Escritor César Gilcevi lança segundo livro de poemas em que mostra a visão de um país dilacerado por seu passado e presente

'Retrato do poeta quando devedor de aluguel' será lançado neste sábado (1º) no Maletta

por Tadeu Sarmento* 30/11/2018 14:19

Se em Os ratos roeram o azul – belíssimo e imagético título do livro de estreia de César Gilcevi – o poeta traz à tona a imagem angustiante e indignada de um artista pobre e pardo na periferia de Belo Horizonte, em Retrato do poeta quando devedor de aluguel (seu trabalho mais recente, lançado pela Editora Letramento), essa periferia é ampliada até abarcar todo um país injusto como centro e a comunidade de marginalizados iguais ao artista como algo maior, bem mais perigoso (listados no poema noturno ponto 50). Por conta disso, trata-se de um livro de extrema virulência política, repleto de referências bíblicas que convivem com pinceladas da música e da cultura pop e erudita, além das religiões de matriz africana.

Fernando Prates/Divulgação
O poeta e músico César Gilcevi é natural do Barreiro (foto: Fernando Prates/Divulgação )

E o retrato do poeta devendo aluguel é apenas um dos diversos retratos dessa odisseia cheia de buracos, na qual os poemas funcionam como percursos narrativos cujos “heróis” desejam subverter as injustiças sociais. Há também o retrato do poeta pardo tentando escapar do navio negreiro; ou o retrato do poeta usando anúncios de empregos para limpar a bunda, ou ainda o retrato do poeta quando pugilista manco & sem luvas. Em cada um desses, percebe-se a tentativa de Gilcevi em denunciar toda a realidade através da fúria e da imaginação, antes que o Moloque burguês, representante das forças que sempre estiveram no poder, consiga destruí-lo. Ou cooptá-lo.

É para evitar a capitulação que o autor retorna para beber na fonte de sua ancestralidade (gênesis; cap. I) ou de seu passado, onde “a rua da infância continua no mesmo lugar”. Sua escrita vigorosa denuncia o pesadelo de uma normalidade excludente em cada esquina e, para tanto, costura frases certeiras (“sob a caixa torácica \ o cofre alarmado”) com visões noturnas, além de descidas ao inferno a mando de Deus. Isso sem falar no humor. Por exemplo, em um poema de César Gilcevi, a cidade de Comala, do livro Pedro Páramo, de Juan Rulfo, se transforma em uma biqueira para a qual os filhos se dirigem atrás do fantasma do pai.

A poesia de Gilcevi se coloca contra os valores de uma sociedade que não representa os pobres, utilizando-se das mais diversas imagens do sincretismo religioso, e assumindo totalmente a condição de poeta periférico decidido a denunciar que, na mesma semana em que “Ana foi embora”, os “fascistas tomaram o poder”. E é em consequência da percepção das situações críticas da interdição da cidadania em nosso país que a interlocução do poeta com a violência do mundo real se dá.

No que se refere à forma, não se trata apenas de ler Gilcevi em função de suas pontes de estilo (e de temática) com autores como Roberto Piva, Drummond e Allen Ginsberg, mas de pensá-lo, principalmente, a partir de sua filiação a um tipo de lirismo moderno, de espectro baudelairiano, que compreende seu vínculo com o pensamento politicamente performático, relacionando-o com as camadas sociais marginalizadas. É a partir dessa chave que é possível compreender O Retrato do poeta quando devedor de aluguel como um manifesto político sobre o nosso tempo (“um monumento à Justiça brasileira / erigido com 450 quilos de cocaína”), lendo seus poemas como pontiagudos objetos político-culturais, positivamente a serviço de certas ideias transgressoras que contribuem para a subversão de determinados discursos que naturalizam a exclusão da sociedade.
Ao agir sobre a consciência humana, acendendo seus alertas, a palavra do poeta pode despertar a indignação que nos lev
aria à luta por condições mais justas, por realidades mais humanas e mais justas, nas quais exerceríamos o direito à liberdade de viver, e não apenas de sobreviver? Não sabemos. O que se sabe é que a poesia sempre terá algo a revelar, ainda que seja só o mundo real, bem diante dos nossos olhos. O caos da pobreza, a certeza de que “a poesia nunca salvou ninguém” e o abandono social que o poeta descreve  tornam o trabalho com a escrita a representação certeira dos modos de sobrevivência em um país violento com os que não têm nada nem ninguém por eles. A solução? Ler os poemas de César Gilcevi. Ou “ir a Brasília matar o presidente”, como deseja o José do poema 2016.

*Tadeu Sarmento é escritor e autor, entre outros, de E se Deus for um de nós  (Confraria do Vento, 2016).

um rapaz latino-americano

os pretos me aceitam branco
os brancos me tratam servo
a certidão atesta pardo
os índios me convidam irmão
deus me adestra cão
cavalo me honra o exu
oxóssi me guarda seu filho
homem a mulher me pragueja
    
Letramento/Divulgação
(foto: Letramento/Divulgação)

RETRATO DO POETA QUANDO DEVEDOR DE ALUGUEL
De César Gilcevi
Letramento
124 páginas
R$ 34
 


>> LANÇAMENTO:
Amanhã, das 11h às 16h20, no Bar e Restaurante Lua Nova (Edifício Maletta, Av. Augusto de Lima, 233, sala 42, 2º andar).


