Saiba até que ponto os alimentos da moda fazem bem ou mal

Além dos superfoods (alta densidade nutricional), a cada temporada um fruto, leguminosa, grão ou receita nova ganham holofotes. Mas quais são as vantagens e desvantagens dessas dietas?

por Lilian Monteiro 12/03/2018 11:09

Beto Novaes/EM/D.A Press
A advogada Kamilla Alves Arcanjo diz que muitas dicas nas redes sociais são válidas, mas não é para acreditar ou sair seguindo todas (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)

Quinoa, linhaça, açaí, cacau, romã, azeite de oliva, café, maçã, vinho tinto, mirtilo (blueberry), cúrcuma, salmão, brócolis... Quem se interessa por comida saudável sempre está antenado nos superfoods, ou seja, os superalimentos, que têm elevada densidade nutricional - muitos nutrientes, poucas calorias. Aqueles que prometem melhorar a memória, reduzir o risco de doenças, combater a depressão, controlar o colesterol, perder peso, retardar o envelhecimento... Será mesmo? Nomes complicados como polifenóis (presentes em frutas, hortaliças, sementes oleaginosas), isoflavonas (soja e derivados), carotenoides (frutas, legumes e vegetais), probióticos (bactérias boas vivas, como os lactobacilos), prebióticos (alimentos para as bactérias boas) passam a ser repetidos como grandes beneficiários do organismo, mesmo por quem não entende do assunto.

Se por um lado nada melhor do que cuidar e se preocupar com a alimentação, por outro, todo cuidado é pouco. Nem tudo que é natural é bom. E o nutriente que uma pessoa precisa pode não ser o que a outra necessita. Claro, é melhor selecionar o alimento do que ingerir remédios. Mas também nada em excesso pode ser bom. Nem mesmo comida saudável.

Envolvidas pelo marketing, seduzidas por declarações de pseudo-famosas, por celebridades, musas fitness e até mesmo profissionais da área da saúde, bem-estar e qualidade de vida, alguns alimentos entram na moda, viram tendência e ganham o cardápio diário das pessoas comuns, que os adotam sem saber se elas precisam ou não dos nutrientes daquele produto. Muitos só registram os benefícios e nunca imaginam se tais alimentos terão alguma contraindicação. O que é um risco.

Certamente, se o universo da comida, dos alimentos, da nutrição ou do estilo de vida saudável desperta seu interesse, em algum momento já se deparou com receitas exaltando o valor de produtos que se tornam, de uma hora para outra, essenciais à saúde, como goji berry, maca peruana, chia, quinoa, carne de jaca, linhaça, mirtilo, amaranto, óleo de coco, chá-verde, chá branco, especiarias (cardamono, curry, tomilho...), kombucha, matchá, grão teff, naan, inhame, batata-doce...

Claro, nem tudo está errado. Cada alimento tem sua riqueza nutricional e é fonte de vários benefícios que contribuem para uma boa saúde. Mas tem de saber introduzí-los na alimentação. Pesquisar, ter uma avaliação profissional, saber se o seu organismo realmente precisa do que determinado alimento oferece.

SUCO VERDE

A alimentação da advogada Kamilla Alves Arcanjo sempre foi saudável. Apaixonada por saladas, legumes, vegetais, peixes e comida japonesa (desde os 5 anos), ela conta que tudo isso faz parte da sua vida e coloca em prática, privilegia o que é natural e orgânico. “Há dois anos, consultei uma nutricionista para entender melhor os alimentos. Saber que a banana é saudável, mas calórica. Logo, cuidado com o excesso. É preciso ter cuidado. Não é porque é saudável que você pode comer a toda hora e em qualquer quantidade.”

Kamilla diz que muitas dicas nas redes sociais são válidas, mas não é para acreditar ou sair seguindo todas, já que muitas pessoas focam mais no corpo do que na alimentação. “Há musas fitness que postam um produto, mas não alertam que fazem uma dieta regrada e atividade física pesada. Sem falar que é importante uma rotina saudável, bom sono. Cada um tem um corpo, um metabolismo. Ter acompanhamento nutricional, saber como seu organismo funciona e suas necessidades do dia a dia são cuidados essenciais. Tudo tem limite e não é porque está no Instagram que tem de correr atrás”, afirma.

A advogada destaca que tudo em excesso faz mal. “Por um tempo, para regular meu intestino, tomava água com limão. Depois, fui orientada a mudar e, para ter outros benefícios, troquei pelo suco verde. No meu tem uma rodela de pepino japonês, de abacaxi, gengibre, couve, água de coco, limão e chia. Ele acompanha meu café da manhã, que tem ainda dois ovos mexidos, temperos, pimenta calabresa, molho de pimenta malagueta e café preto com canela em pó.”

