Raphael Montes comenta reedição de 'Suicidas', sucesso que ele escreveu aos 19 anos

Escritor vem a BH para o projeto Sempre um papo

por Carlos Marcelo 08/09/2017 08:15

Logo na estreia, aos 20 anos, um romance policial com 500 páginas e um título “polêmico”: Suicidas. Difícil fazer sucesso? Não para o carioca Raphael Montes, nascido em 1990 e um dos autores contemporâneos mais bem-sucedidos no país e no exterior. “A repercussão de Suicidas surpreendeu todos”, lembra Raphael. “Quando o livro foi finalista de dois prestigiados prêmios (São Paulo de Literatura e Biblioteca Nacional Machado de Assis), a crítica voltou sua atenção para ele. Antes, era considerado apenas mais um livro policial, de mero entretenimento. Os prêmios deram o aval de que havia qualidade literária ali”, acredita o escritor, lembrando o que ocorreu depois: “Suicidas foi abraçado pelos leitores, que o indicavam sem parar aos amigos. É assim que conquisto novos leitores até hoje: na repercussão boca a boca”.

Raphael Montes/Divulgação
'Meus livros são inseridos no universo de jovens brasileiros enfrentando dificuldades financeiras, os desafios de entrar na vida adulta, as crises pessoais. É a realidade que eu e meus amigos estamos vivendo' (foto: Raphael Montes/Divulgação)
 

 

E é para conversar com novos e velhos leitores que Raphael Montes estará em Belo Horizonte para participar do projeto Sempre um Papo, no auditório da Cemig,  na próxima terça, 12. Ao final, ele autografará seus romances: Dias perfeitos (2014,  vendido para mais de 20 países), O vilarejo (2015) e Jantar secreto (2016). Além, claro, do mais recente lançamento – a reedição de Suicidas pela Companhia das Letras, com nova capa e discretas mudanças em relação à primeira edição, que saiu em 2012 pela editora Benvirá. “O desfecho é o mesmo da edição original, fiz apenas uma pequena alteração no capítulo final para brincar com a metalinguagem. É algo que faço muito nos meus livros: provocar em relação à autoria dos textos. No caso de Suicidas, torna a reviravolta final ainda mais perturbadora”, acredita o autor, que teve o livro adaptado para os palcos e também escreve roteiros de cinema e televisão. A seguir, uma entrevista com Raphael Montes.

O que há em comum entre Suicidas e seus romances posteriores?
Cada livro é um desafio para mim. Busco sempre experimentar algo novo na linguagem, no estilo, no ponto de vista do narrador ou na trama. Assim, enquanto Suicidas é um romance policial mais tradicional, uma espécie de Agatha Christie com cenas de violência, Dias perfeitos traz um suspense psicológico, mais sutil; O Vilarejo mergulha no terror e flerta com o sobrenatural e, por fim, Jantar secreto tem um ritmo de thriller, experimentações de formato, como um capítulo narrado pelo WhatsApp, e um humor exagerado que faz rir e incomoda. Em comum entre os livros, os temas polêmicos, as viradas inesperadas na trama, os finais surpreendentes e, acima de tudo, a ideia de que todos somos capazes de cometer atrocidades. É este meu objeto de interesse: pessoas comuns levadas a situações extremas e revelando um lado cruel ainda desconhecido.

Como foi reler o livro escrito aos 19 anos? Quanto tempo você levou para escrever? Teve vontade de modificar a narrativa ou decidiu preservar integralmente a sua visão como estreante?
Escrevi Suicidas dos 16 aos 19 anos, nas madrugadas, após passar o dia em aulas no ensino médio no Colégio de São Bento, preparando-me para o vestibular e, depois, durante os primeiros semestres na Faculdade de Direito na Uerj. Desde aquela época, eu queria ser escritor, mas sabia da dificuldade de se publicar um livro: eu não conhecia ninguém do mercado literário, não tinha um blog com leitores sedentos por minhas histórias, tampouco tinha certeza de que o material era publicável. Ao mesmo tempo, havia uma voracidade, uma ambição e também uma indignação que hoje me soam infantis, mas fazem todo sentido quando se tem 18 anos. Essa inocência está presente no livro e, caso eu modificasse a narrativa, eu corria o risco de perdê-la. Por isso, fiz apenas alterações pontuais, melhorei algumas frases e diálogos, trouxe de volta um capítulo cortado da primeira edição pelo editor da época. Mesmo discordando de muitas escolhas do livro, resolvi mantê-las. Preferi respeitar o Raphael que tomou esses caminhos anos atrás – e devia ter lá seus motivos. Gosto bastante do livro como ele é, apenas o enxergo como escrito por outro, o que não deixa de ser positivo: aprender, evoluir e seguir em frente. Não sei se foi a melhor decisão, mas foi a que tomei.