ENTREVISTA  
César Gilcevi, poeta
“Escrever o livro me salvou”

Pablo Pires Fernandes


Nascido e criado no Barreiro, bairro da periferia de Belo Horizonte, pobre e pardo, César Gilcevi sempre se virou na vida. Inquieto e curioso, rapidamente teve consciência de sua origem e lhe foi inevitável buscar formas de expressar sua indignação diante da realidade disforme e injusta da sociedade brasileira. A música foi um alento e pôde manifestar seu olhar quando com sua banda de pós-punk Carolina Diz lhe deu espaço para compor letras de amor e tragédia. Hoje, sua verve roqueira é catalisada pela banda Cadelas Magnéticas, mas o fluxo de ideias e palavras de Gilcevi não cabe apenas em letras de canções. Tornou-se poeta e jorrou seus primeiros versos no ótimo Os ratos roeram o azul (Letramento, 2016). E agora aprofunda sua linguagem iconoclasta em poemas contundentes com seu O retrato do poeta quando devedor de aluguel, que será lançado neste sábado, no tradicional reduto de poetas Lua Nova, bar do Edifício Maletta.

Desde seu primeiro livro, Os ratos roeram o azul, você toma referências bíblicas, mitologia, a tradição grega, poesia grega e as funde à cultura pop, mas mantém ainda temas caros à poesia –amor e morte, por exemplo. Como acha uma voz própria em meio a esta fusão de referências?
Meu primeiro contato com a poesia foi através da Bíblia. Fui criado por minha avó, que era evangélica, mas era uma preta velha clássica, de ascendência angolana e indígena. Ela era analfabeta, uma sábia mulher do sertão que falava a Bíblia de cor e sempre me contava, de um jeito muito próprio, as histórias do Velho Testamento. Histórias recheadas de contradições praticadas por um deus cruel e vingativo. Essa poesia bíblica vívida e de imagens violentas, e que ela reinventava ao me contar, me assombraram na infância e permaneceram em mim pra sempre. Tentei recriar algumas delas, à minha maneira meio profana, num capítulo do livro intitulado “hestórias de geová”. Como éramos uma família pobríssima e era preciso ajudar a pagar as contas e o aluguel, comecei a trabalhar muito cedo, aos 7 anos, como jornaleiro e vendedor de picolé. Engraçado que hoje estou aqui dando esta entrevista e lembrando que foi vendendo o Estado de Minas nas ruas que não passei fome na infância. Nunca fiquei muito na escola, detestava os professores e todos os meus colegas de classe; tomei gosto pela leitura decifrando as notícias diárias e lendo as HQs da banca de jornal. Já adolescente, descobri os simbolistas, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães; depois me chegaram o movimento punk, que era muito forte no Barreiro, onde nasci; e a poesia de Roberto Piva, Ian Curtis e Lou Reed. Minha voz é contaminada e poluída por esses universos contraditórios: o religioso/mitológico, o da notícia, a cultura pop e o rock. Ou como escrevi num poema: “minha poesia ginga entre a gíria o jongo e a ilíada”.

A linguagem de sua poesia mescla imagens muito concretas e documentais, que lhe servem de base para a ficção e partir para construir imagens híbridas. Como você trabalha a realidade e a ficção na sua poesia?

Sou um artista instintivo e não penso muito nessas questões teóricas, deixo isso para os críticos e estudantes de letras. Mas costumo dizer que a minha poesia, ao menos nesses dois primeiros livros, mais do que urbana, é suburbana, porque fala dos desvalidos, das paisagens íntimas e geográficas secularmente devastadas da periferia. A BH dos poetas mineiros clássicos – Drummond, Emilio Moura e tantos outros – nunca passou da Praça da Liberdade. Grito lá da margem, desse lugar tão longe e tão perto, que é o meu e da maioria da população brasileira e é também uma realidade universal. Gosto muito de um verso do poeta cubano José Kozer, em que ele diz que em seus poemas ele “procura uma origem que não seja de ouro”. Como disse antes, fui criado na favela e numa família evangélica que se esforçou ao máximo para apagar seu passado negro e índio e sempre caminhou rumo ao branqueamento. Depois que me conectei com as religiões afro-brasileiras, fui atrás das minhas origens e da minha ancestralidade, e descobri coisas interessantes, como, por exemplo, minha bisavó, que era, pelo que pude constatar, uma índia crenaque que se casou com meu bisavô negro, que, por sua vez, era filho de escravizados. Se você for fazer as contas, há quatro, cinco gerações ainda estávamos na senzala, é muito pouco tempo. Foi um mergulho visceral em que eu quase não volto à superfície. Escrever o livro me salvou.

O novo livro tem um caráter fortemente político, com referências a fatos e, às vezes, soa como um grito de ira diante do Brasil de hoje. É preciso se indignar?
Mais do que nunca é preciso se indignar, revoltar-se, combater com os punhos, o corpo e a linguagem o poder e a realidade sombria e miserável que está sendo novamente imposta ao povo brasileiro. Comecei a escrever O retrato do poeta quando devedor do aluguel logo após o impedimento da Dilma (Rousseff) e, quando vi, os poemas estavam refletindo o clima de catástrofe social e política que se instaurou no país. Em alguns momentos, é uma poesia quase factual que, espero, daqui a uns anos, com o retorno da democracia, soará datada. A poesia é o meu coquetel molotov e, à minha maneira, escrevo contra o retorno desse fundamentalismo religioso medieval que culminou na perseguição ao livre pensamento, aos artistas, aos LGBTs, aos indígenas e na ascensão da ultradireita à Presidência. Não à toa, o subtítulo do livro se apropria do bordão fascistoide “poeta bom é poeta morto”.

 

 

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