FAST-FOOD

Para muitos, a preocupação deveria ser com a alimentação ruim, o fast-food, o excesso de sal, açúcar e gordura. E é mesmo necessário controlar todo esse consumo porque, comprovadamente, faz mal, pode matar. No entanto, o excesso com comida saudável também é questionável. E pode até provocar doença, a chamada ortorexia, que é um transtorno alimentar obsessivo pela alimentação saudável.

Hoje, o Bem Viver propõe esta discussão: o que fazer diante de mais um alimento da moda?. Ele faz bem? Tem mesmo de levá-lo para seu prato? Pode consumi-lo? Você precisa do que ele vai oferecer? Fomos ouvir quem entende do assunto e fala com propriedade. Médico nutrólogo, ortomolecular e nutricionista. E conversamos também com quem não abre mão da alimentação saudável, mas sem perder a consciência. Conheça, descubra, inspire e busque orientação competente para saber se serve para você!

Escolhas responsáveis
Elas se preocupam com alimentação, procuram consumir o que é saudável e, confessam, não resistem a certos modismos. A primeira impressão das pessoas é: se faz bem, por que não?

Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
Taiane Nunes Barcellos, médica oftalmologista, conta que já seguiu várias dietas da moda (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

Perfis diferentes, necessidades distintas. Se para uns o importante é ter o modelo de calça jeans última tendência, para outros, é a mais nova receita, fruta, legume, vegetal, cereal, suco ou grão que o fará correr para a feira, mercadinho ou supermercado para comprar e experimentar. Os alimentos da moda, superfoods ou não, conquistam e têm uma legião de paladares ávidos por incluí-los no cardápio do dia a dia.

Taiane Nunes Barcellos, médica oftalmologista, conta que gosta de comer e costuma ter uma boa relação com a alimentação. “Nunca fui muito impulsiva. Geralmente, sou bem controlada durante a semana e deixo para sair um pouco da dieta nos fins de semana. Nos últimos anos, venho tentando manter uma alimentação mais natural e saudável”, preocupação despertada ainda na adolescência, aos 14 anos. “Já segui vários tipos de dieta da moda. Morava com outras amigas da mesma idade e sempre era a referência quanto à alimentação saudável. Hoje, sigo um pouco do que foi indicado pela minha nutróloga e também do que vejo de novidade na mídia.”

A oftalmologista confessa que já incluiu na alimentação vários alimentos que, com o passar do tempo, foi descartando. “Granola, leite e derivados. Não tenho intolerância à lactose, porém, esses produtos são inflamatórios e me causam inchaço. Apesar de gostar muito de frutas e sempre achar que todas são saudáveis, diminuí bastante a quantidade que consumia e eliminei algumas que têm o índice glicêmico alto, como melancia e uva.” Assim como fez o caminho inverso, produtos que não consumia e que, depois de experimentar, ficaram no cardápio: “São mudanças recentes. Até se tornarem produtos da moda, não consumia batata-doce (não gostava), tapioca, chia, quinoa, avocado, chás, oleaginosas (ótimas opções como lanche rápido). Atualmente, quando vou comer algum queijo, dou preferência ao canastra. Por ser um tipo de queijo que sofre maturação e nessa fase a caseína é degradada e a lactose é fermentada e os teores ficam quase zero. Outro ingrediente que incluí recentemente no cardápio foi a cúrcuma, curry e pimenta caiena, que são ótimos para acelerar o metabolismo”.

Outro vício recente, revela Taiane, é o café. “Uma ótima opção para acompanhar, em todas a manhãs, meu 'sagrado' omelete. Eu o incluí na minha dieta por influência da mídia social por ser frequentemente usado como pré-treino e para acelerar o metabolismo. Substituí completamente o refrigerante por água com gás e limão. Consegui aprender a amar os chocolates 70% cacau e passei a consumir o adoçante por um que é mais saudável, o xylitol.” Ela conta ainda que usa suplementos e vitaminas: “Lactobacilos, vitamina D, teacrine (acelera o metabolismo) e morosil (ajuda na queima de gordura)”.

Taiane enfatiza que, apesar de ser médica, não tem tanto conhecimento sobre a área de saúde associada a uma boa alimentação. “Faço consultas rotineiras com a minha nutróloga, que me orienta sobre a minha necessidade individual de suplementação e alimentação. Gosto de ler sobre o assunto e costumo seguir, por conta própria, algumas novidades que surgem no mercado. Geralmente, as busco no mundo fitness do Instagram, de digital influencers, nutrólogas e nutricionistas. Sempre faço novas receitas que leio no Instagram e, quando vejo algum suplemento novo, vou logo ler artigos sobre a nova substância.”

