Erguida sobre as colinas que cercam o Rio Vermelho, no oeste do estado, esta antiga capital nasceu da corrida pelo ouro no século XVIII e por pouco quase desapareceu quando as minas se esgotaram. Hoje, Goiás, mais conhecida como Goiás Velho, reúne cerca de 24 mil moradores e o conjunto colonial mais bem preservado do Centro-Oeste brasileiro.
O reconhecimento internacional que mudou o destino da antiga Vila Boa
Em dezembro de 2001, o centro histórico da cidade entrou para a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO. O título veio depois de um longo processo de candidatura, baseado em um critério raro: a adaptação dos modelos urbanos europeus à realidade tropical do Brasil Central.
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), mais de 90% da arquitetura barroco-colonial original permanece intacta. O conjunto urbano havia sido tombado em 1978, depois que algumas edificações isoladas já estavam protegidas desde os anos 1950. A combinação tornou o lugar o primeiro núcleo urbano oficialmente reconhecido a oeste da linha do Tratado de Tordesilhas.
O reconhecimento patrimonial deu sobrevida a uma cidade que parecia condenada ao esquecimento. Após o esgotamento das minas no século XIX, veio a estagnação. A perda do status de capital para Goiânia, em 1937, aprofundou o isolamento. Foi esse mesmo isolamento que acabou preservando o que outras cidades coloniais perderam.

Goiás Velho nasceu do ouro e do bandeirante Anhanguera
A história começa em 1727, quando Bartolomeu Bueno da Silva Filho, conhecido como Anhanguera, fundou o Arraial de Sant’Anna nas margens do Rio Vermelho após encontrar ouro na região. O povoado foi elevado a vila em 1739, com o nome de Vila Boa de Goiás, em homenagem ao bandeirante e aos índios Goyazes, primeiros habitantes da área.
Em 1818, por carta régia de Dom João VI, a vila se tornou cidade. Por mais de duzentos anos, foi o centro político e econômico de toda a região, até a transferência da capital. A cidade já viveu enchentes históricas e a quase perda de sua identidade, mas resistiu graças a moradores que defenderam cada casarão branco e cada rua de pedra.
Outro símbolo local é a poetisa Cora Coralina. Doceira e escritora, ela publicou seu primeiro livro aos 75 anos e se tornou uma das maiores vozes da literatura brasileira. A casa onde viveu, à beira do Rio Vermelho, foi construída por volta de 1782 e abriga hoje um museu.

O que fazer entre casarões coloniais e o centro histórico?
A boa notícia para quem visita é que tudo fica perto. O centro histórico pode ser percorrido a pé em algumas horas, com paradas para café, sorvete artesanal e visitas aos museus que contam a saga da antiga capital.
Entre os pontos turísticos imperdíveis do município, destacam-se:
- Museu Casa de Cora Coralina: residência do século XVIII com manuscritos, objetos pessoais e os tachos de cobre usados pela poetisa para fazer doces.
- Palácio Conde dos Arcos: antiga sede do governo, erguido entre 1735 e 1759, hoje funciona como museu e residência simbólica dos governadores no inverno.
- Museu das Bandeiras: instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia, guarda mobiliário e peças do período colonial.
- Igreja de Santa Bárbara: símbolo do barroco brasileiro, oferece vista panorâmica do casario branco e do Rio Vermelho.
- Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte: abriga o Museu de Arte Sacra com o maior acervo do escultor barroco Veiga Valle.
- Cachoeira Grande e Cachoeira das Andorinhas: opções de banho e trilha no entorno, ideais para os dias quentes.
A cozinha local é capítulo à parte e também atravessou séculos no fogão de lenha. O famoso empadão goiano nasceu ali, na antiga Vila Boa, e se espalhou por todo o Centro-Oeste, conforme reportagem do Festival Gastronômico da Cidade de Goiás.
Os pratos típicos mais marcantes da culinária vilaboense incluem:
- Empadão goiano: torta salgada de massa fina recheada com frango, linguiça, queijo, palmito, azeitona e, em algumas versões, pequi e guariroba.
- Arroz com pequi: clássico do cerrado, com sabor intenso e cor amarelada característica.
- Galinhada: arroz cozido com frango caipira, açafrão, pequi e cebolinha verde em panela única.
- Sorvete de castanha de baru: artesanal, vendido tradicionalmente perto do coreto da praça central.
- Alfenins: doces brancos em formato de pássaros, flores ou imagens religiosas, tradição preservada por doceiras locais.
- Quitandas e doces de Cora: receitas de figo, laranja-da-terra e cidra que homenageiam a poetisa, também doceira de mão cheia.
Quem planeja uma viagem cheia de história, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 85 mil visualizações, onde a Família mostra roteiros, culinária e belezas na histórica Cidade de Goiás:
Quando visitar Goiás Velho e o que fazer em cada estação?
A melhor época para conhecer Goiás Velho vai de maio a setembro, durante a estação seca do cerrado. O céu fica azul, as temperaturas ficam amenas e as ruas de pedra do centro histórico ficam mais seguras para caminhar. De outubro a abril, as chuvas frequentes deixam o calçamento escorregadio, mas a paisagem fica verde e exuberante.
Para ajudar no planejamento da viagem, veja a média de temperatura e o que aproveitar em cada estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Quem viaja em junho encontra o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), realizado anualmente desde 1999. A edição de 2024 reuniu mais de mil filmes inscritos de 76 países, conforme cobertura da Agência Cidades. Já a Semana Santa traz a Procissão do Fogaréu, encenação da prisão de Cristo realizada desde 1745, com farricocos encapuzados percorrendo as ruas iluminadas por tochas.
Como chegar à antiga capital do estado
O aeroporto mais próximo é o Santa Genoveva, em Goiânia, que recebe voos de diversas capitais brasileiras. De lá, são cerca de 144 km pela GO-070, em estrada asfaltada e bem sinalizada, em pouco mais de 2 horas de carro. A partir de Brasília, o trajeto soma aproximadamente 320 km pela BR-060 até Anápolis e depois pelas rodovias estaduais.
Linhas regulares de ônibus saem da rodoviária de Goiânia em viagens diárias para a antiga Vila Boa. Para quem quer explorar as cachoeiras do entorno e o Caminho de Cora Coralina, trilha de longo percurso de cerca de 300 km que termina ali, o carro alugado garante autonomia.
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Vale a pena conhecer Goiás Velho
A cidade reúne séculos de história em ruas de pedra que mudaram pouco desde o ciclo do ouro. Cada igreja barroca, cada casarão branco e cada praça arborizada conta um pedaço da formação do Brasil Central.
Você precisa caminhar pela antiga Vila Boa ao entardecer, sentir o cheiro do cerrado e descobrir por que uma poetisa doceira escolheu voltar para esta pequena cidade goiana e transformar a vida comum em literatura eterna.

