'Existe um declínio dos ideais e uma resignação grande'', diz filósofo Adauto Novaes

Curador do ciclo de conferências 'A outra margem da política', que será realizado em BH de 3 de maio a 14 de junho, pensador reflete sobre os caminhos da representatividade

por Pablo Pires Fernandes 27/04/2018 12:05

A crise do sistema político, a falência dos modelos de democracia e a ruptura da representação são fatos facilmente constatáveis. Diante de um cenário caótico e carente de referências, a reflexão sobre o tema se faz urgente. Discutir a política, resgatar conceitos e apontar direções é o objetivo do Ciclo de conferências mutações, que volta a Belo Horizonte, a partir da próxima semana, para abordar o tema A outra margem da política.

Sob a curadoria do filósofo Adauto Novaes, 15 nomes de peso estarão no BDMG Cultural tratando das diversas facetas da política: conceitos históricos e novas abordagens estão entre os temas propostos pelos pensadores. Em entrevista ao Pensar, Adauto Novaes adianta algumas questões.

 

Como abordar e refletir a respeito da política nos dias atuais? 
Vivemos um tempo de desolação e pessimismo em relação à política e daí, inclusive, intrinsecamente, o tema do ciclo de conferências já está apontando a questão. “A outra margem da política” quer dizer que estamos em uma margem e é preciso construir pontes conceituais para chegar à outra margem. Esse ciclo está inserido na ideia de mutações, que já vimos trabalhando há 12 anos. Portanto, vamos abordar a grande mutação pela qual a política passa atualmente a partir de três pontos principais: O primeiro é a mundialização; o segundo é o fim da ideia de Estado-nação, exatamente em função da mundialização; e o terceiro é o grande poder da tecnociência hoje no mundo e, em particular, da própria política.

Como vê a rejeição da sociedade em relação à política?
Existe um declínio dos ideais e uma resignação muito grande em relação à história e à política. Quer dizer, quando eu falo de resignação, quero dizer justamente isso, que a política passou a ser uma coisa quase desnecessária na vida social e política para as pessoas. Os três campos refletem o que estamos vivendo e são comuns. Foi o que o (escritor austríaco Robert) Musil definiu, de maneira brilhante, como aquilo que está dominando a política ou um tipo de sociedade que é o “egoísmo organizado”. Não existe a ideia de comunidade, que desaparece. Hoje, os fatos técnicos são contrários aos ideais políticos, esse é o grande problema. O (filósofo francês Paul) Valéry trabalha bem um conceito dizendo que “a barbárie é a era dos fatos” e que nenhuma sociedade se estrutura se organiza sem as “coisas vagas”. Por “coisas vagas”, ele entendia os ideais políticos e, no presente, não se tem ideais políticos.

Pode-se dizer que a representação política está falida? 
A gente tem o domínio do econômico sobre todas as áreas da atividade humana, inclusive da política. Então, a representação passou a ser regida por questões econômicas pura e simplesmente. São grupos que criam seus representantes e aí recorro, mais uma vez, a Valéry que diz que a democracia contemporânea é “a arte de impedir o povo de ser interessar por aquilo que lhe diz respeito, mas que, ao mesmo tempo, obriga as pessoas a decidir sobre o que nada entendem”. O (filósofo francês Jacques) Rancière fala também nesse sentido, ao dizer que a ideia de povo é uma ideia criada pelo poder. Isso é muito importante, pois fala-se em nome do povo sobre uma coisa criada pelo próprio poder.

Diante dessa crise na representação, como ficam as instituições?
Eu poderia até colocar como epígrafe desse ciclo todo uma frase maravilhosa do Musil quando, fazendo a crítica da política, diz: “Não se deve curar a decadência”. Há um processo de decadência não só da representação, mas da própria política que se instituiu a partir de 1789 e não dá para querer curar essa decadência. O mundo é outro. Quer dizer, diante do grande avanço da tecnociência, das novas mídias, não é possível os partidos políticos e os sindicatos serem os únicos mediadores entre a sociedade e a política de fato. Enfim, há uma mudança radical e é preciso se pensar a política a partir dela e não retomar a partir do que já foi superado.

