'Não foi novidade vê-la vencendo', dizem vizinhos da mineira Mylena Jardim, vencedora do The Voice Brasil

Amigos dizem que talento da cantora é conhecido nos bairros Tupi e São Gabriel e elogiam família

por Ana Clara Brant 31/12/2016 09:20

Túlio Santos/EM/D.A Press
O time BEC (Barrigudos Esporte Clube) reuniu amigos e fãs da cantora no bairro São Gabriel, para torcer por ela; ontem, eles ainda comemoravam (foto: Túlio Santos/EM/D.A Press )

Os bairros de São Gabriel e Tupi – regiões Nordeste e Norte de BH – estão em festa. A moradora mais ilustre do pedaço, a cantora Mylena Jardim, de 17 anos, venceu a 5º edição do The voice Brasil, na noite de quinta. Com 34% dos votos do público, em uma das disputas mais acirradas do programa, ela superou Afonso Capello (Time Carlinhos Brown), Dan Costa (Time Lulu Santos) e Danilo Franco (Time Claudia Leitte). Favorita das redes sociais, a mineirinha, que começou no time de Claudia Leitte e migrou para o de Teló, levou um prêmio de R$ 500 mil, o gerenciamento de sua carreira e um contrato com a gravadora Universal Music.

Mylena canta desde os 5 anos de idade e chegou a gravar um EP financiado com as economias da família e a venda do carro do pai. “No começo do ano passado, a mãe dela (Marlúcia de Souza Jardim ) me procurou na Rádio Favela, onde eu trabalhava, para divulgar a música da Mylena. Quando ouvi o disco, até achei interessante, mas quando ela tocou e cantou ao vivo  no estúdio, fiquei impressionado. E ela ainda tinha composições autorais”, conta o radialista Ramon Damásio, incentivador da artista.

Na noite da final do The Voice, a pedido de Marlúcia, Ramon reuniu amigos, vizinhos e boa parte dos 90 integrantes do Barrigudos Esporte Clube (BEC), time amador de futebol no qual joga Paulo Jardim, pai de Mylena. Todos estavam a postos para torcer por ela. O encontro na rua Codajás reuniu aproximadamente 200 pessoas, que acompanharam o programa em um telão. Ontem, a turma ainda celebrava a conquista da garota. “O BEC é uma família, e a gente fez questão de se reunir para torcer pela Mylena, porque ela sempre nos prestigiou. Todo final de ano ela canta na nossa festa de confraternização e, mesmo agora, disputando o The Voice, fez questão de participar”, diz Cícero Lopes, jogador do time.

Juliano Santos, amigo da família Jardim, recorda que, quando Mylena debutou, o clube amador preparou uma surpresa para ela. “Demos um teclado de presente, e a Mylena ficou superemocionada. Ela é autodidata, assim como o pai. Todos da casa dela sempre a incentivaram.” Uma das mais emocionadas com a vitória da vizinha é Ângela Nascimento. “Meu filho, que joga no Barrigudos, estava com depressão. Um dia, sem eu pedir, Paulo e Mylena apareceram lá em casa e ela começou a cantar. Meu filho ficou tão emocionado que mudou de atitude a partir dali. Pode parecer exagero, mas a Mylena ajudou a curá-lo”, diz.

O craque do Barrigudos Esporte Clube, Júlio da Lua, admite que nunca tinha visto o The voice antes de Mylena Jardim entrar na disputa. Aí, não só fez questão de assistir a todos os episódios, como fez campanha para ela. “Varei madrugadas votando e saía pedindo para todos. Não é porque ela ganhou, mas toda a família é muito batalhadora, humilde, gente do bem. Todos aqui sempre souberam do talento dela. Não foi novidade vê-la vencendo. Fico muito feliz em saber que, com o prêmio, a Mylena vai poder ajudar a família.”

