Novo livro do escritor e pesquisador iraniano Reza Aslan mexe em ''vespeiro'' ao desconstruir religiões

Autor mostra como o Homo sapiens moldou seres supremos à sua imagem e semelhança e defendee nova compreensão divina baseada na ciência cognitiva e no panteísmo

por Paulo Nogueira 17/08/2018 10:58
“Altos, eretos e fortes, com narizes amplos e frontes sem inclinação, Adão e Eva (Sapiens) começaram sua evolução entre 300 mil e 200 mil a.C., como o ramo final na árvore genética humana. Seus ancestrais se arrastaram para fora da África há aproximadamente 100 mil anos, num período em que o Saara não era o deserto de hoje, mas uma terra de lagos generosos e vegetação exuberante. Eles atravessaram a Península Arábica em ondas, avançando para o Norte através das estepes da Ásia Central, a leste até o subcontinente indiano, atravessando o mar até a Austrália e para o oeste sobre os Bálcãs, até chegar ao Sul da Espanha e à borda da Europa. Ao longo do caminho, encontraram espécies anteriores de seres humanos migratórios, o Homo erectus, que fizera jornada semelhante centenas de milhares de anos antes; o robusto Homo denisova, que perambulava pelas planícies da Sibéria e pelo Leste da Ásia; o Homo neanderthalensis de peitoral largo – o neandertal, a quem o Homo sapiens aniquilou ou absorveu.”

“Caçadores e coletores, Adão e Eva carregavam ferramentas feitas de sílex e pedra, de abrigo em abrigo, e as trocavam ocasionalmente para obter outras melhores ou por ornamentos feitos de marfim ou chifre, pingentes de ossos, dentes e conchas de moluscos. Essas coisas eram preciosas para eles porque os distinguiam na sua comunidade. Quando alguém morria e era enterrado no chão, esses objetos eram enterrados também para que o morto pudesse continuar a apreciá-los na vida por vir. Haveria uma vida futura e disso Adão e Eva estavam certos. Eles enterravam os corpos de amigos e familiares para protegê-los dos estragos da natureza ou do ataque de animais. Acendiam fogueiras ao redor do corpo e lhes faziam oferendas. O corpo podia apodrecer, mas algo do indivíduo persistiria, algo distinto e separado do corpo, uma alma, uma crença primitiva e inata. O espírito dos seus antepassados iria protegê-los do além na vida de agora em diante. Dessa forma, o animismo, atribuição de uma essência espiritual ou alma a todos os objetos humanos ou não, muito provavelmente foi a primeira expressão humana de qualquer coisa que possa se chamar religião.”

DIVINDADES DAS CAVERNAS

Deus – Uma história humana, o novo livro do escritor iraniano Reza Aslan, de 46 anos, doutor em estudos teológicos e professor da Universidade da Califórnia, que faz a analogia no texto acima entre religião e ciência, é uma crítica ao “vespeiro” das religiões. De forma elegante e sem citar nomes benévolos ou malévolos da fé mundo afora, o autor investiga a busca do ser humano pelo divino, ao mostrar como o conceito de Deus se desenvolveu ao longo do tempo, desde sepultamentos e pinturas ancestrais nas cavernas há 350 mil anos até hoje. Aslan inverte a lógica de que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança mostrando que foi o homem quem criou seres supremos à sua imagem e semelhança. Para tanto, desconstrói as religiões e revela os últimos estudos sobre a crença divina como um processo cognitivo, sempre arraigado ao cérebro.

Logo na introdução, Aslan já avisa: “Não tenho interesse em provar a existência ou inexistência de Deus pela simples razão de que não há prova para nenhum dos casos. A fé é uma escolha: quem disser o contrário está fazendo proselitismo. Opta-se ou não por acreditar que existe algo além do domínio material, algo real”. Em toda a história humana, a religião tem sido usada tanto para o bem sem limites quanto para o mal indizível e a mesma escritura pode ser interpretada de duas maneiras radicalmente opostas.

Por quase todos os lugares do planeta por onde o Homo sapiens passou, deixou vestígios de crenças. A maioria foi destruída ao longo do tempo, mas algumas que resistiram têm forma de monumentos ao ar livre, outras foram inumadas com sinais inequívocos de atividades rituais. No mundo primitivo, o complexo de cavernas de Lascaux, no Sudoeste da França, é um dos principais exemplos da jornada espiritual dos ancestrais humanos. Adão e Eva Sapiens entraram nessas cavernas não apenas para pintar o mundo que conheciam, mas para imaginar o mundo que existia além do deles.

