Cofundador da ONG Acaté, explica transcrição do conhecimento medicinal do povo matsés em enciclopédia

Christopher Herndon comentou processos em entrevista ao site Mogabay

15/01/2016 12:40
ENTREVISTA POR JEREMY HANCE

Quinho
(foto: Quinho)
A organização não governamental Acaté Amazon Conservation trabalha há mais de 10 anos junto ao povo matsés, que habita a região amazônica do Peru e do Brasil. Desenvolve projetos de conservação, de desenvolvimento sustentável e preservação dos conhecimentos tradicionais indígenas. Recentemente, a parceria entre a ONG e os xamãs das tribos matsés conquistou um feito: compilar a Enciclopédia de Medicina Tradicional Matsés. “Foi a primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrito em sua própria língua e com suas palavras”, disse Christopher Herndon, presidente e cofundador da Acaté, em entrevista para Jeremy Hance, do site americano Mongabay. Os matsés imprimiram sua enciclopédia só em sua língua nativa para garantir que o conhecimento medicinal não seja roubado por empresas ou pesquisadores e evitar a biopirataria. A proposta é que o material sirva para a formação de jovens xamãs e mantenha o conhecimento passado de forma oral por séculos. O Mogabay cedeu a entrevista para ser republicada no Pensar. Leia os principais trechos:

Entrevista por Jeremy Hance

Por que a enciclopédia é importante?


A enciclopédia marca a primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrita em sua própria língua e com suas palavras. Ao longo dos séculos, os povos da Amazônia têm repassado por meio da tradição oral uma riqueza acumulada de conhecimentos e técnicas de tratamento que são um produto de seus profundos laços espirituais e físicos com o mundo natural. Os matsés vivem em um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta e têm dominado o conhecimento das propriedades curativas das suas plantas e animais. No entanto, em um mundo em que a mudança cultural desestabiliza até mesmo as sociedades mais isoladas, esse conhecimento está rapidamente desaparecendo. Uma vez extinto, esse conhecimento, com a autossuficiência da tribo, nunca pode ser totalmente recuperado. A pioneira metodologia para proteger e salvaguardar o seu próprio conhecimento poderá servir como um modelo replicável para outras comunidades indígenas que enfrentam uma erosão cultural semelhante. Em termos mais amplos de conservação, sabemos que existe uma forte correlação entre os ecossistemas intactos e regiões habitadas por índios, o que torna o fortalecimento da cultura indígena uma das maneiras mais eficazes para proteger grandes áreas de floresta tropical.

Por que é agora o momento de se registrar essa informação?


O conhecimento dos matsés e a sabedoria acumulada por gerações estava perto de desaparecer. Felizmente, restavam alguns poucos matsés mais velhos, que ainda perservavam o conhecimento ancestral, já que o contato com o mundo exterior só ocorreu na última metade do século passado. Os curandeiros eram adultos na época do contato inicial e já haviam dominado suas habilidades antes de que missionários e funcionários do governo lhes dissessem que elas não eram úteis. No momento em que o projeto começou, nenhum dos xamãs mais velhos tinha jovens matsés interessados em aprender com eles. Um dos mais renomados e antigos curandeiros matsés morreu antes de seu conhecimento ser transmitido, então o momento era esse. A Acaté e a liderança matsés decidiram priorizar a enciclopédia antes de perder mais anciãos, com seus conhecimentos ancestrais. O projeto não tratava de salvar uma dança tradicional ou vestuário, mas da saúde deles e a das futuras gerações. A aposta não podia ser maior.

Como é a enciclopédia?

Depois de dois anos de intenso trabalho por parte dos matsés, a enciclopédia agora inclui capítulos escritos por cinco mestres curandeiros e tem mais de 500 páginas. Cada entrada é classificada pelo nome da doença, com uma explicação sobre como reconhecê-la pelos sintomas, a sua causa, quais plantas usar, como preparar o medicamento e opções terapêuticas alternativas. Uma fotografia feita pelos matsés de cada planta acompanha cada entrada na enciclopédia. A enciclopédia é escrita para e desde uma visão de mundo do xamã matsés, descrevendo como os animais da floresta estão envolvidos na história natural das plantas e conectados com as doenças. É uma verdadeira enciclopédia xamânica, totalmente escrita e editada por xamãs indígenas – a primeira, que conhecemos, de seu tipo e alcance.

Como você espera que essa enciclopédia possa ajudar os esforços de conservação?

Acreditamos que empoderar os povos indígenas seja a abordagem mais eficaz e duradoura para a conservação da floresta tropical. Não é por acaso que as extensões restantes intactas da floresta tropical na região neotropical estão sobrepostas às áreas habitadas por indígenas. Os povos tribais compreendem e valorizam a floresta porque são dependentes dela. Essa relação vai além de uma dependência utilitária, há uma ligação espiritual com a floresta, um senso de interconectividade que é difícil de se compreender por meio da mentalidade ocidental compartimentalizada – por mais que seja, no entanto, real. Muitas das graves ameaças ambientais em áreas indígenas remotas de que você ouve falar no noticiário – petróleo, madeira, mineração e afins – são indústrias externas que oportunisticamente se aproveitam da enfraquecida coesão social interna dos povos indígenas de contato recente, de seus recursos limitados e da crescente dependência do mundo exterior. O tema unificador das três áreas programáticas da Acaté – economia sustentável, medicina tradicional e agroecologia – é a autossuficiência. A Acaté não predetermina estas três prioridades de conservação; elas foram definidas em discussão com os anciãos matsés que sabem que a melhor maneira de proteger sua cultura e terras é por meio de uma posição de força e independência.

A enciclopédia foi escrita apenas na língua dos matsés como proteção contra o roubo do conhecimento indígena. O medo da biopirataria é uma preocupação real para os matsés?

Infelizmente, a história está cheia de exemplos de roubo dos povos indígenas. Particularmente para os matsés, a preocupação é bem real. As secreções da pele da rã kambo (Phyllomedusa bicolor) são usadas pelos matsés em seus rituais de caça. As secreções, ricas em peptídeos (pequenas proteínas) bioativos, são administradas diretamente no organismo em cortes frescos ou queimaduras. Quase imediatamente, as toxinas induzem intensas e autonômicas respostas cardiovasculares que levam a um estado alterado de consciência e acuidade sensorial muito maior. Depois de se conhecer o uso das secreções pelos matsés, pesquisas de laboratório sobre as secreções da rã kambo revelaram um complexo coquetel de peptídeos com potentes propriedades vasoativas, narcóticas e antimicrobianas. Várias empresas farmacêuticas e universidades registraram patentes dos peptídeos sem reconhecimento ou benefício aos povos indígenas.

* Texto publicado originalmente por Jeremy Hance no Mongabay. A íntegra pode ser acessada em http://news.mongabay.com/2015/06/amazon-tribe-creates-500-page-traditional-medicine-encyclopedia/

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