é o principal para voos nacionais e internacionais. Linhas de ônibus regulares partem de Salvador, Brasília, Belo Horizonte e várias capitais do Nordeste, com destino direto ao terminal rodoviário local. Nas Caravanas da Fé, romeiros chegam em caminhões pau-de-arara vindos de todo o Brasil, especialmente entre julho e agosto.

Leia também: Parece a China, mas é Brasil: a cidade com o maior parque salineiro do país

Bom Jesus da Lapa é o pedaço da Bahia onde a fé virou paisagem

Uma cidade que nasceu dentro de uma gruta descoberta em 1691, é o destino da terceira maior romaria do Brasil, foi certificada como a mais antiga do país, recebe 2 milhões de peregrinos por ano e ainda oferece o encontro com o Rio São Francisco em um dos pontos mais bonitos de seu curso. Poucos destinos brasileiros conseguem essa combinação de tradição religiosa, patrimônio natural e história em um único endereço.

Você precisa reservar quatro dias em Bom Jesus da Lapa entre julho e agosto, entrar na gruta principal ao amanhecer, subir ao topo do Morro da Lapa para ver o São Francisco de cima e provar a moqueca de surubim no povoado quilombola para entender por que essa cidade continua sendo o coração espiritual do sertão baiano.

Tags: bahiaBom Jesus da LapaCidade
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