Livro reúne fotografias de Elza Lima sobre a região amazônica

A fotografia da artista a intimidade de corpos e olhares sobre a Amazônia e dialoga com outros artistas que evocam potência da imagem e se entregam à verdade

por André Nigri 14/07/2017 10:02

O cotidiano dos moradores do Pará é revelado em imagens: à espreita
A uma certa altura dos diálogos com Francis Bacon, o jornalista de arte Franck Maubert lhe pergunta se as palavras o ajudam a pintar e se os textos dos poetas e dos dramaturgos atuam sobre ele como “disparadores de imagens”. Bacon: “Os poetas me ajudam a ir ainda mais longe. Gosto da atmosfera na qual eles me fazem mergulhar. Eles me ajudam sim a pintar e, sobretudo, a viver”.

Elza Lima é uma fotógrafa brasileira nascida em Belém do Pará, em 1952.  A Editora Ipsis publicou um livro inteiro dedicado às suas imagens. Em conversa com Eder Chiodetto, curador da coleção de fotografia brasileira da Ipsis, Elza diz: “Acho que a primeira imagem que se cria é por meio da leitura. Quando você lê, você está criando sua interpretação dos personagens e paisagens”.

Quando examinei lentamente, parando em cada foto e detalhe, o livro com as imagens realizadas por Elza nas regiões Norte e Nordeste do Brasil nas duas últimas décadas do século passado, associei-o imediatamente aos quadros de Bacon. Por que fiz isso? O que as telas e os trípticos daquele extraordinário pintor anglo-irlandês, com figuras humanas distorcidas, esticadas como cordas entre o nascimento e a morte, como anota Maubert, têm em comum com as revelações em preto e branco da fotógrafa paraense nas quais aparecem homens, mulheres e crianças mestiços, vestidos de anjos ou de hábitos negros, ou ainda sem camisa em um bar, numa procissão, à beira de um rio ou na porta de suas casas em alguma periferia ou fim de mundo amazônico?

Fui procurar a resposta em alguns autores que me são caros.

Italo Calvino. Em um célebre texto sobre o valor da exatidão, o escritor observa que não apenas a linguagem escrita parece ter sido vítima de uma epidemia pestilenta, cuja consequência é a eliminação de seu poder e força de conhecimento, gerando um automatismo nivelador e pobre, como também as imagens foram infectadas. Calvino: “Vivemos sob uma chuva ininterrupta de imagens – imagens que em grande parte são destituídas da necessidade interna que deveria caracterizar toda imagem, como forma e como significado, como força de se impor à atenção”.

Sim, isso ocorre em toda parte. Basta parar um pouco e observar. Em um concerto de câmara, em que o silêncio e a concentração de quem o assiste são indispensáveis para a apreensão e fruição da melodia, três ou quatro pessoas na plateia sacam smartphones, levantam-se e gravam o quinteto de instrumentistas, embora haja uma advertência contra esse tipo de procedimento porque ele pode desconcentrar os músicos.

Somos todos repetidores de imagens, agora mais do que em qualquer outro momento da história da civilização. Repetidores. Recuso-me a usar o termo “criadores”.

J. M. Coetzee. Em Diário de um ano ruim, o romancista sul-africano escreve sobre o ato de fotografar. Vale a pena transcrever o parágrafo:

“O fato é que fotógrafos vão para uma sessão de fotos com algo preconcebido, quase sempre um clichê, sobre o tipo do retratado, e batalham para consubstanciar esse clichê nas fotografias que tiram. Eles não só colocam o retratado na pose que lhes dita o clichê como, ao voltar para o estúdio, escolhem entre as fotos aquelas que estão mais próximas do clichê. Chegamos assim a um paradoxo: quanto mais tempo o fotógrafo tem para fazer justiça ao retratado, menos provável é que essa justiça seja feita.”

É curioso. Para impedir ser vítima deste odiado clichê, Coetzee só se deixa fotografar sem sorrir, gerando ele mesmo seu próprio clichê. Sim, em uma sociedade como a nossa, é impossível se livrar de algum rótulo!

Por que as imagens de Elza Lima não me aparecem então como clichês? Por que, ao contrário, elas me fascinam? Elas dão a impressão de estar fora do tempo, de ter surgido de uma outra fonte que não está apenas na habilidade e técnica da fotógrafa, na qualidade de seus equipamentos ou no aprimoramento de seu processo de revelação. Tudo isso é ensinado ou aprendido em escolas e manuais.

Arrisco algumas respostas. Primeiro: Elza não tem pressa. Seu trabalho é lento, demorado, ela deixa que uma cena se repita até julgar o exato momento de disparar. Segundo: esse instante mergulha suas raízes no sonho e só pode ser apreendido com a máxima atenção porque ele (o momento) é raro e fugidio. Terceiro: no momento da revelação, incontáveis esboços são descartados, jogados fora, até se chegar a uma única imagem. Quarto: essa imagem desejada está ligada ao fundo da imaginação criadora de Elza, à sua infância, aos livros lidos quando ela era criança, na casa do avô.

Assim, a obra de Elza Lima é dotada de singularidade, de individualidade, de modo que ela não pertence a ninguém, a não ser a ela mesma, à sua criadora.

Bacon nunca desprezou as imagens fotográficas. Muitas vezes, partia delas para pintar seus quadros. “A imagem é um deflagrador de ideias”, ele diz. Ele também se demorava no processo de realizar sua obra. Costumava usar a expressão “ficar à espreita”.
O jogo de olhares e as cenas incomuns e não posadas são características do trabalho da artista

Esperar e estar atento.

Elza Lima leva muitas vezes anos para encontrar o instante. Como todo artista de verdade, ela atravessa um território cheio de obstáculos e barulho antes de chegar a uma conclusão. Talvez porque a arte tenha algo a ver com a obtenção da quietude no meio do caos, a captura da atenção em meio à distração. Mas, quando isso acontece, aquele tempo veloz e sorrateiro é congelado. E essa imagem capturada é como uma escultura do tempo.

>> ELZA LIMA – COLEÇÃO IPSIS DE FOTOGRAFIA

>> De Elza Lima
>> Organização de Eder Chiodetto
>> Ipsis Gráfica e Editora
>> 204 páginas
>> R$ 50

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