Lucrecia Zappi conta como criou o romance Acre

Escritora é uma das atrações do FliAraxá, que começa na próxima semana

por Carlos Marcelo 10/11/2017 10:13

Vicente de Paulo/divulgação
(foto: Vicente de Paulo/divulgação)
Retângulo cortado ao meio, duas cores; no alto, à esquerda, uma estrela vermelha. A bandeira do Acre inspira Lucrecia Zappi. “O desenho me fascina. Tenho uma conexão visual com a bandeira, quase como um esquema estrutural do livro”, conta a escritora, que pegou emprestado o nome do estado brasileiro para batizar o segundo romance, ambientado em prédio antigo no Centro de São Paulo. “No corte na diagonal, eu via uma montanha, ou uma rampa de skate: as referências da descida da Serra do Mar e da adolescência de Santos começaram aí. Daí aquela estrela no alto, à esquerda. Aquilo me levava aos pontos de luz no mar à noite, das embarcações flutuantes que ora estão, ora não estão mais, e a loja de luminárias da Consolação”, revela. Em Acre, o romance, a relação de um casal – Oscar e Marcela – é abalada pelo retorno de Nelson,  ex-namorado da mulher, recém-chegado da região Norte. Mas há nas 208 páginas muito mais do que uma intriga amorosa. Em tensão crescente, povoado por impasses sociais e com imagens desconcertantes (“Nossos corpos coexistiam como os caranguejos vendidos na estrada, unidos por um fio”, o silêncio como “um mar liso”), a jornalista Lucrecia – nascida em Buenos Aires e que passou boa parte da vida em São Paulo, atualmente em Nova York, onde cursa mestrado em criação literária – demonstra especial habilidade para fazer a narrativa recuar e avançar de acordo com as emoções e reações de seus personagens. Entre fissuras e cicatrizes, Acre é, antes de tudo, um estado de espírito. A seguir, uma entrevista com a autora, uma das atrações da sexta edição do Festival Literário de Araxá (FliAraxá), que começa na próxima semana.

Por que Acre em São Paulo? O que o estado da região Norte representa na sua ficção?

Porque é uma história paulistana. Quis inicialmente que Acre fosse um romance de fronteiras, um western. Diversos clássicos latino-americanos serviram de inspiração, de autores como Ricardo Güiraldes, por exemplo, ou de João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Raduan Nassar. Sempre me fascinaram esses territórios vastos e de grande força poética, que acabam levando à busca de si mesmo, geralmente marcados por uma visão masculina de um mundo rústico e mítico ao mesmo tempo. Acre brotou da tentativa de compreender essa voz masculina e outro pouco por essas paisagens fronteiriças, e desde o começo eu vi uma relação com a cidade, não só pelo forasteiro que chega de longe e ninguém sabe ao certo de onde veio e a que veio, mas também pela relação com um lugar inóspito e violento que pode ser São Paulo.

Muros encardidos, rachaduras na parede, cicatrizes urbanas, praças forradas de cimento. Como o ambiente escolhido influi no comportamento dos personagens?
Acre tem uma beleza carcomida, está cheia de paredes grafitadas e edifícios com zilhões de caixas de ar-condicionado que pendem das janelas. Acho que meus personagens trazem esse mundo encardido no olhar. Assim como São Paulo, envelhecida e malcuidada – e poderia ser até outra cidade grande brasileira –, vejo uma relação direta com o casal protagonista, que leva uma existência acomodada e passiva em um bairro do Centro.

Uma das principais personagens, Marcela, diz não se interessar pelo “mundo das lembranças”, mas são elas, as recordações, que assombram o narrador, Oscar, inclusive nas “lembranças violentas da adolescência”, simbolizadas em um canivete. Como as suas próprias recordações influenciaram as lembranças descritas em “Acre”?
Estão presentes, sim. Nunca andei armada de canivete, mas a piscina do bairro, as caminhadas pelo Centro de São Paulo, os ipês da praça e os sons do elevador tornam a história muito minha, mas também muito própria de outros paulistanos que viveram por ali, e na mesma época.

Em determinada passagem do livro aparece um representante do “discurso do ódio” que tem encontrado destaque cada vez maior em redes sociais, em especial no Brasil. Como a literatura pode refletir sobre uma condição tão atual?
O representante do “discurso do ódio” é meu personagem Adriano, xenófobo e homofóbico, que curiosamente parece ser a única pessoa preocupada em limpar a cidade, só que da sua maneira, e aqui entramos na questão da São Paulo como a cidade de muros, do medo, com uma preocupação quase paranoica sobre a segurança. E vemos como isso está ligado ao problema da desigualdade social. Observando as pessoas em uma cidade como Nova York, é curioso pensar que a questão da alienação não vem só de uma barreira social ou inclusive do idioma, mas que também está presente entre os que se parecem entre si. Acre é um romance que esconde uma intriga e traz um mistério que não se resolve necessariamente: por que a convivência social às vezes se torna impossível?. Acho que parte desse mistério tem a ver com a relação das pessoas com a cidade onde vivem.


