'As aventuras de Poliana', folhetim infantojuvenil do SBT/Alterosa, conquista a audiência

História faz sucesso em todas as faixas etárias com abordagem mais leve e positiva sobre o cotidiano

por Ana Clara Brant 17/06/2018 11:00

EVE SCHWARZ/SBT/DIVULGAÇÃO
Sophia Valverde interpreta Poliana, a garota que aplica o "jogo do contente" para enfrentar os conflitos e dificuldades da vida (foto: EVE SCHWARZ/SBT/DIVULGAÇÃO)
Em 1913, a escritora norte-americana Eleanor H. Porter (1868-1920) lançou Pollyanna, livro que se tornou um clássico da literatura infantojuvenil. Nem ela – que já havia publicado outros trabalhos – esperava tamanho sucesso. O romance narra a história de uma menina de 11 anos que, após a morte do pai, se muda de cidade para morar com uma tia desconhecida, rica e severa. No novo lar, a garota passa a ensinar às pessoas  o “jogo do contente”, que havia aprendido com o pai. O jogo consiste em procurar extrair algo de bom e positivo em tudo, mesmo nas coisas aparentemente mais desagradáveis.

Ao longo dos anos, a publicação ganhou adaptações para o cinema, palcos e televisão. No Brasil, a TV Tupi levou ao ar, em outubro de 1956, um folhetim inspirado na obra de Porter e protagonizado por Verinha Darcy. Foi a primeira telenovela voltada para o público infantojuvenil no país. Sessenta e dois anos depois, o SBT/Alterosa retorna à obra para exibir sua versão. Livremente baseada no clássico, a novela As aventuras de Poliana estreou em 16 de maio e já é um sucesso.



Em 5 de junho, a trama escrita por Iris Abravanel e protagonizada pela jovem atriz Sophia Valverde registrou 17,2 pontos de média – o maior ibope obtido pela dramaturgia da emissora desde 29 de julho de 2008,  quando exibia a reprise de Pantanal (17,6 pontos). As aventuras de Poliana alcança 15 pontos de média e mantém a vice-liderança no horário (20h30). No YouTube, o canal da novela deve bater 1 milhão de seguidores ainda nesta semana (já está com 983 mil) e registra mais 90 milhões de visualizações.

A dramaturga Iris Abravanel acredita que “o tempo reservado para assistir a Poliana é um momento de união da família”. “Enquanto assistem, todos compartilham bons sentimentos e podem trocar ideias sobre vários assuntos atuais e importantes para cada faixa etária. Poliana muda nossa maneira de pensar, e permite que possamos sonhar novamente. A criança que existe dentro de cada um de nós floresce, proporcionando momentos lúdicos e descontraídos”, analisa Iris, que completa uma década como autora de telenovelas.



Para o jornalista, mestre e doutorando em comunicação social pela UFMG Rafael Barbosa Fialho Martins, muita gente começou a deixar de lado as novelas da Globo – apesar de a emissora manter público considerável – e prestar atenção nas tramas do SBT e da Record. “São novelas muito bem-feitas, como a própria As aventuras de Poliana. Não é aquele padrão Globo, mas ela têm um texto de qualidade, investimento e elenco afiado. A história é boa. Não é à toa que teve  ótima repercussão entre o público e a crítica”, defende.

LANÇAMENTOS  Editoras também embarcaram no sucesso da novela. Edipro e Nova Fronteira são algumas das que reeditaram o clássico. Para Maira Lot Micales, editora da Edipro, Pollyanna é atemporal por tratar de um dilema muito humano, que é o modo como respondemos às adversidades da vida. “A possibilidade de buscar uma atitude positiva frente as dificuldades é uma questão relevante tanto para um leitor do século 19 quanto para o do século 21”, analisa.

Maira salienta que, como a maioria dos clássicos, Pollyanna conversa com qualquer público. “Talvez o fato de a protagonista ser uma jovem garota tenha criado, ao longo do tempo, essa identificação com um público mais jovem e feminino. Mas o tema central da obra é universal e pode ser experimentado por pessoas de qualquer idade”, ressalta a editora que leu o livro aos 13 anos. Há algum tempo, a Edipro criou o selo Via Leitura, dedicado à publicação de clássicos e incluiu Pollyanna e sua continuação Pollyana moça, que mereceu tradução própria e novo projeto gráfico. “São itens de colecionador”, diz.