Na final do programa, Mylena cantou Say, say, say (Paul McCartney e Michael Jackson) ao lado de Danilo Franco; Carnavália (Tribalistas) e Freedom ‘90, em homenagem a George Michael, morto no domingo de Natal. Depois de ser anunciada campeã – em escolha popular – ela voltou a interpretar Olhos coloridos (Macau), que havia cantado nas audições às cegas, garantindo sua entrada no programa. Quando foi anunciado o resultado, a reação de surpresa de Mylena foi tão grande que virou meme na internet. A vitória da jovem foi celebrada nas redes sociais por muitos fãs anônimos e famosos, apelidados de ‘jardiners’, em referência ao sobrenome da nova estrela. Entre elas, a atriz Taís Araújo: “Gata, poderosa, maravilhooooosa! Parabens Mylena! #TheVoiceBrasil”

BIS MINEIRO


Minas Gerais já havia vencido o The Voice Brasil em 2014, com a dupla sertaneja Danilo Reis & Rafael, de Betim, região metropolitana de BH. Apesar do prêmio, a carreira da dupla ainda não decolou. Durante a gravação de seu disco, os artistas tiveram um conflito com seu ex-técnico no programa, Lulu Santos, que compôs para eles Um hino e concluiu que a música não seria incluída no álbum. Lulu insinuou que os mineiros se julgam autossuficientes. A assessoria da dupla diz que tudo foi um mal-entendido.

Vencedora planeja comprar casa e carro


Maurício Fidalgo/Divulgação
(foto: Maurício Fidalgo/Divulgação )

No palco, a mulher que ganhou a 5ª edição do The Voice Brasil, inundando os ouvidos da plateia com sua voz exuberante, marcada por graves e agudos à Whitney Houston, nem parece ter apenas 17 anos. Ao telefone, a menina é quem se mostra mais. Do Rio, ela conversou ontem à tarde com o Estado de Minas.     Com o bolso recheado pelo prêmio de R$ 500 mil, a cantora, por enquanto, não quer se afastar da família.


Atualmente, ela, a mãe e o irmão residem no bairro Tupi, na Região Norte da capital Mineira. Com o dinheiro ganho no programa, ela pretende fazer uma mudança. De bairro, apenas. Não está nos seus planos no momento se transferir para o Rio ou São Paulo. “Não vou sair de BH agora. Pretendo investir o dinheiro que ganhei para comprar um apartamento para minha família e um carro”, diz a moça.

Quando a reportagem perguntou sobre episódios marcantes de sua trajetória até chegar ao pódio do The Voice, Mylena titubeou. “São muitas histórias, mas não estou me lembrando no momento. Minha mãe é que sabe contar, vou chamá-la para você”, disse, soltando um grito de “Manhêêê”, que denuncia a garota no limbo entre a adolescência e a fase adulta.

RIFA Marlúcia de Souza Jardim, de 39 anos, emenda a conversa com voz calma e relembra as histórias dos tempos do aninomato. Cita, por exemplo, o episódio “das rifas”. “Cheguei a pedir autorização para donos de vários bares para minha filha cantar e, enquanto isso, vendia rifas de aparelhos de televisão a R$ 5. Enquanto ela cantava, eu passava de mesa em mesa, contando a história dela e de como eu investiria o dinheiro da venda. Era tudo para a carreira dela”, relata.

Com um certo pesar, Marlúcia relembra uma experiência desagradável. “Teve uma vez que a Mylena tratou um show na Praça Sete, mas chegou atrasada, porque a gente sempre foi muito humilde, depende de ônibus e tudo mais. Só que ela cumpriu as três horas de show combinadas. Mas, no final, por conta do atraso, recebeu só R$ 100”, diz.    Apesar, de, por ora, não planejar sair de Belo Horizonte, Mylena tem planos ambiciosos para fincar o pé no meio artístico. Sem entrar em detalhes, a belo-horizontina revela que profissionais do entretenimento já se manifestaram para ajudá-la a conduzir a carreira com que sempre sonhou. “Canto desde os 5 anos e, desde os 12, sei que é isso que quero fazer para o resto da minha vida. Meus pais sempre acreditaram em mim, mas, em algum momento, preocupados, chegaram a me dizer: ‘Filha, nós somos tão pobres. Você é tão inteligente, porque não estuda medicina, direito, engenharia…’. Mas eu dizia: olha, posso até fazer isso para agradar vocês, mas eu vou ser cantora.”

Nem mesmo o bullying racista que sofreu na infância conseguiu fazer com que ela perdesse a fé no próprio talento. “Quando eu estava lá pela 6ª ou 7ª série, meus colegas na escola chegaram a me dizer que eu cantava bem, mas não iria longe porque eu era negra. Hoje fico feliz de inspirar outras meninas como eu. De dar coragem pra elas seguirem seus sonhos, mostrando que nada é impossível”.

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