Aslan diz que o impulso religioso deixou sinais claros desde o Paleolítico. “Ao longo dos últimos séculos, cientistas, antropólogos e outros especialistas apontaram muitas supostas causas para a religiosidade, em busca da origem do impulso religioso. Tenha sido em sonhos, no encontro com a natureza ou em especulações sobre ancestrais desaparecidos, todas essas explicações têm em comum o pressuposto de que a religião surgiu na evolução humana para tentar responder às questões impossíveis de serem esclarecidas e ajudar os primeiros seres humanos a gerenciar um mundo ameaçador e imprevisível. Essa é uma explicação para a experiência religiosa que continua popular até hoje”, mas está ultrapassada, afirma o pesquisador iraniano.

“Um ser humano com habilidades sobre-humanas. Se eu quisesse saber como era Deus, tudo o que tinha a fazer era imaginar o mais perfeito ser humano. Que melhor maneira de remover a barreira entre seres humanos e Deus que fazer de Deus um ser humano? O apelo quase universal de um Deus que olha, pensa e sente, e age exatamente como nós, está enraizado em nossa profunda necessidade de experimentar o divino como reflexo de nós mesmos”, argumenta.

SUCESSÃO DE TEORIAS
Aslan continua: “Mesopotâmicos, gregos, egípcios, gregos, romanos, indianos, persas, hebreus, árabes, politeístas e monoteístas conceberam seus sistemas teístas em termos humanos e como imagens humanas. O mesmo vale para tradições não teístas, como o jainismo ou o budismo, que concebem os espíritos, e os devas, que povoam suas crenças como seres sobre-humanos que são.” Desde sempre, portanto, as explicações sobre a origem da crença humana em seres divinos são múltiplas. No mundo contemporâneo, as especulações ganham fôlego com o antropólogo inglês Edward Burnett Tylor (1832-1917). Ele sustenta em sua teoria que a experiência da alma surgiu durante o sono. Contemporâneo dele, o etnólogo britânico Robert Marett (1866-1943) cravou: “A atitude do espírito é ditada pela admiração do misterioso, ou seja, atribui a crença em outra vida ao sobrenatural”.

A explicação de que a religião estava atrelada à dificuldade humana em explicar o sobrenatural foi contestada pelo filósofo e sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917). Ele rejeitou a ideia de que a religião surgiu para auxiliar o homem primitivo a buscar respostas para o mistério da existência. Para ele, religião nada tem a ver com o sobrenatural, porque “é eminentemente social”. As origens do impulso religioso estão fundamentadas na vida social, que ajuda uma comunidade a formar consciência coletiva a fim de promover a coesão e manter a solidariedade entre as sociedades primitivas. “O problema dessas linhas de raciocínio é que nelas não há nada intrinsecamente unificador ou coeso. Afinal, a religião é tão eficiente como força unificadora como força divisória”, critica Aslan.

O historiador iraniano lembra que depois veio a psicanálise com seus principais teóricos, Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961). Ambos buscaram a origem do impulso religioso na psique humana. Jung tinha visão positiva da religião, mas Freud a considerava neurose, desordem mental que estimula reações invisíveis e impossíveis e leva a ações obsessivas. “A crença religiosa nasceu da necessidade do homem de tornar tolerável seu desamparo”, escreveu Freud em O futuro de uma ilusão. Críticos da psicanálise, entretanto, refutaram a teoria freudiana ao afirmar que “em nenhuma circunstância a religião poderia ser considerada intrinsecamente fonte de conforto, pelo contrário, provoca tanta ansiedade e culpa quanto alívio na vida das pessoas”, cita o autor.

Passando pelo pensador alemão Karl Marx (1818-1883), com sua célebre definição de que a “religião é o ópio do povo” para garantir o poder das classes dominantes sobre o proletariado, novas teorias abriram outros horizontes. “Uma variação da teoria de Freud sustenta que o propósito primordial da religião na evolução humana seria motivar o comportamento altruísta, como controlar populações primitivas e evitar que se dilacerassem”, afirma Aslan. “A única barreira que impedia Adão de se levantar do seu lugar junto ao fogo, esfaquear o vizinho no peito e tomar dele sua carne era a crença de que os espíritos dos seus antepassados o observavam e atuavam como legisladores divinos que o obrigavam a agir de maneira moral”, argumenta Aslan.

UM FENÔMENO NEUROLÓGICO
O século 21 trouxe novos paradigmas para explicar o impulso religioso, afirma Aslan. O cientista cognitivo canadense Paul Bloom, de 63 anos, por exemplo, depois de muitas pesquisas sobre como crenças religiosas afetam os pontos de vista morais, concluiu que há pouca evidência de que as religiões têm efeito importante em nossas vidas morais ou como prática social. “A religião não faz as pessoas serem boas ou más, não policia o comportamento nem promove naturalmente a cooperação na sociedade, não aprimora o altruísmo de forma mais ou menos efetiva que qualquer outro mecanismo social”, sustenta ele.