“Eu precisava fazer algo impactante, real. Algo que atraísse a curiosidade das pessoas por todo mundo”, afirma um dos personagens. Esse também é um dos desafios dos escritores contemporâneos para chamar a atenção para os seus livros?
Em tempos de WhatsApp, Netflix e videogames com narrativas sólidas, o escritor tem um desafio duplo: escrever uma boa trama, que prenda a atenção e surpreenda e, ao mesmo tempo, escrever algo profundo que provoque ou convide o leitor à reflexão. Não é nada fácil. Não sei se consigo, mas tento. Nos meus livros, por trás da narrativa surpreendente e das cenas chocantes, há sempre alguma crítica à sociedade ou ao ser humano.

Há uma passagem de Dias perfeitos na trama de Jantar secreto, vista por outro ângulo. Pretende repetir o recurso no próximo romance, de forma que todos estejam conectados?
Sim. Gosto da ideia de que existe um universo paralelo em que personagens de um livro aparecem sutilmente em um momento do outro. Afinal, todas essas histórias nasceram em um mesmo lugar: na minha cabeça. Já usei esse recurso outras vezes nos meus livros, mas apenas poucos leitores percebem.

Em Dias perfeitos, há o seguinte trecho: “Os escritores escrevem sobre aquilo que conhecem”. Até onde vai a sua pesquisa para os romances?

Em termos práticos, faço sempre uma pesquisa grande antes de começar a escrever. Enquanto escrevo, não pesquiso nada, coloco no papel conforme a pesquisa prévia ou conforme imagino que seja na realidade. Quando termino o livro, faço uma releitura e pesquiso pontos específicos que surgiram durante o processo de escrita. Em alguns casos, a realidade atrapalha a ficção. Daí, sou obrigado a ignorar a realidade e tratar de deixar a ficção o mais verossímil possível. A coerência interna da trama é mais importante do que a coerência com a realidade, mas o ideal é que as duas coexistam.

O que gostaria de ler mais na literatura brasileira contemporânea? E na crítica da literatura contemporânea?
Gostaria de ler mais romances de gênero, como um faroeste brasileiro, uma ficção científica, um whodunit clássico. Gostaria também de ver mais autores de fôlego, com 20, 30 livros publicados com o mesmo detetive ou o mesmo herói, algo que é muito comum nos Estados Unidos e na Europa. Aos críticos, falta abrir o olhar e perder o ranço acadêmico: a boa literatura pode e deve ser para todos.

Como o cinema influencia a sua literatura?

Acredito que o escritor é influenciado por tudo o que o rodeia – a música, as artes plásticas, o cinema e, claro, a literatura. Pessoalmente, sempre fui apaixonado por cinema, tenho vontade de dirigir um longa-metragem um dia. Então, sem dúvida, essa paixão aparece nas minhas narrativas. Costumam dizer que meus livros são muito visuais, ainda que eu tenha certo incômodo com essa ideia. De todo modo, Tarantino, Haneke, os Irmãos Coen e Almodóvar são cineastas que eu admiro e que me inspiram. Gosto da mistura de violência e humor negro que eles fazem e que também está muito presente nos meus trabalhos.

Como se tornar um escritor popular no Brasil?
Não acredito que exista resposta para essa pergunta. Nunca escrevi uma linha querendo ser um escritor popular. Sempre me detive em escrever simplesmente o que me agradasse, algo que eu gostaria de ler e não encontrava na literatura. Todo o resto aconteceu de modo natural.

Dante (Alighieri), Arthur (Conan Doyle), Jorge Luis (Borges), Miguel (de Cervantes), Umberto (Eco), Adélia (Prado), Cora (Coralina), Lygia (Fagundes Telles)... Alguns dos principais personagens de Jantar secreto têm nomes de escritores, assim como a Clarice (Lispector) de Dias perfeitos. A homenagem é intencional? Teremos, em algum próximo romance, um personagem com o nome de Raphael?
Faço homenagens a autores de quem gosto. Em Jantar secreto, decidi que todas as mulheres teriam nomes de autoras brasileiras, já que nossos leitores conhecem tão pouco a literatura nacional. Propositadamente, todos os personagens masculinos são autores estrangeiros que ajudaram na minha formação como escritor. Em Dias perfeitos, a homenagem é um pouco mais curiosa: peguei de Clarice Lispector alguns trejeitos, a maneira de falar, e coloquei na minha personagem Clarice. Em alguns aspectos, elas são parecidas. Não penso em escrever nenhum personagem chamado Raphael – acho um nome feio (risos).

“A gente tem que conseguir resolver nossos próprios problemas. Somos adultos”, afirma um dos personagens, que não quer “correr pros braços da mamãe toda hora que o bicho pegar”. A dificuldade de afirmação dos jovens no mundo adulto também é um dos temas de Jantar secreto?
Sim, sem dúvida. Meus livros são inseridos no universo de jovens brasileiros enfrentando dificuldades financeiras, os desafios de entrar na vida adulta, as crises pessoais. É a realidade que eu e meus amigos estamos vivendo. Eu a conheço bem, afinal, todo escritor é um observador.

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