REDES SOCIAIS

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
Estudante de educação física, Viviane Kelly segue as tendências desse mundo saudável nas redes sociais (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

Já a estudante de educação física Viviane Kelly confessa que segue as novidades desse mundo saudável, fitness, natural e orgânico das redes sociais. No entanto, ela ressalta que tem uma nutricionista que cuida de tudo que ingere. “Adoro, pesquiso, quero experimentar, mas só sou liberada a consumir depois que minha nutricionista aprova. Ela é quem sabe se aquele alimento dará o resultado que eu espero. Cada um é cada um e o efeito em você pode não ser o mesmo em mim. Acredito que tudo é bem-vindo, desde que tenha acompanhamento profissional. Além de cuidar da alimentação, faço exames de sangue a cada seis meses para saber se está tudo certo, se tenho alguma carência de nutrientes ou vitaminas ou mesmo excesso de algo. Sou a favor de tudo, mas com responsabilidade.”

Dos modismos que tem por aí, Viviane Kelly conta que consome muito chá de hibisco: “Uso como pré-treino, para desinchar, assim como a cavalinha. Mas sei que nada substitui a água e se vou correr a Volta da Pampulha, por exemplo, tenho de parar com o hibisco uma semana antes porque corro o risco de desidratar. Li há pouco tempo outra receita ótima para pré-treino. Congelar a casca de jabuticada e bater na hora com água. Vou testar. Mas tenho cuidado com o que coloco dentro do meu corpo, porque quero viver com saúde”.

Alimentos em alta:

» Kombucha: bebida milenar oriental feita a partir de um chá ou infusão adoçado que, a partir da fermentação controlada, oferece qualidades probióticas, além de vitaminas do complexo B e K provenientes do processo metabólico dos micro-organismos. É bebida saborosa, refrescante e naturalmente frisante. Destaca-se por ser feita apenas com ingredientes naturais, substituto de refrigerantes e bebidas alcoólicas, podendo ter vários sabores. Tem grande quantidade de vitaminas e nutrientes

Reprodução/Internet/blog.pureformulas.com
(foto: Reprodução/Internet/blog.pureformulas.com)
» Freekeh (farik ou frik): grão que tem origem na Síria, Líbano e Jordânia, é muito usado na cozinha árabe. Colhido ainda verde, depois tostado e moído, é conhecido como trigo verde, com várias propriedades nutricionais que o colocam no grupo dos alimentos funcionais e dos supergrãos. Um dos maiores benefícios é seu altíssimo teor de proteínas, fibras alimentares e baixo índice glicêmico. Ou seja, pouco açúcar, pouca gordura e elevada sensação de saciedade. Além de dar ao corpo nutrientes de que ele precisa para regenerar músculos e tecidos, equilibra o funcionamento do intestino. Ainda tem um amido resistente que estimula a proliferação das boas bactérias que ajudam nosso sistema digestório. Pode substituir a quinoa ou o grão-de-bico e ser usado em saladas e sopas, risoto...

Reprodução/Internet/Biosom
(foto: Reprodução/Internet/Biosom)
» Grão teff: considerado o novo superalimento, o grão teff, em 2018, poderá entrar no patamar da quinoa. Rica fonte de minerais e sem glúten. O cereal é alternativa para ser usado como farinha em receitas de pães e bolos

» Naan: pão indiano à base de trigo, ele é mais leve e saudável do que a maioria dos outros pães. Fonte de fibras alimentares, o que favorece a digestão e a saciedade. Ele geralmente é assado em um tandoor (forno de barro) e pode ser uma ótima alternativa para quem faz pizzas funcionais no dia a dia

Reprodução/Internet/MaisEquilibrio
(foto: Reprodução/Internet/MaisEquilibrio)
» Matchá: erva oriental milenar no Japão e novidade no Brasil. Tem efeito diurético, atua na perda de peso e no combate à retenção de líquido, desinchando o corpo. Usado como chá ou em receitas de bolos, tortas ou sorvetes

» Carne de jaca: poderoso nutricionalmente, seu consumo é indicado para melhora da digestão, aumento da imunidade, maior energia para o organismo e combate à anemia. Da polpa à semente, pode ser ingrediente de coxinhas, pães, farofas e até substituir a farinha de mandioca

» Óleo de semente de uva: como o óleo de coco, é uma ótima alternativa para substituir os óleos comuns. Fonte rica de vitaminas, dá energia ao organismo e protege o sistema imunológico.

» Polvo: muitos apostam como o fruto do mar de 2018. Proteína poderosa, destaca-se pela presença do ômega 3 e ácido graxo, considerado a gordura boa que ajuda na produção de hormônios e fortalece o coração. Indicado o consumo grelhado.

