Crítico de cinema diz que o boom nacional de comédias é sinal da baixa educação do povo

Inácio Araujo acredita que as comédias feitas hoje vão na contramão da chanchada, berço de grandes diretores brasileiros

30/10/2015 12:30
EULER JR./EM/D.A PRESS
(foto: EULER JR./EM/D.A PRESS)
“O melhor já passou.” O crítico paulista Inácio Araujo toma emprestada a frase do diretor Gustavo Dahl (1938-2011) para falar de sua relação com o cinema. Aos 67 anos, milhares de produções analisadas, ele admite: seu ímpeto cinéfilo diminuiu. “Gosto mesmo é de ficar vendo filme velho”, revela. Um dos críticos mais respeitados do país, Araujo é também escritor e tem um passado de roteirista e montador. A despeito da passagem do tempo, não reduziu suas atividades. E tenta evitar, sempre que pode, a ida a festivais de cinema. “É muito cansativo. Quando você fica vendo muito filme, a visão, em geral, fica um pouco distorcida.” Mesmo assim, Araujo procura conferir quase tudo – da produção mais independente ao blockbuster milionário. Em entrevista ao Estado de Minas, ele fala sobre o cinema nacional e a função da crítica.

O filme brasileiro deste ano é Que horas ela volta?. Isso ocorre por razões que vão além da própria narrativa?

Por várias outras razões sim, mas não é um filme pelo qual sou apaixonado. O filme que prefiro é de Brasília, O último cine drive-in (de Iberê Carvalho), um melodrama muito íntegro com o Othon Bastos. Gosto muito da diretora de Que horas ela volta?, Anna Muylaert. O que não gosto é que, num determinado momento, a personagem da patroa se torna uma espécie de vilã e vira uma coisa meio novelesca. Ao mesmo tempo, é interessante a repercussão internacional. Na França, acho que o número de espectadores beirou os 200 mil. Também foi bem recebido criticamente na Inglaterra e nos EUA. A impressão que acaba consolidada é de que, finalmente, o Brasil tem um filme com chance de ganhar o Oscar. Mesmo com as reservas que faço, ele se distingue, a diretora é muito qualificada. Desde O som ao redor (2012, de Kleber Mendonça), começa a existir uma certa compreensão internacional sobre o filme brasileiro. Espero que ele concorra ao Oscar, pois no Brasil a gente reage muito a coisas que repercutem lá fora.

Vinte anos depois da retomada, a produção nacional fez as pazes com o público?

No que diz respeito à produção mais autoral, muitos filmes fazem cinco, 10 mil espectadores, o que é calamitoso. No Brasil, produz-se para um público hostil, que não faz questão de ver aquilo, não quer ver aquilo. Os cineastas ficam tentando um jeito de abrir caminho... É interessante para um tipo de filme ter 100 mil, 200 mil espectadores. Não precisa ter 500 mil, como parece que o da Anna Muylaert vai chegar. Mas se fizer 100 mil está ótimo, pois você tem uma base de onde partir. Mas quando o público não é hostil, ele é muito desconfiado. Vai ver o filme na televisão, mas não tem confiança pra botar R$ 10, R$ 20 na sala de cinema, como no caso da produção americana. Claro que você tem sucessos esparsos. Para voltar no tempo, o filme da Carla Camuratti (Carlota Joaquina – Princesa do Brazil, de 1995, marco inicial da retomada do cinema brasileiro) fez uma montanha de espectadores, mas não deixou rastro. Então, há uma evolução que está se esboçando, mas não sei se ela vai se consolidar. Por outro lado, com a entrada da Globo Filmes, houve uma consolidação no setor de comédia, que sempre foi muito forte no Brasil. São filmes com grande aceitação popular, fazem de 3 milhões a 4 milhões de espectadores, mas não são filmes que a gente aceita. É uma coisa ligada à desigualdade não só econômica, mas de educação. As coisas parecem estar resolvidas nesse filão, mas em geral não gosto desses filmes.

Você vê algum mérito nessas comédias, além de atrair espectadores para ver filmes nacionais?

