'Não sei quem lê os livros', diz cineasta Domingos Oliveira, que publica seu primeiro romance

Ele diz que escrever faz viver a escrita, mas que a prosa é frustrante porque não é possível acompanhar a reação do leitor

por Nahima Maciel 08/04/2016 14:02
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(foto: Divulgação)
O cineasta Domingos Oliveira notou que gostava muito de escrever prosa quando terminou a autobiografia Vida minha, publicada em 2014. Quis provar novamente o gostinho de narrar uma história e embarcou em um romance. Finalizado e publicado, Antônio: o primeiro dia da morte de um homem fez o cineasta perceber o quão frustrante é escrever um romance. “Você não vê, como no teatro ou no cinema, as reações do espectador! Nem sabe até que ponto o leitor leu o livro ou mesmo se leu. O contato de você com o leitor é enorme, porém o do leitor com você é mínimo”, constatou. “Parece-me uma atividade com um lado narcisista forte. Além do que, dá muito pouco dinheiro, não atinge quase ninguém. Na verdade, não sei quem lê os livros.”

Mesmo assim, escrever a história de Antônio e seus affairs foi uma aventura. O protagonista é um homem de meia-idade às voltas com o fim de um casamento e prestes a administrar um triângulo amoroso. Também é um escritor cujo primeiro livro não parece publicável aos olhos dos editores. Antônio não desiste da literatura, assim como não desiste de viver suas paixões com Nádia e Manuela, sejam elas apropriadas ou não. Não é um alter ego de Domingos nem mesmo um reflexo de qualquer desejo, mas é, segundo o autor, um habitante de seu próprio ser. “A aventura mais interessante que encontrei foi justamente aquela de perceber, dentro de mim, personagens que minha memória não tinha a menor ideia de que estavam lá”, avisa.

Presente em toda a narrativa está Eduardo, amigo morto de Antônio, mas vivo na figura de um observador que não se furta em comentar as desventuras do amigo. Este sim é um personagem resgatado da vida real, um amigo que Domingos perdeu no dia seguinte àquele em que escreveu as primeiras linhas do livro. “Descobri também, com deleite, que a vida do dia a dia, o impacto do imaginado com o real que sempre me guiou e encantou em todos os meus filmes, encontrava, ali na prosa, sua vocação como principal elemento criador”, conta. Antônio pode não ser exatamente o próprio Domingos, mas não há como escapar da vida real. A única forma de escrever, ele defende, é colocar na obra o cotidiano vivido.

Pode contar como criou Antônio? Ele tem alguma conexão com personagens de seus filmes ou com você mesmo?
Não pode ser dito que é um livro biográfico, tanto quanto a maioria dos meus filmes. A prosa tinha me atraído muitíssimo na minha autobiografia. Foi quando descobri que a prosa é uma linguagem na qual eu me envolvia com graça e leveza e onde era fácil seguir pelo menos uma das minhas propostas básicas como escritor, que é o que sou: um escritor sério que faz um enorme esforço para fingir que não é. Percebi logo, nos meus embates com a forma literária, que somente havia um modo de escrever: colocar na obra todo o seu cotidiano.

Você diz que não há como escrever sem colocar na obra todo o seu cotidiano. Como é isso?
É bem verdade que você assume, quando faz isso, a obrigação de estabelecer ligações entre o seu cotidiano e aquilo que você tinha tão zelosamente armado. Mas aí está o principal enigma. Quando você está escrevendo, não é um ser comum. É um livro. Tudo que você viver faz parte do romance. Você é o romance. Isso me diverte muitíssimo e engrandece.

E isso está em tudo o que você escreve?
Meus amigos e quem trabalha comigo nas peças e filmes dizem que eu não paro quieto. Modifico tudo até o último momento, pegando o bonde da realidade. Aproveitando o prazer do vento que bate na cara quando você muda de direção. Gostei de escrever prosa. Achei fácil. Não tive de abrir mão de um dos meus valores mais diletos, que é o de estar presente todo o tempo, aprendendo ou zombando dele, conversando ou me apaixonando pelo leitor ou espectador. Aprendendo e levando porrada juntos. O distanciamento brechtiano encontra na literatura um hábitat, com liberdade maior ainda que no teatro! São coisas que não dá para explicar.

Há muitas cenas íntimas no romance. Qual o papel delas?
Todas as cenas são íntimas. Caso contrário, o livro não é bom.

Você considera o livro literatura erótica? Qual o lugar desse gênero na literatura brasileira?
Absolutamente, não. É um livro pessoal com estilo próprio. A última obra que pode ser considerada “literatura erótica” é A casa dos budas ditosos, do amigo Ubaldo. Antes disso, pouco. Sade, Henry Miller. A literatura erótica nunca me deu tesão, prefiro as mulheres. Mas para o erótico ser verdadeiramente sexual é preciso conter a sadia e intensa dose de romantismo. E nem todo dia é dia santo.

Você já escreveu muitas peças e roteiros. Como foi o romance? O que o fez escrevê-lo e não transformar a história, por exemplo, em um romance?
Não sei muito bem dessa diferença de gêneros. São histórias que se contam, não importa o modo de contá-las. Sou da geração do cinema. Gostaria muito que meu próximo filme fosse o Antônio. Ia dar um dinheirão sem perder a ternura. Não é importante a forma como você conta. Não é importante sequer o que você conta. Importa apenas o olhar. O modo de ver a história que você conta. O resto são formalidades.

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