PALAVRA DE ESPECIALISTA
» Suplemento de curcumina
Médico Ricardo Teixeira - neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

“Gosta de comida indiana? Sim? Pois não é que seu cérebro também gosta? Pesquisadores da Ucla nos EUA publicaram em janeiro os resultados de uma pesquisa mostrando que o suplemento de curcumina em cápsulas, duas vezes ao dia, melhora as funções cerebrais por até 18 meses. Os efeitos antioxidante e anti-inflamatório da substância são os principais candidatos a explicar esses resultados. Os voluntários do estudo eram adultos com idades entre 50 e 90 anos que tinham leves queixas de memória. Além de demonstrar os efeitos clínicos benéficos do suplemento (90mg de curcumina duas vezes ao dia), os pesquisadores mostraram por meio da tomografia por emissão de pósitrons que o contingente de marcadores patológicos da doença de Alzheimer, placas beta-amiloides e proteína Tau eram menores no grupo que recebeu suplemento após 18 meses. A curcumina promoveu melhora nos níveis de atenção, memória e humor somente entre aqueles que receberam o suplemento. Nenhum dos voluntários apresentava depressão e futuros estudos deverão incluir pacientes deprimidos e testar se os efeitos também são positivos nesse grupo de pacientes. Além disso, esses estudos deverão contar com a análise da predisposição genética a desenvolver a doença de Alzheimer em cada indivíduo. Efeitos colaterais? Raras foram as pessoas que tiveram leves sintomas de diarreia e náuseas, algo que os que receberam placebo também apresentaram.”

Informação é aliada contra armadilhas
Pela complexidade do organismo, é preciso cuidado e orientação no consumo dos chamados superalimentos. De forma indiscriminada, pode trazer mais problemas do que soluções

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
Médico ortomolecular, Luiz Jabbur ressalta que é importante procurar saber o fundamento por trás de cada uma dessas "modas" (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

O saber da fonte certa é tudo. O médico ortomolecular Luiz Jabbur, pós-graduado em nutrologia, membro das principais associações antienvelhecimento e diretor do Instituto Luiz Jabbur, alerta que o mais importante é buscar informação de qualidade e se atualizar constantemente na hora de se alimentar bem. “O conhecimento está sempre em evolução. Temos vários exemplos, na própria medicina, de alimentos que já foram execrados e hoje sabemos que fazem bem, como o ovo e o café. Ovos não aumentam o colesterol e são um superalimento para o ser humano. O café, desde que consumido na quantidade certa (3 xícaras de espresso ou 250ml de café coado) é um alimento funcional, que ajuda na memória, concentração e, quando consumido após o almoço, diminui o pico de insulina pós-prandial. Além disso, é importante procurar saber o fundamento por trás de cada uma dessas 'modas' e analisar se se adequa ao seu objetivo: a batata-doce é um superalimento para atletas de alta performance, mas não é a melhor opção para quem quer emagrecer por exemplo.” Ele reforça que, para escapar dessas armadilhas, é necessário, além do acesso à informação, senso crítico.

Entre “tendências e mais tendências”, o chamado grão teff tem sido considerado o novo superalimento de 2018. Comparado à quinoa. “O Eragostis tef, ou simplesmente grão teff, realmente está sendo apontado como o superalimento deste ano. Ele pode ser consumido de duas maneiras: em grão, que é sua forma natural, ou como farinha. Por ser rico em aminoácidos essenciais e por apresentar lisina, o que não é comum nos demais cereais, tem se destacado. Além disso, é rico em carboidratos complexos, que são menos absorvidos no intestino, e contribui para a saciedade.” Mas o médico enfatiza que, apesar de todos estes benefícios, ele não é para todos. “Todo plano nutrológico bem elaborado deve levar em conta três principais variáveis: carga glicêmica, índice glicêmico e o índice Pral, que calcula cientificamente a carga ácida ou alcalina de um alimento. Assim, apesar de o grão teff apresentar uma quantidade maior de carboidrato complexo, não é ideal para ser consumido por um paciente diabético, quando se leva em conta esses parâmetros citados. O ideal é sempre personalizar sua alimentação conhecendo suas necessidades e suas características de saúde.”