Alguns filmes podem ser salvos pelo ator. O Selton Mello fez A mulher invisível (2009, de Cláudio Torres), por exemplo. Hoje, dou muito mais valor a um filme desses pela presença do ator. Olha como tudo vai degenerando. De modo geral, acho todos muito chatos, não tenho a menor paciência para vê-los do começo ao fim. Dito isso, você tem um núcleo interessante de comediantes no Porta dos Fundos. Mesmo quando faz um filme fraco, como o Fábio Porchat em Meu passado me condena (de Júlia Rezende, teve dois títulos lançados em 2013 e 2015), que não tem uma ideia visual, nada, mas o cara segura a história. Eles (os integrantes do Porta dos Fundos) são bons, não são vulgares. Mas esse pessoal, como o Leandro Hassum, que acho até talentoso; Ingrid Guimarães, que acho horrível, sem graça; e aquele cara do Minha mãe é uma peça (Paulo Gustavo), faz filmes muito ruins. Não sei por que as pessoas vão vê-los.

As comédias nacionais não têm relação alguma com as chanchadas?

Poxa vida, nas chanchadas você tinha grandes cineastas: Carlos Manga, Watson Macedo. Mesmo depois, quando vira pornochanchada, ela vai formar meia dúzia de caras interessantes. Pode ser que vá ocorrer o mesmo agora, mas ainda não vi isso. Chanchadas eram filmes inteligentes, embora precários. Aqui é o contrário. Você tem uma produção bem razoável, de R$ 4 milhões a R$ 5 milhões, mas, até onde vejo, não há ideia nenhuma. Nesse sentido, as comédias são o inverso da chanchada.

Atualmente, já se vê uma segunda geração de realizadores desde a retomada?

Onde você tem maior continuidade é em Pernambuco. Lá percebo duas gerações: uma do Lírio Ferreira, Paulo Caldas e Cláudio Assis, e depois uma mais recente, do Kleber Mendonça. O que vejo de mais interessante é como isso se espalha. O que começou em Pernambuco se tornou uma coisa mais vasta. Em São Paulo, você encontra a turma do (coletivo) Filmes do Caixote; no Rio, aquele túmulo dominado pelo cinema comercial, tem o cara do Casa grande (Fellipe Barbosa); em Minas o pessoal da Filmes de Plástico. O problema é que, na maioria, são filmes que ninguém vê. A Mostra de Tiradentes colaborou muito para chamar a atenção para esses filmes. Enfim, entre mortos e feridos, tenho a impressão de que finalmente há uma compreensão daquilo que existia na minha geração. De que, para fazer cinema, você tem que conhecer cinema, não adianta só pegar na câmera, isso qualquer um pega. A questão é outra: uma ideia, um conhecimento, uma cultura.

Na imprensa, os críticos vêm perdendo espaço já há vários anos. Como você vê a questão da crítica de cinema no Brasil?

A partir de um determinado momento, ocorreu uma situação de acriticismo. E isso vale tanto para o cinema quanto para a literatura. Tudo perdeu espaço, o que era assunto público foi jogado para a universidade e virou tema da academia. Isso é uma coisa programada dos EUA, de Hollywood, para que a história não pese, pois a partir de determinado momento precisou haver a entronização do presente. O Oscar é muito sintomático disso. Acabaram com aquela homenagem aos cineastas antigos, o “Oscar pé na cova”, um momento importantíssimo. Posso até estar enganado, mas é um sintoma. Agora a internet mostrou que os críticos existiam e existem. Tem o pessoal da Contracampo, Cinética, Cinequanon, revistas da internet que responderam muito bem à questão crítica.

Hoje, qual é o poder de uma crítica?

Se você pegar um filme do Spielberg, um Vingadores ou um do Hassum e esculhambar, isso não vai mudar 10 espectadores, alterar nem R$ 1 mil de bilheteria. Isso não é de agora, mas desde sempre. Agora, se há uma espécie de unanimidade sobre um filme pequeno, ela pode proporcionar o lançamento (comercial). O tipo de repercussão que se criou em torno da Mostra de Tiradentes ajudou vários filmes a serem lançados.

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