A geometria afetiva de 'Trama fantasma'

Artigo de Iza Haddad e Douglas Garcia analisa a metáfora do filme de Paul Thomas Anderson

Annapurna Pictures/Divulgação
(foto: Annapurna Pictures/Divulgação)
Trama fantasma, recente longa-metragem do cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson, desenrola-se a partir da atmosfera sombria do inverno londrino dos anos 1950. O enredo mantém, do início ao fim, uma tensão permanente entre um costureiro renomado e uma moça jovem, que se torna modelo para seus suntuosos vestidos. Ao lado dos planos detalhados, compostos por filmagens intimistas dos tecidos finos e croquis em preto e branco desenhados pelo minucioso estilista, estão os planos panorâmicos, em que cenários suntuosos de uma casa em estilo georgiano abrigam um ateliê de alta-costura. A trama de um romance, tecido apenas por três personagens, desvela verdadeira ode ao enlace amoroso e sintomático entre Reynolds Woodcock, obsessivo e melancólico, e Alma, a dócil escocesa.

Poderíamos nos perguntar que tipo de filme é 'Trama fantasma' e porque a moda nele ocuparia um lugar especial? Seu protagonista, Woodcock, é um estilista meticuloso, seu meio de expressão é o desenho. Aqui, a questão da moda se torna importante por apresentar uma duplicidade difícil de lidar. Por um lado, como estilista, ele precisa se amparar na geometria e em medidas matemáticas muito precisas – e a cena em que ele tira as medidas de Alma pela primeira vez é impressionante, pela quantidade e minúcia –, que são ditadas secamente a sua ajudante, a irmã Cyrill.

O âmbito existencial de Reynolds é o espaço. Alma é, antes de tudo, espacialmente registrada pelo seu olhar geometrizante. Ocorre que a moda lida com figuras geométricas tridimensionais 'em movimento'. Assim, Reynolds precisa, em seu trabalho, imaginar o plano virtual em que se desdobrarão os movimentos de suas criações. É por isso que o filme é sobre um artista criativo de moda, e não sobre outro tema. Ela permite metaforizar, em termos de uma sequência de ações, em uma trama, a complexidade das relações entre geometria e movimento, posição e deslocamento. Nessa trama, Reynolds representa a geometria e a posição.

Alma representa o movimento, aquilo que dá vida, o que remete ao 'pneuma' grego, cuja tradução é sopro de ar, aquilo que dá movimento e inteligência à matéria – sendo ele mesmo algo material. Tendo sido apreendida como puro suporte material a ser medido e utilizado, como uma espécie de cabide articulado, Alma será feita de recuos e avanços, entrega e recusa. Essa ambiguidade apavora e confunde Reynolds. Não por acaso, uma de suas falas recorrentes no filme é 'unsettling feelings' (sentimentos de perturbação e desarranjo) provocados por Alma. Ela é, ao mesmo tempo, a modelo ideal, capaz de ficar horas de pé, imóvel, enquanto provas de vestido são feitas, e aquela que nega ser fixada na fria geometria dos espaços propostos por Reynolds.

O primeiro quadro do longa-metragem se passa em um charmoso café dos arredores da cidade. Enquanto prepara um café colonial, com direito a ovos com gemas firmes e chá-preto para aquele que ela reconhece com um ‘menino guloso’, somos arrebatados pela cena sedutora protagonizada pelos personagens e seu preciso gestual. O espectador será tragado pelo movimento lento da câmera que o conduz à sutileza da pele do rosto da moça ao corar diante do amante. A aproximação tímida dos protagonistas tinge a atmosfera do primeiro encontro com as cores dos amores de primeira vista.

Após um convite para jantar, Alma se despe do avental de tecido simples e simplório de garçonete para se vestir com os ricos tecidos de cetins e sedas dos vestidos confeccionados pelas mãos do sombrio costureiro inglês. No lusco-fusco de um sótão em que se organizam, meticulosamente, tecidos e ferramentas de costura, Reynolds se prepara, em uma das primeiras cenas do filme, para recobrir o corpo daquela que esperávamos que fosse despida. O corpo da amante é sobreposto por camadas e mais camadas de fazendas finas, contornado por enchimentos, e adornado pelo tom da cor, que ele escolhe a dedo, para o primeiro vestido que confeccionará com esmero para vesti-la.

A recém-chegada à 'maison' dos Woodcock se torna um corpo perfeito para os vestidos do estilista. Os desfiles de moda de 'Trama fantasma' ocorrem nos salões da mansão em que os três personagens moram, protagonizando um triângulo, digamos, incestuoso. Os planos intimistas dos desfiles em que Alma é a modelo mais graciosa, revelam, ao mesmo tempo, a textura das rendas das criações de Reynolds e as nuances da “alma” de uma mulher por trás dos drapeados confeccionados, artesanalmente, pela fantasia de um homem. O metódico costureiro que reitera, a cada dia, gestos lentos e silenciosos em sua rotina entediante, exige silêncio absoluto no café da manhã, enquanto se irrita com a movimentação excessiva de Alma.

