Antropóloga fala sobre a realidade de mulheres vítimas do zika no nordeste

As histórias dessas mulheres foram documentadas por Debora Diniz e transformaram-se em Zika, um filme de 30 minutos que será apresentado pela antropóloga nesta quinta (18/05) em Copenhague, na Dinamarca

por Correio Braziliense 18/05/2016 10:00
Jhonatan Vieira / CB / D.A Press
"Eu tenho uma certeza: não há nada de eugenia aqui. Esse é um grito conservador, religioso, de essencialização da vida na fecundação e que ignora o sofrimento das mulheres na epidemia" (foto: Jhonatan Vieira / CB / D.A Press)
Em fevereiro deste ano, a antropóloga e documentarista Debora Diniz, 46 anos, recebeu um telefonema da Paraíba. Do outro lado da linha, a médica Melania Amorim se apresentava: “Debora, eu sou Melania, obstetra. Estou com 40 crianças com síndrome neurológica e não sei mais o que fazer. Eu preciso conversar”. Havia apenas um mês que Debora, professora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora da Anis — Instituto de Bioética, estava envolvida nos debates sobre a epidemia de zika, doença com 31.616 casos confirmados em 2016, segundo o boletim epidemiológico mais recente.

“Então, peguei um avião e fui.” O primeiro contato da cientista com uma doença sobre a qual pouco se sabe tinha sido durante uma reunião da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), quando foi convidada a integrar um comitê de especialistas para definir políticas públicas para as Américas. No momento do telefonema de Melania, uma árdua defensora do parto humanizado, Debora, porém, jamais havia conversado com as principais vítimas de uma epidemia que sumiu da agenda nacional, embora continue avançando sobre a população — especialmente a mais pobre.

Foi em lugares como Campina Grande e Juazeirinho que ela se deparou com a face real da doença. A zika é Amanda Loizy, Marina Leite, Alessandra Amorim, Ana Angélica Lima, Gessica dos Santos — mulheres da periferia e da zona rural paraibana que, como suas mães e avós, estão expostas ao mosquito Aedes aegypti, moram em locais onde o saneamento básico é precário e quase não têm acesso a políticas de prevenção e cuidados de saúde.

A zika também é Adriana Melo, especialista em medicina fetal, que estabeleceu pela primeira vez o vínculo entre a doença e a microcefalia, e que sofre com cada diagnóstico positivo das pacientes; é Melania Amorim, que segura forte a mão das mulheres que precisam interromper a gestação, devido ao risco de morte. A zika é Samuel, planejado, esperado com ansiedade, nascido com síndrome neurológica, amado pela família e entregue pelo Estado à própria sorte, pois não foi contemplado com nenhum benefício social; é Hávilla, bebê que também tem a síndrome, mora a 70km de Campina Grande e depende do carro da prefeitura para fazer fisioterapia duas vezes por semana, mas nem sempre consegue, porque às vezes o veículo está sem gasolina. A zika é o menino de Géssica dos Santos, que nasceu sem uma parte do cerebelo e morreu no dia seguinte, na UTI, e cujo guarda-roupa com macacõezinhos, luvas e sapatinhos, caprichosamente organizado, ainda não foi desmontado, porque dá alento à mãe.

As histórias dessas mulheres foram documentadas por Debora Diniz e transformaram-se em Zika, um filme de 30 minutos que será apresentado pela antropóloga no próximo dia 18 em Copenhague, na Dinamarca, durante o evento Women Delivery, a maior conferência mundial sobre a saúde da mulher. “Ter visto e conversado com elas e ter conseguido enquadrar a epidemia com o rosto delas mudou minha perspectiva”, afirma. “Fazer um filme com mulheres nordestinas é uma covardia, porque elas são contadoras de histórias.”


Jhonatan Vieira / CB / D.A Press
"É importantíssimo falar que não é microcefalia, é síndrome neurológica associada ao zika. A microcefalia é só um dos sinais. A síndrome neurológica tem uma série de outros sinais" (foto: Jhonatan Vieira / CB / D.A Press)

Desigualdade social

O zika nos atemoriza porque põe em evidência a fragilização das mulheres e das meninas da região. Quando falamos que 72%, segundo o último boletim epidemiológico, das crianças nascidas com a síndrome neurológica estão em quatro estados, que são Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, falamos de como a desigualdade social afeta diferentemente os grupos de mulheres. É só no sentido confortante da epidemiologia que nós vamos dizer que todas as mulheres estão em risco para a epidemia. Não é verdade. Quando o filme mostra quem são elas — o rosto, a cor, a região, a classe social — a gente diz que a epidemia tem cor, região, classe... O primeiro desafio que o filme traz é mostrar o seguinte: a epidemia exige que nós coloquemos as mulheres no centro das políticas de saúde. A gente fica falando do mosquito, mas essa é só uma parte.