Na onda do que está em alta, também ganha projeção a bebida kombucha, um chá milenar oriental, fermentada com bactérias e leveduras, que tem virado febre de consumo. Luiz Jabbur explica que, hoje, o intestino é considerado um dos mais importantes órgãos pela medicina e várias descobertas atuais passam por ele. “A flora bacteriana intestinal é imprescindível para determinar se uma pessoa será magra ou obesa, por exemplo. Além disso, até doenças como o altismo, têm relação com a microbiota intestinal. Nesse contexto, destaca-se a importância do kombucha. Serve para melhorar a microbiota intestinal e, portanto, todo o resto do organismo. Os maiores riscos do kombucha são dois: primeiro, se consumido em excesso por um organismo não acostumado, pode provocar diarreia e, consequentemente, desidratação. Segundo, na expectativa de um milagre ou de um emagrecimento rápido, as pessoas podem tomá-lo em demasia e não alcançarão esse resultado. Para o tratamento da flora intestinal, deve-se sempre procurar um médico especialista na área, que manipulará um conjunto de lactobacilos específicos e em quantidades adequadas para mudar o que se fizer necessário a cada paciente, de acordo com seu perfil e características. O kombucha é uma excelente ferramenta para a manutenção do intestino, depois de devidamente tratado.”

RECEITA PRONTA

O problema aqui não é consumir a novidade, mas sim fazê-lo de forma indiscriminada, sem orientação especializada, correndo o risco de prejudicar a saúde. Como se fosse tendência, a cada temporada surge uma “estrela”, o que em vez de gerar benefícios ao organismo, vem acompanhado de excessos que merecem um alerta. Um dia foi a chia, no outro a quinoa, passou pela tapioca, gogiberry, óleo de coco, aveia, linhaça e por aí vai. “Analiso essa questão com a seguinte frase: quando entendemos o porquê, o cérebro mostra o como. O que quero dizer é que, apesar de conhecidos e badalados, devemos sempre entender o fundamento por trás de cada alimento. Só para exemplificar: a tapioca virou um superalimento por não ter glúten, e daí começou a febre de se consumir tapioca. No entanto, o índice glicêmico (quantidade de insulina que o corpo precisa liberar para carregar o açúcar no sangue) da tapioca é pior do que o do pão de sal. Portanto, para a tapioca ser um superalimento, é necessário acrescentar uma fibra para diminuir o tempo de digestão da mesma, como a chia. A partir daí, e por outros motivos, a chia passou a ser um superalimento”, explica o especialista.

Luiz Jabbur quer demonstrar que muitas vezes queremos receitas prontas e simplistas no anseio de um emagrecimento rápido, por exemplo. “Mas o organismo é complexo e as informações devem ser aprofundadas. Além disso, se decidirmos consumir todos os superalimentos simultaneamente teremos mais problemas do que soluções. Portanto, descubra qual benefício cada alimento oferece, como ele faz isso, analise se aquilo é necessário ao seu organismo e aí sim, passe a consumi-lo.”

E num mundo globalizado e interligado, como lidar com esse fenômeno? “Sempre foi assim e sempre será. Procuramos e queremos saber sobre as novidades. Somos curiosos e queremos duas coisas: praticidade e, às vezes, um milagre. No sentido da praticidade, acho os modismos excelentes, desde que despertem as pessoas a estudar o superalimento da vez e entender se é adequado ao seu perfil. Além disso, quanto mais benefícios, com vitaminas e minerais, nutrindo melhor o organismo, maior potencial de otimizar nossas refeições. No campo do milagre, acho lamentável. Muitas vezes, a procura pelo modismo é a busca de um emagrecimento rápido e mágico. Nesse sentido, sempre cito uma frase de Einstein: 'Não adianta fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes'. Se quer mudar seu corpo, precisará mudar mais do que acrescentar o superalimento da vez.”

Saúde na internet

A internet é considerada a principal fonte de informações dos brasileiros. Na área de saúde, a rede mundial é mais consultada do que os próprios médicos. É o que indicam os resultados da pesquisa Health Report, feita pelo portal Minha Vida, site sobre saúde e bem-estar do país. O estudo aponta que nove em cada 10 mulheres de classe C, com idade entre 25 e 59 anos, buscam informações de saúde na internet antes ou depois da consulta médica. Uma das tendências apresentadas pela pesquisa é a preocupação com o envelhecimento mais saudável e a mudança de hábitos para manter o corpo em forma e mais disposto. Durante as buscas pelo tema na internet, as mulheres costumam navegar por sites especializados (67,1%), blogs sobre saúde (53,6%), Facebook (46%) e buscadores on-line (43,9%). O lado bom é que, apesar de recorrerem aos sites, as mulheres não colocam as informações da internet acima da opinião médica.