Em abril, a Nova Fronteira também lançou a obra de Eleanor H. Porter. Ana Carla Sousa, responsável pela editora, explica que o sucesso do livro se deve à história cativante, inspiradora e à mensagem positiva “que não envelhece”. “A obra fez sucesso já no lançamento, o que nem sempre ocorreu com livros que se tornariam clássicos depois”, diz. A edição resgata a versão da tradução da década de 1980 do experiente Paulo Silveira. Maira garante que ela “não ficou datada”.

Ana Carla, como boa parte das meninas de sua geração, tem grande carinho pela obra. Ela leu uma adaptação na época da escola e recorda que ficou encantada com aquela menina órfã de bom coração. “Conheci a edição completa anos depois e foi uma experiência muito legal, porque, já com outro olhar, pude entender por que aquele livro foi tão importante e tão marcante.”

Sucesso nas redes


O SBT se tornou a emissora de TV com maior número de inscritos no YouTube no mundo. No site do canal (www.sbt.com.br), o mês de maio bateu recorde em dois anos, por se tratar do terceiro mês seguido com audiência superior a 30 milhões de visualizações. Nos mais de 20 canais do SBT ativos no YouTube, a emissora atinge 37 milhões de inscritos. Houve crescimento de 15% de visualizações dos vídeos entre abril e maio. Somente no canal @SBTonline, a emissora de Silvio Santos alcançou 1,6 bilhão de visualizações.

 



Para toda a família


Desde o remake brasileiro de Carrossel, em 2012, o SBT descobriu um nicho de público que tem se mantido cativo desde então. “Não são apenas crianças e adolescentes, é a família toda. Apesar de temáticas infantis, são tramas com questões adultas também, com conflitos e relacionamentos. E o mais importante: a abordagem é mais leve. A crítica e a imprensa especializada, de maneira geral, não valorizam tanto as novelas do SBT e as tratam pejorativamente como novelinhas. Já é hora de mudar esse olhar, porque muitos telespectadores já descobriram o valor dessas produções”, ressalta o pesquisador Rafael Barbosa Fialho.

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Anderson, Maria Laura e a filha Alice acompanham fielmente a trama da novela (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)


A relações-públicas Maria Laura Savassi, de 30 anos, o marido Anderson Carvalho, de 33, e a filha Alice, de 1 ano e meio, acompanham As aventuras de Poliana de segunda a sexta. “Nunca tinha ouvido falar nessa história da Poliana, mas estamos adorando. Mesmo sendo tão pequena, minha filha já entende muita coisa. Alice fica atenta na hora da novela e se dispersa quando tem intervalo. É interessante”, conta Maria Laura.

Ela confirma a tese do jornalista Rafael Fialho, ressaltando a maneira mais inocente de abordar questões cotidianas. “Tem bullying, tem discussões, tem namoro, mas não aquelas maldades pesadas, assassinato, adultério. Tem uma hora que as pessoas cansam de ver isso e querem algo mais leve. As aventuras de Poliana é um programa pra toda a família”, destaca Maria Laura.

Três perguntas para Iris Abravanel, novelista


Imagino que a personagem Pollyanna tenha feito parte da sua trajetória de vida. De que maneira o livro te impactou?
Desde muito cedo, não gostava de ver ninguém triste. Procurava fazer graça me vestindo com roupas da minha nona, bolsa da minha tia Kelly, sapatos da minha mãe. E, lógico, na boca, o batom vermelho pintado torto, por falta de coordenação motora. Assim, ia imitando todas, com suas manias e trejeitos. Logo, todos estavam rindo e o ambiente mais descontraído. Isso me deixava feliz. Já era um pouco Pollyanna, sem saber. Aos 12 anos, ganhei o livro Pollyanna, da autora Eleanor H. Porter. Comecei a jogar o “jogo do contente”, sem perceber que estava, cada vez mais, ensinando minha mente a focar nas saídas mais eficientes para conviver com os maus momentos da vida.

Qual é o grande desafio de escrever As aventuras de Poliana?
Nosso grande desafio é conseguir que todos pratiquem o “jogo do contente” com seus amigos, com seus filhos, com seus familiares.

Por que essa história, que tem mais de 100 anos, tornou-se um clássico?

Hoje, a neurociência explica que podemos até curar doenças através da mudança de nossos pensamentos. A senhora Eleanor, essa mulher incrível, já intuía isso em 1913. Creio que a história de Pollyanna influenciou todos os que leram e entenderam o que realmente significava o “jogo do contente”.

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