Planejamento familiar
A gente tem de falar agora de planejamento familiar e aborto. O que está por trás do filme é isso. O aborto está ali, sem ser gritado. Por que ele não está no filme? Porque ali era a primeira geração de mulheres, que descobriram com a ciência que o zika causa a síndrome neurológica. É importantíssimo falar que não é microcefalia, é síndrome neurológica associada ao zika. A microcefalia é só um dos sinais. O corte que está sendo estudado em Pernambuco mostra que essas crianças com 6 meses não se alimentam, precisam de sonda, têm convulsão... O que você vê agora, nas estimulações de bebês de 6 meses, são as mães chegando e dizendo: “Olha como ele está bem!”. E a fisioterapeuta dizendo: “Não, mãe, com essa idade, ele já tinha que olhar, querer pegar, e ele não está fazendo isso”.

Agenda
O zika sai de pauta em fevereiro. A crise política entra, e nós não falamos mais de zika. Nos meses anteriores, o que falávamos era sobre eliminar o mosquito, e não é assim que a saúde pública se move. Nós nunca falamos seriamente das mulheres. Por que o Brasil está enfrentando errado? Porque não colocou no topo da agenda. Nós nunca tivemos na história da medicina uma epidemia com essa potencialidade de transmissão Primeiro, é um vetor que voa. E pense na epidemia de HIV/Aids: era sexual. O zika também. Transfusão de sangue: o zika também. Amamentação: também. Sangue e urina? Sim. O que nós sabemos, fora o mosquito, sobre risco de transmissão vertical? Nada. O CDC (Center of Diseases Control) americano sugere seis meses de relação sexual protegida para o homem que deseja ter filhos após a infecção. Para a mulher, 10 semanas. É uma magnitude de prevenção gigantesca. E, no Brasil, nada. O protocolo de enfrentamento para microcefalia brasileiro, que sequer foi atualizado para síndrome neurológica, ignora que se converse sobre saúde reprodutiva como prevenção.

Importância da prevenção
Como seria a política de prevenção? A inclusão do repelente, que custa em torno de R$ 100 para as mulheres, porque as grávidas não podem usar qualquer repelente. O único método de prevenção para a mulher que queira engravidar agora é o repelente. Porque não podemos conversar de não engravidar como política populacional. Você tem uma mulher que está no limite da idade reprodutiva, você tem as histórias individuais. Isso não é política de saúde séria, isso não existe. Não há como ter zero fecundidade. Outra forma de prevenção é o acesso à informação. Saber qual é o tipo de mosquito, que temos picos do mosquito e que são medidas preventivas frágeis. A terceira coisa dentro de política séria é para aquelas que não querem engravidar.

Política ultrapassada
O governo brasileiro não mudou absolutamente nada na sua política de acesso a planejamento familiar. Nós temos como métodos de longa duração a injeção e o DIU. A injeção dura três meses; para uma epidemia, isso não é longa duração. O DIU é, mas tem imensa rejeição pelas mulheres no Brasil. Pelas incompreensões, por acharem que seria abortivo, por dor e por não terem acesso. Não introduzimos métodos de longa duração reversíveis, como o mirena. Nós não respondemos nem para a prevenção das que querem engravidar nem para a das que não querem. E, juntamente, ignoramos as mulheres que tiveram filhos com a síndrome neurológica. O Estado brasileiro não fez nenhuma política específica para as mulheres que terão de cuidar dos seus filhos. São agricultoras rurais, pouco escolarizadas e nordestinas. A essas mulheres, ou é assistência social ou é a miséria. E não houve nada de modificação de política de assistência social. Minha grande afirmação é que o Estado não incluiu as mulheres em idade reprodutiva, em idade de cuidar de filhos, no centro da epidemia. É urgente fazer isso porque a epidemia vai ficar muito tempo conosco. Perdemos a primeira geração e estamos perdendo a segunda.