Experimentar e saber dosar

Tulio Santos/EM/D.A Press
Nutricionista Pâmela Sarkis conta que a linha saudável pronta para quem não tem tempo tem sido foco de recomendações e preferências para o consumidor preocupado com a saúde (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)

“O segredo é saber dosar a quantidade de informação e filtrá-la. Muitas vezes, um ingrediente ou componente que está na moda é adicionado em algum alimento industrializado para chamar a atenção do consumidor, que é enganado achando que está consumindo uma coisa e é outra”, alerta Pâmela Sarkis, nutricionista e chef de cozinha funcional. “A indústria vem com tudo, bombardeando de informações e de benefícios. Primeiro, a pessoa tem de pesquisar que alimento é esse, para que serve, será que eu preciso, de onde vem e o que contém. Se não, dá para pirar. Até mesmo nós, profissionais, às vezes, ficamos enlouquecidos. Minha orientação é a seguinte. A pessoa tem o direito de experimentar tudo. A partir do momento em que gostou, pergunte ao nutricionista se esse alimento pode ser introduzido no plano alimentar ou não. Quem não faz acompanhamento, a dica é procurar sempre a forma mais natural desse alimento novo. Por exemplo, a goji berry é vendida a fruta desidratada. Os chás em pó, suplementos e derivados que contêm goji berry e outras coisas mais já são mais restritos para ser usados sem orientação, e são arriscados.”

Pâmela Sarkis alerta que o mercado e os consumidores estão cada vez mais exigentes e buscam novidade e variedade. Ela conta que a linha saudável pronta para quem não tem tempo tem sido foco de recomendações e preferências para o consumidor atento e preocupado com a saúde. “A linha low carb crua é uma tendência para pratos e refeições, principalmente no jantar (consumo preferencial de carnes magras de peixes e legumes crus coloridos com baixo teor de açúcar e muitas fibras). No meu ponto de vista, a tendência é crescer o número de veganos e vegetarianos, investir em orgânicos e cuidar da saúde na prevenção.”

A nutricionista destaca que para um cardápio básico, a ideia de comida de verdade é introduzir alimentos de maneira natural, do jeito como são feitos pela natureza, sem passar por nenhum processo de industrialização. As receitas caseiras valem, por exemplo, um bolo caseiro feito com amidos sem ser farinhas. Então, na parte da manhã, indico consumir mais frutas, aveia, ovos, abacate, coco natural. No almoço, salada, legumes, arroz, feijão, batatas e uma carne ou ovos. No lanche da tarde, uma receita de pão ou bolo caseiro feito sem farinhas refinadas. E no jantar igual ao almoço, mas para quem deseja perder peso, sem o arroz e o feijão.” Ela destaca ainda o palmito pupunha, por ser nutritivo, pouco calórico e ótima opção para tapear a fome.

RECEITAS

» Suco verde desintoxicante com açafrão: 100ml de água de coco ou suco de uva branco; 1 batata yacon pequena; 1 colher de sopa de polpa de maracujá; 1 fatia de cúrcuma ou açafrão fresco ou ½ colher de chá de açafrão em pó; ½ maçã; 1 pedaço de couve. Bater tudo e servir

Tulio Santos/EM/D.A Press
(foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)
» Barra de cereal energética natural: 300ml suco de laranja; 1 xícara de chá de passas; 1 colher de chá de gelatina em pó incolor; 1 xícara de chá de aveia; 2 colheres de sopa de óleo de coco; 1 xícara de chá de amendoim processado; ½ xícara de chá de farinha de linhaça; 1 xícara de chá de coco ralado. Esquentar o suco de laranja em uma panela e cozinhar as passas. Dissolver a gelatina nessa mistura em fogo baixo. Em uma tigela grande, misturar os secos. Colocar o óleo de coco e o suco com as passas e a gelatina. Misturar tudo com as mãos e colocar em um tabuleiro antiaderente, pressionando e alisando a massa. Levar para assar em forno a 180 graus aberto até corar. Quando esfriar, cortar do tamanho que preferir. Embrulhar porções individuais e manter em geladeira.

Novas no pedaço
A US News & World Report, autoridade global em rankings e conselhos de consumidores, divulgou sua avaliação anual das melhores dietas do ano. Para 2018, dois novos modelos: keto e nutritariana

Os superfoods, os alimentos da moda, a onda de produtos saudáveis e orgânicos, muitas vezes vêm acompanhados também de novas dietas, que lançam luzes sobre novos produtos. Todo ano, a publicação americana U.S. News & World Report, autoridade global em rankings e conselhos de consumidores, divulga o ranking Best Diets (Melhores Dietas). A lista é criada por especialistas de instituições americanas de peso, como Johns Hopkins, Tufts Medical Center, Universidade Harvard, Mayo Clinic. Esse júri, com os melhores nutricionistas do país, consultores dietéticos e médicos especializados em diabetes, saúde cardíaca e perda de peso por meio de uma pesquisa aprofundada, elege as campeãs em várias categorias: desde a dieta ideal para emagrecer até a mais fácil de seguir ou que controla melhor a diabetes.

