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O temor descrito por ela não é infundado, como explica a psicóloga e especialista em sexologia humana Enylda Motta. Segundo a especialista, as mulheres ainda se sentem muito reprimidas por questões familiares e culturais. “Apesar de todos os avanços nesse campo, Minas Gerais, por exemplo, continua a ser um estado muito conservador. Ainda se tem a ideia de que a mulher tem de guardar seus desejos e, quando ela resolve falar sobre o que lhe dá prazer, isso ainda é feito de modo muito escondido”, afirma.
Esse receio de conversar sobre o tema afeta a maioria das mulheres, segundo pesquisa da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp). O estudo, realizado em quatro capitais brasileiras no ano passado, revelou que 60% das entrevistadas ainda têm vergonha de falar sobre sexo. E, às vezes, nem mesmo a intimidade entre casais resolve. Isso porque falta diálogo nas relações. “Elas têm medo de se mostrar e o companheiro estranhar seus gostos pessoais, suas vontades na cama”, aponta a sexóloga Enylda.
AUTOESTIMA
Mas, afinal, por que falar sobre sexo e os próprios desejos é tão importante? “Porque é uma forma de a mulher se descobrir enquanto pessoa”, afirma a especialista. Não se trata apenas de aprimorar o desempenho sexual, mas de melhorar também as relações familiares e profissionais. A sexóloga explica que “quando a vida sexual vai mal, a autoestima tende a ficar baixa. A pessoa passa a se esconder atrás da roupa e da profissão. Deixa de ser ela mesma”, esclarece. Com isso, surgem problemas de humor, o que pode prejudicar a vida social.
“À medida que a mulher explora sua sensualidade e sexualidade, ela se encontra e diz: ‘essa sou eu!’”, afirma Enylda. E, mais importante do que mostrar sua personalidade para os outros, quando a mulher se dispõe a livrar-se dos tabus torna-se mais autoconfiante, mais dona de si. Para isso, não há por quê ter medo de se tocar, se sentir. “Você precisa conhecer seu corpo, saber do que sente desejo, o que lhe causa prazer”, aponta a sexóloga. E mais: falar sobre todas as vontades com o companheiro para que ele saiba o que você quer. Assim, o sexo se torna algo prazeroso para os dois.
Olhar para si mesma
Quando o temor de falar sobre sexo e descobrir melhor o corpo é grande a ponto de afetar a vida pessoal e provocar sofrimento, é hora de buscar ajuda profissional. Em alguns casos, a origem do problema pode ser psicológica ou até fisiológica. Além da repressão sofrida pelos preconceitos, há possibilidade de a mulher ter problemas hormonais que afetam o desejo e tornam a relação sexual desconfortável, por falta de lubrificação vaginal, por exemplo. Nesse caso, pode ser necessário, inclusive, o auxílio de medicamentos para dar mais qualidade de vida à mulher.
Mas a solução pode ser mais simples. Quando a vergonha é o principal empecilho para o autoconhecimento, uma conversa sincera e bons conselhos podem ajudar. E se a mulher ainda não se sente à vontade para falar abertamente sobre sua sexualidade com o companheiro ou uma amiga, é possível encontrar consultorias individuais especializadas no tema. Foi o que fez a analista de marketing ouvida no início da reportagem.
“Não tinha abertura para falar sobre sexo com ninguém, mas encontrei uma profissional que fala muito tranquilamente sobre o assunto, sem tabus”, conta a analista. Na consultoria em educação sexual, ela conseguiu tirar dúvidas e ouvir dicas sobre como conseguir ter mais prazer durante o sexo. O resultado, segundo ela, foi a conquista de mais confiança e a possibilidade de explorar melhor os próprios desejos.
Segundo a consultora em saúde e educação sexual Jordana Medley, esse trabalho visa, principalmente, desmistificar a sexualidade feminina. “Muitas pessoas, mesmo no mercado erótico, tratam o sexo como algo sujo, vulgar. O que tento é fazer justamente o contrário, mostrando para a mulher que sexo é uma prática saudável, que não há nenhum problema em se masturbar e que há vários produtos no mercado que podem ajudá-la nessa descoberta”, explica Jordana. Para deixar as clientes mais confortáveis, as consultorias podem ocorrer em domicílio, comodidade que facilita na hora de as mulheres perguntarem sobre tudo o que elas têm dúvidas.
POSTURA Jordana explica que a maioria das mulheres a procura com o objetivo de descobrir formas de melhorar a relação e dar mais prazer ao namorado, companheira ou marido. Mas a mudança começa quando elas passam a olhar para si mesmas. “A ideia da consultoria é tratar da relação da mulher com ela mesma. Mostrar que ela pode – e deve – se conhecer, se tocar mais. É preciso que ela esqueça os padrões, aceite seu corpo e sua sexualidade”, orienta.
A consultoria tem como base um bate-papo, com linguagem informal e no ritmo em que a cliente se sinta mais à vontade. O trabalho pode durar mais de uma sessão, mas nos primeiros encontros, segundo ela, já é possível notar uma mudança na postura dessas mulheres. “No início, elas chegam de cabeça baixa, não olham nos meus olhos. Mas à medida que elas vão se conhecendo melhor, assumem uma postura mais confiante, se sentem mais femininas”, relata.
Ao fim da consultoria, a ideia é que a mulher reconheça que, antes de tudo, ela precisa se gostar e sentir prazer, afirma Jordana. “Quando as mulheres se descobrem de forma plena, elas param de se preocupar tanto apenas com a satisfação do outro. A partir daí, sem esforço, elas vão se tornando mais atraentes. Atrair o olhar do companheiro será apenas consequência disso.”