A própria ideia de democracia não está em xeque?
Uma questão que é muito mais complicada, no meu ponto de vista, é aquilo que se tenta definir como democracia hoje. O (filósofo alemão Martin) Heidegger une a grande transformação pela qual passa o mundo hoje e a questão da ciência quando diz que “o mundo planetário dos tempos modernos transformou-se em uma potência que determina a história”, ou seja, o processo de mundialização determina a história. E mais, ele diz: “Para mim, hoje, é uma questão decisiva saber como se pode estabelecer um sistema político na era da técnica”. Ele se pergunta que sistema seria esse e afirma: “Eu não sei responder a essa questão e não estou certo de que seja democracia”. Ou seja, ele está dizendo, já àquela altura, na década de 1950, que todo processo regido pela ciência e pela técnica tende a ser um processo totalitário. Agora você levantou uma questão difícil de ser respondida por que estamos no meio da história e estamos começando a pensar essas questões. Inclusive, como o próprio Musil diz, “não ser filosofia é a filosofia do novo tempo”. Quer dizer, a técnica e a ciência tentam abolir o pensamento e o pensamento político em particular.

Como vê a relação entre a tecnociência e a crise dos valores humanistas? 
O que é a tecnociência traz não é o racional, mas o irracional. Esse que é o grande problema, é uma irracionalidade técnica – diferentemente do que alguns teóricos da Escola de Frankfurt falam que é uma racionalidade técnica. O que acaba se estabelecendo hoje pela técnica é o irracionalismo. Perde-se o sentido das coisas. Porque o Estado não permite que o cidadão tenha consciência de sua própria situação. Aí, sobra o irracionalismo.

Na sua opinião, como a comunicação, as redes de informação influem na política?
Há uma multiplicidade muito grande de informação e as pessoas não têm nem tempo para trabalhar essas informações. Esse é um problema, mas acredito que, com o tempo, as pessoas vão buscar instrumentos necessários para se pensar o que estão recebendo. Não vejo isso com muito pessimismo, não. Vejo que é complicada a proliferação de imagens e informação, mas, de alguma maneira, essa saturação vai chegar a um limite e as pessoas vão começar a pensar aquilo que estão vendo. Como diz (o filósofo francês Maurice) Merleau-Ponty, “o que se vê é mais do que se vê”. Agora, estamos no puramente ver, mas as pessoas estão tentando buscar esse mais.

Como é possível mudar a relação entre as pessoas e a política?
Mais uma vez, volto a Valèry que, diante da transformação pela que passava o mundo, depois da Primeira Guerra Mundial, afirma: 
 “Temo que o espírito esteja se tornando numa coisa supérflua”. Espírito, para Valèry, é a inteligência, a potência de transformação. Essa ideia de inteligência está um pouco baleada hoje e esse espírito de transformação também. Porque o máximo que as pessoas querem é uma volta a como estavam antes e isso não dá certo. Deve-se tentar se pensar realmente o novo e recriar novas ideias de política. E na era da técnica, a grande maioria da população, o povo ou a massa heterogênea, diante das novas tecnologias, nada é capaz de imprimir profundamente algo no espírito, nem se exprimir inteiramente, de uma maneira mais profunda, porque essa mudança varia a cada instante, esse é o problema. As pessoas não conseguem exprimir o que estão sentindo. É uma contradição muito importante e isso se reflete de maneira muito radical na política.

CICLO DE CONFERÊNCIAS MUTAÇÕES – A OUTRA MARGEM DA POLÍTICA
Curadoria: Adauto Novaes. De 3 de maio a 14 de junho de 2018, às 19h. No auditório do BDMG Cultural (Rua Bernardo Guimarães, 1.600, Lourdes). Ingressos para ciclo completo: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia). Inscrições pelo site: www.appa.art.br. Informações: BDMG Cultural: www.bdmgcultural.mg.gov.br
ou (31) 3219-8486.

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