Este ano, pela primeira vez, a dieta do mediterrâneo foi alçada ao título de melhor dieta geral pelas inúmeras vantagens, que vão desde a perda de peso, prevenção de câncer, menor risco e controle de diabetes, além de benefícios para o coração e o cérebro. O nome vem da dieta seguida pelos povos que moram perto do Mar Mediterrâneo, no Sul da Europa, e que são conhecidos por ter uma longa expectativa de vida. Do cardápio fazem parte frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas, oleaginosas, azeite de oliva, ervas e especiarias aromáticas, peixes e frutos do mar. Destaque para o vinho tinto, cheio de resveratrol - substância que blinda o coração.

Em segundo foi eleita a dash, que tem como objetivo prevenir e controlar a pressão alta. No menu, priorizam-se alimentos ricos em substâncias como potássio, cálcio, proteínas e fibras. Traduzindo: frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas, carnes magras e lácteos com baixo teor de gordura. A indicação é não exceder os 2.300 miligramas de sódio (sal) por dia. O melhor seria ingerir até 1.500 miligramas. A terceira posição do ranking geral ficou com a dieta flex, que reduz a proteína animal e aumenta o consumo de itens vegetais a fim de reduzir peso e melhorar a saúde.

Para 2018, dois novos modelos alimentares foram ranqueados: a dieta keto e a nutritariana. O foco da primeira é um regime com baixo teor em carboidratos e gordura e, a segunda, criada por Joel Fuhrman, presidente da Fundação de Pesquisa Nutricional, promove a saúde e a longevidade na busca de um processo de emagrecimento sem contar calorias e com alta ingestão de alimentos integrais e ricos em nutrientes.

Arquivo Pessoal
A nutricionista Júnia Bethônico acha difícil uma pessoa com saúde normal, ou seja, nenhuma patologia diagnosticada, sofrer algum risco aumentando o consumo de superalimentos (foto: Arquivo Pessoal )
A nutricionista funcional Júnia Bethônico ressalta que gosta da ideia de a população conhecer os benefícios nutricionais dos alimentos, mas desgosta da moda, pois, na maioria das vezes, os superalimentos da moda são mais caros e nem sempre são a única opção do nutriente em destaque. Como exemplo, ela cita o goji berry, considerado um superalimento por ser rico no fitoquímico antocianina. “Porém, a amora, mais barata e comum em solo brasileiro, apresenta propriedades similares.”

Por outro lado, Júnia Bethônico não vê risco de consumir esses alimentos, ainda que sem indicação: “Acho muito difícil uma pessoa com saúde normal, ou seja, nenhuma patologia diagnosticada, sofrer algum risco aumentando o consumo de superalimentos. Brinco muito que o perigo é consumir uma feijoada gorda com muito torresmo em excesso”.

INSTAGRAM

Conforme a nutricionista, o que vale destacar é que viver saudável é um vício e um caminho sem volta. “Na minha opinião, blogueiras (ou musas fitness) de certa forma estão ajudando o mundo a viver mais e melhor.” Mas Júnia Bethônico alerta que não dá para acreditar e apostar em tudo que se vê e lê: “Acho que o maior trabalho e filtro devem ser do ouvinte, e não do divulgador. As redes sociais, TV, etc. derramam informações que têm de ser analisadas e filtradas pela população em geral”.

Para Júnia Bethônico, o superalimento de 2018 é o suco de laranja. “Ele voltará a ser o mocinho do bem. E já tem pesquisa feita pela doutora nutricionista Daniela Seixas, apresentada em um curso de nutrição esportiva ministrado em Belo Horizonte no ano passado. Apesar do índice glicêmico mais alto, a quantidade de vitamina C, fitoquímicos e fibras torna o suco de laranja um superalimento.”

Quanto ao ranking da Best Diets da U.S. News & World Report, Júnia Bethônico destaca alguns pontos: “Sobre a dieta dash, é muito bem estudada e com resultados surpreendentes para quem a faz. Estudada para pacientes com hipertensão, patologia com grande número de doentes, não teve boa aderência a longo prazo. Já a mediterrânea é também muito estudada, assim como a longevidade dos mediterrâneos, mas vale lembrar que eles têm o modo slow-eating, diferente do resto do mundo, onde as pessoas não cozinham e produzem seu próprio alimento”. A nutricionista chama a atenção para a dieta dos vigilantes do peso (ficou em quarto lugar): “Apesar de não ser uma dieta personalizada, a empresa já existe há anos e vem ajudando milhares de pessoas no emagrecimento inicial. Para aqueles clientes que precisam de 'lapidar' o corpo, ou seja, emagrecer os últimos cinco quilos”.