Enfim, Reynolds é o senhor do espaço, e Alma, a senhora do tempo. Ela aprenderá a decifrar as metáforas da linguagem elusiva de Reynolds e os olhares frios de Cyrill. Nesse percurso, sua arte será a de jogar com o tempo. Ela realiza, assim, mais do que Reynolds, o aspecto de antecipação do movimento virtual da roupa – e dos afetos – no espaço, contido na criação de moda. Sua formação é paciente e se fará nos intervalos, nas lacunas daquilo que a impetuosa criatividade de Reynolds elabora. Ela espera o momento em que o seu próprio movimento terá o maior impacto sobre Reynolds. Ela aprende a agir à distância, como os fantasmas, aproveitando o efeito retardado de suas ações. A geometria de chumbo de Reynolds será desafiada pelo movimento intangível das imagens que Alma projeta na tela de sua fantasia.

A certa altura da trama, Reynolds revela à namorada que foi amaldiçoado por uma sina: nunca amar. Curiosamente, ao confeccionar suas roupas, borda em um pedaço de tecido, ritualisticamente, uma única frase que costura na barra dos vestidos de noiva de suas clientes: 'Livre de qualquer maldição' ('Never cursed')!. A falecida mãe do protagonista surge quando ele devaneia, febril, a presença dessa primeira mulher para a qual confeccionou, quando criança, o primeiro vestido. Apesar de nunca ter podido até então substituir a mãe, cai vítima de uma maldição ainda maior: amar aquela que é, ao mesmo tempo, seu veneno e fármaco.

Nesse sentido, a dança de Alma e Reynolds parece desafiar uma compreensão economicista das relações afetivas, orientada pela ideia de uma regulação de satisfações. O filme quebra o espelho em que se tenta (tantas vezes e de tão variados modos hoje) enquadrar a felicidade no plano da otimização do próprio interesse. O espectro que ele conjura é o fantasma das paixões. A moda, uma geometria dançante, fornece metáfora para a dimensão dos afetos humanos, irredutíveis a qualquer contrato.

Com mais de uma hora de filme, deparamo-nos com uma das cenas mais poéticas do roteirista. Alma descobre com as empregadas da casa como colher cogumelos na floresta negra nos arredores da mansão. É nesse ponto da trama que seu ressentimento pelo cortante distanciamento afetivo do amante a conduz a um gesto impensável. Aprende com um livro de culinária a distinguir os fungos selvagens venenosos dos comestíveis, e então prepara minuciosamente um chá em que mistura pedaços da iguaria intoxicada. Somos arrebatados para o cenário de uma cozinha sombria, invadida por um mundo sensorial, em que as mãos alvas da protagonista preparam o veneno. A amante recolhe com uma pequena colher de prata um bocado do cogumelo macerado por um pilão, para dentro de um minúsculo dedal, ferramenta usada pelas costureiras para proteger o dedo da agulha. Seu conteúdo é salpicado no chá que ela servirá ao amante.

É nesse ponto da história que Alma se dá conta de seu genuíno desejo: ter o amado, literalmente, em suas mãos, não sem o consentimento do mesmo. Percebe que, nos momentos de fragilidade causados pelos efeitos do envenenamento, que ela mesma se encarrega de produzir com prazer, o traço agressivo, violento e sistemático do amante cede lugar à fragilidade e ao abatimento de um obsessivo atormentado pela culpa. As doses tóxicas do veneno se tornam, enfim, um bálsamo para esse homem que repelia a todo custo, o angustiante desejo do outro. A trama do longa-metragem, que não por acaso poderíamos renomear de fantasmática, desvela o paradoxo do enlace amoroso: a ternura quase maternal que será intoxicada, de tempos em tempos, por um gozo cortante do aniquilamento.

Tendemos a pensar que foi por estratégia deliberada da Academia que o filme ganhou apenas o Oscar de figurino, tendo sido preterido nas outras categorias em que fora indicado: ator principal, atriz coadjuvante, trilha sonora original, diretor e melhor filme. Estratégia de ignorar o aspecto inquietante de seu roteiro e sua 'trama fantasma'. Terá sido mais fácil reconhecer apenas aquilo que salta aos olhos, a beleza dos costumes criados para o longa-metragem? Tão mais difícil será jogar luz sobre a confusa matéria animada, ao mesmo tempo chumbo e perfume, de que são feitos os afetos humanos: essa é a arte magistral de 'Trama fantasma'.



* Iza Haddad é psicanalista, professora de departamento de psicologia na UNA e Douglas Garcia é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto.

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