Uma reunião de condomínio se transforma, em uma das passagens mais impressionantes do romance, em um julgamento sumário. Como os moradores de um prédio na Vila Buarque podem espelhar o Brasil contemporâneo?
Sim, existe um gosto acre de estabelecer e restabelecer relações de poder e de hierarquia que para mim refletem um certo viés contemporâneo brasileiro, e uma reunião de condomínio pode revelar muito dessa classe social envolvida no próprio jogo decadente de aparências, de achar que está em uma posição privilegiada ou simplesmente cumprindo seu papel social ao implicar com o porteiro homossexual, por exemplo. Quando descrevo essa São Paulo, não o faço em clima de denúncia, mas eu a apresento com austeridade, creio, sob uma luz emocional crua. E até onde se supõe que exista um sentido de comunidade, o lugar pode parecer opressivo. É curioso como os contatos humanos vão se reduzindo pouco a pouco.

“Pra que serve isso, sempre voltar ao passado?”, pergunta Marcela a Oscar. Para um escritor, para que serve o passado?

Interessa-me essa sensação de “queda”, de “desmoronamento”, o momento da vida quando começamos a nos acostumar a nossas pequenas manias, intolerâncias, irritações, e pouco a pouco começamos a construir uma película disso ao nosso redor, distanciando-nos da juventude, dos saltos mais intuitivos e sem concessões. E acabamos aceitando um mundo imbecil, com toda a idiotice cotidiana. E daí, de repente, vem o baque. E é o ponto que me fascina: quando é que essa fórmula cômoda de vida deixa de funcionar?. Acho que é quando percebemos que a vida não é para sempre, que não temos tanto tempo assim.

Em Onça Preta, seu primeiro romance, a narradora é uma mulher. Em Acre, o narrador é um homem. Como se deu essa transição? Teve maior dificuldade no novo livro?
Tenho dois narradores muito diferentes, mas acho que isso independe do gênero ou idade – em Onça preta, Beatriz tem 19 anos, sai de São Paulo e vai para a Chapada Diamantina, enquanto Oscar tem 50, e dificilmente sai do seu próprio bairro. A chegada de Nelson representa uma ausência de 30 anos na vida de Oscar, simbolizada pelo Acre. Ou seja, Acre se transforma no não-lugar contra São Paulo, esta que é vital e presente para Oscar. Nesse contexto quis explorar sua fragilidade e insegurança diante do inimigo que também é um oco na paisagem, uma sombra. Então, os silêncios, os ecos, as repetições do cotidiano, os sons dos cabos do elevador, tudo vive e pulsa em função do forasteiro que é e não é ausente. Ele não se deixa ver por completo. Meu desafio maior foi entender a visão de Oscar de sua mulher, e também do prazer feminino. Seu medo à derrota, concretizado pela presença do inimigo no prédio, faz com que ele não defina muito bem o corpo da própria mulher. E ela, com pouco corpo, ganha força verbal. O diálogo então é muito importante por isso. É seco, naturalista e ao mesmo tempo introspectivo. Acho que isso foi o maior desafio: a fala dos personagens porque carrega o corpo do romance.

Como o exercício do jornalismo contribui para a suas narrativas ficcionais?
Acho que o jornalismo contribui para a ficção na sua função mais imediata, que é a de informar da maneira mais direta possível, o que não deixa de ser uma contradição na literatura. Como medir o excesso na cabeça de um personagem que conta uma história, quando o pensamento dá voltas e mais voltas, e não é necessariamente apresentado de maneira linear como muitas vezes em uma notícia de jornal? Arriscaria dizer que o excesso na ficção, então, é tudo o que não soa sincero. Ou verdadeiro.

De onde vêm as suas histórias? Observação, experiência, lembranças ou intuição?
Falando em leitor, acho que esses quatro ingredientes citados são fundamentais, inclusive para ele. São suas vivências que definirão o sabor (acre) da história.

TRECHO


“Olhei mais uma vez para o chão. Ela não precisaria arrancar os tacos, era só lixar, como na nossa sala. Tinha lido sobre o Acre outro dia, sobre o mercado negro da madeira. O Acre do Nelson, do cara que vinha de longe. Visualizei-o trabalhando na selva, não como engenheiro, mas cortando madeira, o vitiligo ardendo, o corpo cheio de insetos. A chuva começou a cair e preferi não perguntar sobre ele.”

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