Doença social
A pergunta é: por que o zika está concentrado lá (na periferia e zona rural no Nordeste)? Pode haver algo na transmissão vertical que sejam características dessas mulheres, que podem ter sido infectadas anteriormente, então você tem uma reação cruzada, é o que a ciência vem investigando... Não sabemos. Pode ser uma característica dessa região, de doenças endêmicas anteriores. Estão tentando investigar se há animais daquela região que sejam repositórios, o que aumenta a infecção. Não houve a migração para os centros urbanos. Estamos falando de políticas de saneamento que duram há 30 anos. Não são só mulheres. É uma doença social. Imaginando que o zika já está no Rio de Janeiro... O aborto é seguro no Brasil por um recorte de classe. Eu não tenho, cientificamente, como afirmar que essas mulheres estão fazendo aborto. Mas, conhecendo os padrões de saúde reprodutiva das mulheres no Brasil, elas podem estar fazendo planejamento reprodutivo de longa duração, usando DIU — que tem maior aceitação entre as mulheres ricas —, podem estar usando mirena. Podem, sim, estar abortando.

Eugenia
Vamos parar de contar histórias de microcefalia de sucesso. Aqui, estamos discutindo políticas de inclusão, falando de epidemia; não tem conversa sobre eugenia. Eugenia é uma política de Estado, de extermínio de indesejados. Nós estamos falando de políticas de decisão reprodutiva. Veja a quase inocência de quem grita “eugenia”. Os países em que o aborto eugênico, com essa palavra, é autorizado por causa do diagnóstico, são os países de maior inclusão das pessoas com deficiência, são os países nórdicos. Autorizar as mulheres a fazer uma decisão reprodutiva baseada nas suas avaliações sobre o que é maternidade, o que vai demandar dela como cuidadora ou sobre formas de relação familiar ou afetiva não é a mesma coisa que discriminar deficientes. Penso que é uma fatura injusta contra as mulheres porque é uma discriminação gritar para essas mulheres do filme: “Eugenia”. Não estamos falando de nós, mulheres urbanas e da elite, mas de um estado de necessidade, de intenso sofrimento mental, em que se transformou o pré-natal. No filme, a primeira cena da Amanda, quando ela tem o diagnóstico, aquilo não é ficção! As mulheres querem ter um filho! A moral contrária ao aborto é tão intensa no Brasil que mesmo pessoas que dizem ser a favor do direito das mulheres escolherem se confundem e dizem: “Mas não seria eugenia aqui?”.

Decisão reprodutiva
Falamos de mulheres tomando decisões reprodutivas durante um pré-natal em que elas quiseram a gravidez. As mulheres não são idiotas a ponto de serem forçadas a um aborto. Ao contrário, a resistência a esse aborto será enorme, porque a maternidade, socialmente, é um momento de inclusão. Nós estamos em uma epidemia, onde há intenso sofrimento mental. Veja a Marina. Ela é extremamente católica, vai para a indução do parto com um terço. A médica é muito religiosa. É um encontro de mulheres religiosas que nunca se confrontaram com o aborto. A Melania, a médica que aparece, é a grande defensora do parto natural e é ela que vai fazer o aborto. Nós não estamos falando de um manual de boas práticas de direitos humanos ou de feminismo, mas de uma epidemia. Eu tenho uma certeza: não há nada de eugenia aqui. Esse é um grito conservador, religioso, de essencialização da vida na fecundação e que ignora o sofrimento das mulheres na epidemia, o que representa não saber nada do que vai acontecer consigo e com seu futuro filho. São mulheres que estão desamparadas.

Puritanismo
Retirar a discussão do aborto é um puritanismo que ignora o direito reprodutivo. Quando o agendamento coloca transmissão vertical, temos de colocar saúde reprodutiva. Esse é um tema dificílimo no Brasil. A primeira reação no Congresso foi aumentar a punição para uma mulher que fizer aborto por causa da microcefalia. Agora, são 20 anos de punição. A gente teve um pronunciamento muito importante do papa recentemente. Ele disse que, durante a epidemia, os métodos anticonceptivos são um mal menor. É claro que ele vai dizer que o aborto não deve ser reconhecido, porque é um passo de cada vez dentro de um dogma. Mas isso é genial, ele não está mudando o dogma, ele está falando que a epidemia nos obriga a pensar de uma maneira diferente.

Sentimento de ofensa
Esse debate (da interrupção da gestação em caso de síndrome neurológica) pode ofender mães de crianças com deficiência. Mas as mães que vêm reclamar são mães com acesso a todos os mecanismos de inclusão. E me parece que, aqui, se há um sentimento de ofensa, essas mulheres pobres, todos os dias, vivem um sentimento de ofensa pela não possibilidade de viver a mesma maternagem que nós, mulheres de classe média, vivemos. Nós achamos que a desigualdade é parte da vida. A epidemia coloca no centro da conversa a desigualdade de renda no país. Nós estamos falando de mulheres pobres.