Então, por que surgiu a religião? “Se o impulso religioso de Adão não é o produto dos seus medos ou de sua busca de significado, se não está vinculado ao seu ambiente ou ansiedade, se não desempenha papel significativo em ajudá-lo a se adaptar e a sobreviver, como pode ser um traço evolutivo? A resposta, ao que parece, é não.” Uma nova safra de estudiosos faz abordagem notadamente cognitiva do problema das origens da crença. “A religião é um fenômeno neurológico. O impulso religioso é, em última instância, uma função de reações eletroquímicas complexas do cérebro”, assinala Aslan.

Segundo ele, conhecer a mecânica neural do impulso religioso não prejudica a legitimidade da crença religiosa, assim como conhecer o processo químico da atração romântica não torna o sentimento menos vivo nem a pessoa do nosso desejo menos meritória. Essa teoria intrigante da ciência cognitiva da religião, de que os seres humanos têm processos mentais desenvolvidos em milhões de anos de evolução, nas circunstâncias certas, nos leva a atribuir vida a objetos inanimados para dotá-los de alma ou espírito e depois transmitir essas crenças para outras gerações. Sendo assim, assentado nessa moderna teoria, Aslan desconstrói as explicações tradicionais para as experiências religiosas.

POR UM DEUS PANTEÍSTA
“A única maneira de experimentar verdadeiramente o divino é desumanizar Deus em minha consciência espiritual”, diz Aslan, “parar de colocar nossas compulsões humanas sobre o divino e desenvolver uma visão mais panteísta de Deus”. E conclui: “Como crente e panteísta, adorar Deus não com medo e temor, mas com reverência e admiração pelo funcionamento do universo, pois o universo é Deus. Rezo a Deus não para pedir coisas, mas para tornar-me um com Deus. Bem e mal são escolhas morais. A única maneira de conhecer verdadeiramente Deus é confiando a única coisa que eu realmente posso conhecer: a mim mesmo. Ser e permanecer crente é nada mais do que uma escolha”.

O panteísmo é a crença de que tudo e todos compõem um Deus abrangente e imanente ou que o Universo e Deus são idênticos. Dessa forma, quem é adepto desse pensamento não acredita em deus pessoal, antropomórfico. “Nessa verdade está a chave para uma forma de espiritualidade mais madura, mais pacífica e primeva. Minha crença é panteísta. Deus está em tudo. Ele é a natureza e a realidade. Ele é você”, encerra o autor.

Em suma, Aslan não diz isso no livro, mas provoca todas as estruturas institucionalizadas como religiões, ao propor nova concepção deísta que, na prática, poderia dispensar intermediários, como papas, padres, pastores etc., e poderia dar fim a lucrativos negócios de manipulação e perpetuação do poder por grupos diversos.

SAIBA MAIS

COMO JESUS VIROU CRISTO


O historiador iraniano Reza Aslan ganhou fama mundial em 2013, quando lançou o livro Zelota – A vida e a época de Jesus de Nazaré. É uma obra essencial para crentes e céticos. Isso porque Aslan, baseado em fatos e nos evangelhos canônicos e outras escrituras, vai atrás do Jesus histórico, o camponês analfabeto que nasceu num lugarejo da Galileia, lutou contra a opressão do Império Romano e, décadas depois de sua morte na cruz, foi transformado em Cristo (o ungido). “A representação comum de Jesus como pacificador inveterado que amava seus inimigos e deu a outra face foi construída principalmente para retratá-lo como pregador apolítico, sem  conhecimento do mundo turbulento em que viveu”. “O Jesus da história tinha uma atitude bem mais complexa em relação à violência. Não há nenhuma evidência de que Jesus defendesse abertamente a violência, mas ele certamente não era pacifista”, afirma o pesquisador. Aslan conta como, após a destruição total de Jerusalém, no ano 70 d.C, que deu início à diáspora judaico-cristã, a Igreja primitiva tentou desesperadamente distanciar Jesus do nacionalismo zelota, que levara à guerra terrível, e atribuir a ele princípios éticos abstratos e transcendentais para não despertar mais a ira do Império Romano. Jesus de Nazaré foi real e não deixou evidências históricas dos seus milagres. Já Jesus Cristo é uma questão de fé, de acreditar. E fé não se discute.

DEUS – UMA HISTÓRIA HUMANA
De Reza Aslan
Zahar
248 páginas
R$ 59,90 (livro) e R$ 39,90 (e-book)

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