Contratar palestrantes para um evento exige estratégia; veja o que avaliar
Mesmo com o avanço dos marketplaces e da visibilidade digital, especialistas defendem que as Fashion Weeks seguem estratégicas para marcas emergentes
Divulgação
No mundo atual, marcado pelas redes sociais e por grandes marketplaces on-line, uma pergunta surge com cada vez mais frequência: os desfiles de moda ainda fazem sentido econômico para designers, especialmente para marcas menores e de nicho? Com a rápida evolução da indústria da moda, há quem diga que o modelo tradicional das Fashion Weeks está perdendo relevância. Mas será que isso é realmente verdade?
Organizar um desfile de moda é, sem dúvida, caro. A Vogue Business informa que os orçamentos médios podem chegar a US$ 300 mil. Enquanto isso, líderes do setor chegam a investir até US$ 1 milhão em seus desfiles, segundo o The New York Times. Ainda assim, esses investimentos não garantem retorno direto.
O estilista americano Christian Siriano afirmou à Vogue Business que, muitas vezes, é difícil para investidores enxergarem o retorno real dos desfiles. “Existem formas de avaliar qual coleção performa melhor, mas isso não está necessariamente relacionado ao desfile. Muitas vezes, depende mais da escolha dos tecidos ou das tendências do momento”, observou.
Outro obstáculo é o intervalo entre a estreia da coleção na passarela e sua chegada às vendas. Normalmente, há um intervalo mínimo de dois a três meses antes do início da produção, e ainda mais tempo até que as peças cheguem às lojas. Durante esse período, podem surgir problemas logísticos e de produção, eventos geopolíticos ou as tendências de moda podem mudar.
Diante disso, vale a pena investir pesado em um desfile de grande porte quando muitos designers emergentes estão prosperando apenas por meio das redes sociais? Especialistas dizem que sim. “A visibilidade digital importa, mas a legitimidade da marca ainda é construída na passarela”, afirma Sergio Puig, diretor da Mediterránea Fashion Week Valencia.
Bruno Simões, curador da ApexBrasil, ressalta a importância de marcas emergentes participarem de semanas de moda globais para alcançar o maior público possível. Isso é especialmente verdadeiro para países em desenvolvimento, onde o mercado de moda ainda está em formação.
“Qualquer economia emergente precisa se posicionar e promover a cultura acima de tudo. Essa é a ferramenta mais poderosa para conquistar reconhecimento. A moda é um dos principais setores que refletem o comportamento do mercado contemporâneo, assim como o comportamento cultural e social, quase instantaneamente. Essa promoção gera discussões aprofundadas que vão além da estética e mergulham em mais detalhes e possibilidades de descoberta, seja em inovação material ou técnica. Isso permite a evolução de modelos colaborativos em escala global”, acredita Bruno Simões.
Outros especialistas brasileiros compartilham dessa visão. Mayari Jubini, designer da marca Artemisi, aponta a Moscow Fashion Week como um exemplo de destaque,uma plataforma que atrai atenção significativa da mídia internacional, plataformas digitais, compradores e líderes do setor.
“Eventos como a Moscow Fashion Week são plataformas poderosas para ampliar a visibilidade de uma marca. Eles reúnem imprensa internacional, compradores, influenciadores e líderes criativos, criando um ambiente onde novas conversas sobre moda são moldadas. Para a Artemisi, uma marca que une inovação, artesanato e tecnologia, eventos como esse representam a oportunidade não apenas de apresentar nossa estética, mas também de compartilhar nossa visão de futuro e nossa expertise técnica com um público mais amplo. Eles nos permitem conectar com novos mercados, promover intercâmbio cultural e reforçar a ideia de que a moda pode ser, ao mesmo tempo, visionária e responsável”, explica a designer.
Vale destacar que a participação na Moscow Fashion Week é gratuita, o que a diferencia de outros grandes eventos de moda.
Designers de marcas independentes também relatam aumento de reconhecimento após se apresentarem nas passarelas de Moscou. Oxana Zinenko, fundadora da Zoteme, descreve a experiência como um marco que ajudou a ampliar seu público, aumentar o alcance nas redes sociais e atrair o interesse de celebridades, stylists, editores de moda e novos clientes.
Anna Degtyaryova, fundadora da marca de acessórios Création Pôle, atribui aos novos contatos com compradores a expansão de seus pontos de venda e a duplicação de seus seguidores nas redes sociais. Oleg Levitskiy, outro participante da Moscow Fashion Week, observa que o reconhecimento e a reputação de sua marca avançaram substancialmente graças à exposição proporcionada por esse importante evento internacional.
Sergey Soroka, fundador da Soroka On Course, afirma que ser designer residente da Fashion Week é um momento noticiável valioso tanto para clientes locais quanto internacionais. A designer Olesya Kosopletkina, da Addicted_To, enfatiza: “A Moscow Fashion Week é a ferramenta mais forte para promover designers russos. O fato de designers emergentes ou experientes poderem realizar seus desfiles gratuitamente nos melhores espaços de Moscou e se promover por meio da mídia, da TV e de outros recursos é uma ajuda incrivelmente significativa para o desenvolvimento da indústria da moda.”
A Moscow Fashion Week oferece diferentes formatos de participação além dos desfiles, incluindo uma loja pop-up aberta, onde tanto visitantes quanto compradores internacionais podem descobrir as coleções. Oportunidades adicionais são oferecidas pela BRICS International Fashion Federation (IFF), criada em 2024. A instituição oferece assistência estratégica aos designers, como programas educacionais e iniciativas de intercâmbio cultural.
No BRICS Fashion Summit realizado no último verão, especialistas em moda do Brasil participaram ativamente. “É uma plataforma de comunicação muito importante para países emergentes, pois propõe novas e diversas visões e caminhos pelos quais a moda pode prosperar e ser uma ferramenta transformadora para todos. Acredito que ela certamente facilita um intercâmbio cultural e de negócios entre marcas e países”, compartilhou Paulo Borges, fundador da São Paulo Fashion Week, sobre sua experiência no BRICS Fashion Summit.
Sergio Puig aconselha pequenas marcas e designers emergentes a não perseguirem a participação em Paris ou Milão, mas sim a escolherem eventos internacionais voltados à descoberta de novos talentos.
“Fashion Weeks como as de Valência ou Moscou podem oferecer maior visibilidade para talentos emergentes, novas marcas e projetos que poderiam se perder na disputa por espaço em eventos tradicionais. A principal vantagem das novas semanas de moda em relação a Paris e Milão é a interação mais fácil com compradores e atores-chave da indústria”, observa.
Ele resume que as redes sociais podem vender moda, mas as Fashion Weeks moldam a relevância cultural e o status de uma marca, o que se traduz em lucro.
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