Júnia avisa que o principal é que, “como continuo apaixonada pela educação nutricional, as pessoas devem estar atentas e se ocupar com o que comer ao longo da vida. Não existe a dieta ideal, já que somos dinâmicos, o corpo muda com o tempo, mudando também as necessidades nutricionais. Acredito que as pessoas devem escolher um nutricionista para acompanhá-las ao longo da vida, para que o profissional possa conhecer as mudanças e necessidades de seu cliente”.

Comida de verdade
Nutricionista franco-brasileira lança livro mostrando que as dietas restritivas podem levar ao ganho de peso e defende a importância de resgatar a paz e o prazer na hora de comer


Muriel Fond/Divulgação
Para a nutricionista franco-brasileira Sophie Deram, as crenças e regras são tantas que as pessoas acabam desorientadas e estressadas no momento de comer (foto: Muriel Fond/Divulgação )
Sophie Deram, que também é engenheira-agrônoma e pesquisadora no ambulatório do programa de transtornos alimentares (Ambulim) do Hospital das Clínicas do Ipq-DMUSP, no livro O peso das dietas - Emagreça de forma sustentável dizendo não às dietas, da Editora Sextante, revela sete segredos para conseguir um peso saudável, sem fazer dieta e se alimentando com prazer e consciência: 1) faça as pazes com seu corpo; 2) cuide do seu cérebro; 3) pense sustentável; não tenha pressa; 4) respeite sua fome e viva no presente; 5) coma melhor, não menos; 6) alimente-se de outras energias; 7) cozinhe e celebre a comida.

Conheça algumas dicas:

1 - Para perder peso, basta fechar a boca e malhar: durante décadas foi transmitida a ideia de que devemos fechar a boca e fazer atividade física para emagrecer. Nessa lógica, o peso é o resultado da soma de calorias ingeridas menos as que você gasta, certo? Mas não é tão simples assim. O corpo reage às leis da biologia, e não da física. Todo estresse leva o corpo a se defender, se adaptar com um mecanismo de resistência - com o risco de engordar. Com isso, fica muito difícil emagrecer a longo prazo e mais fácil engordar.

2 - Fazer dieta emagrece: isso pode ser verdade a curto prazo, mas não a longo. A dieta mexe com o cérebro e aumenta o apetite, desacelerando o metabolismo. Não é uma questão de falta de controle ou disciplina, ou de fraqueza. Seu corpo não permite que você emagreça, sobretudo se houver perda de muito peso muito rápido.

3 - Contar calorias ajuda a emagrecer: contar calorias tira de você o prazer de comer e muda sua relação com a comida. Comer se transforma numa tarefa. As calorias de diferentes alimentos não são iguais e o corpo não enxerga alimentos só como calorias, mas também como informações: 150 calorias de refrigerante não vão conversar com o corpo do mesmo modo que 150 calorias de legumes e verduras. A quantidade de calorias é a mesma, mas o efeito no metabolismo é outro.

4 - Perder peso é uma questão de controle: o controle que temos sobre nossa fome é temporário. Depois de perdermos peso, nosso cérebro aumenta a fome e desacelera o metabolismo para se adaptar. Esse ajuste do controle da fome pode despertar um apetite maior e até compulsões. Um estudo mostrou que uma dieta muito restritiva tem o poder de aumentar 18 vezes o risco de transtorno alimentar.

5 - Deve-se evitar gordura a qualquer custo: a gordura dos alimentos não é um vilão nem é a única responsável pelo ganho de peso. Não é a gordura que comemos que vira gordura no corpo. Este princípio da nutrição é provavelmente um dos maiores erros da nutrição atual. A gordura que comemos é digerida e quebrada no nosso organismo. Ela é diferente da gordura que nosso corpo produz. A gordura dos alimentos é essencial (assim como o carboidrato) para o corpo funcionar bem. Um pouco de gordura na refeição aumenta a sensação de prazer e de saciedade e nos ajuda a comer menos.

6 - Comer carboidrato à noite engorda: esse mito me chamou a atenção quando cheguei ao Brasil. Pensei assim: e os italianos, que comem macarrão e pizza, ou os franceses e japoneses, que também comem carboidratos à noite? O carboidrato é nossa gasolina e fonte de energia, e deve estar presente em todas as refeições, junto com alimentos de outros grupos.

7 - Comer de três em três horas emagrece: essa dica não faz sentido quando você respeita seu corpo e entende que ele não é um robô ou máquina que funciona de três em três horas.


O peso das dietas - Emagreça de forma sustentável dizendo não às dietas

• Autora: Sophie Deram, Ph.D
• Editora:
Sextante
• Páginas: 256
• Preço sugerido: R$ 39,90