Herpes labial e genital: o que há de novo na medicina para o tratamento?

Saiba mais sobre o vírus que está presente em cerca de 90% da população e como ele pode impactar a vida das pessoas quando não diagnosticado

Estima-se que 90% da população carrega o vírus da herpes simples Freepik
clock 10/08/2023 14:09
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O herpes simples é uma doença causada por um vírus muito comum no mundo. 
Estima-se que até 90% das pessoas podem carregá-lo, em uma forma latente, embora apenas uma pequena parcela dessas pessoas manifeste a doença, que mais comumente ocorre na forma de pequenas bolhas agrupadas nos lábios ou na região genital, mas podem ocorrer em qualquer parte do corpo.

Dra Alessandra Drummond, CRM 52.89443, dermatologista na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, explica que, em geral, já na infância entramos em contato com o vírus, que é transmitido pela saliva e fica em latência nos gânglios neurais. 

“-Em algumas pessoas, ele nunca irá se manifestar, porém outras podem ter diversas crises ao ano.” Explica a médica, que complementa “Hoje falamos muito no controle do vírus, reduzindo número e gravidade das crises, porém existem várias pesquisas em andamento e o grande avanço nessa área seria realmente eliminar o vírus que fica ali em latência, adormecido nos gânglios neurais. Se conseguirmos chegar nesse ponto, podemos falar na possibilidade de cura do herpes e não apenas controle.”

Abaixo, Dr. André Aguiar Gauderer - CRM 52.779792, alergista no Rio de Janeiro, responde às principais dúvidas sobre herpes labial e genital, em entrevista à Bruna Bozano. Confira!

Entrevista do Dr. André Aguiar Gauderer


Bruna Bozano: O que temos de novo na área de tratamento para herpes?
Dr. André A. Gauderer: Muitas descobertas a respeito de novos tratamentos e vacinas para herpes ainda estão na fase experimental, mas existem alguns bastante promissores.

Recentemente, demonstrou-se benefício de uma medicação chamada Valpromida, um derivado do Ácido Valpróico, que comumente é utilizada para tratar enxaqueca. 

Sabemos que infelizmente existem algumas pessoas que são resistentes aos antivirais e precisamos ir atrás de outras formas de tratamento.

Bruna Bozano: E as vacinas? 
Dr. André A. Gauderer: Aqui existe um pouco de confusão. Temos um tratamento chamado
Imunoterapia, feita com alergista/imunologista, para tentar reduzir o número de crises.

O problema é que tem uma eficácia apenas parcial, então só indicamos para os pacientes que já fizeram de tudo e nada adiantou, assim seria mais uma tentativa e alguns relatam melhora do número de crises.

A imunoterapia é um tratamento usado para estimular o sistema imunológico do paciente, fazendo com que o corpo da própria pessoa tenha maior capacidade para combater infecções. Existem comprovações de eficácia principalmente para rinite, mas para herpes e candidíase, seria apenas uma tentativa.

Outra confusão é em relação à nova vacina para Herpes Zoster. É uma vacina altamente eficaz, mas são doenças diferentes.

A vacina para herpes zoster deve ser um opção para todos os pacientes acima de 50 anos e para pessoas que apresentem algum grau de imunocomprometimento. Mas ela não apresentará nenhum efeito em relação ao herpes simples.

A boa notícia é que existe uma vacina em estudo com resultados bastante promissores. Já foi iniciado a fase 1 em seres humanos e os resultados em camundongos deixaram os cientistas entusiasmados. 

É uma vacina com tecnologia de RNA mensageiro, a mesma usada para as vacinas de Covid-19. Os dados vêm mostrando que essa vacina pode ser útil tanto para prevenção, ou seja, para quem nunca teve lesão de herpes, quanto para quem já manifesta o herpes, ou seja, uma vacina tanto profilática quanto terapêutica.

Claro que ainda não podemos comemorar, porque várias coisas precisam ser avaliadas ainda nos estudos, que vão evoluir para fase 2 e fase 3. Acredito que podemos ter esperança para uma grande novidade nos próximos anos.

Bruna Bozano: Devemos realmente nos preocupar tanto com o vírus do Herpes?
Dr. André A. Gauderer:  Muitas pessoas acham que é uma doença simples e comum e que acaba surgindo e indo embora sozinha. Porém, além de impactar muito a qualidade de vida de quem tem diversas crises ao ano, o mesmo vírus que causa bolhas nos lábios pode também causar doenças mais sérias, como paralisia facial, herpes neonatal, ceratite herpética, encefalite herpética.

Bruna Bozano: Isso quer dizer que o herpes labial ou genital pode evoluir para esses quadros mais graves?
Dr. André A. Gauderer: Não. Não é isso que estou dizendo. O que ocorre é que aquele vírus que não para de se espalhar porque seu tratamento é banalizado, e fica adormecido no organismo, pode em casos mais raros desencadear essas doenças mais graves. Isso pode ocorrer em quem já teve diversas crises de herpes simples ou em quem nunca manifestou nenhuma crise sequer.

Então, tratar o herpes é, além de uma medida individual, uma medida coletiva. Queremos é
claro melhorar a qualidade de vida de quem tem crises repetidas, mas precisamos focar mais ainda em reduzir transmissão e circulação do vírus.

Bruna Bozano: Como conseguimos tratar de forma eficaz as crises de Herpes Simples?
Dr. André A. Gauderer: Nada em relação ao Herpes é 100% comprovado, mas acreditamos que ao usar antiviral oral em cada crise, conseguimos reduzir a multiplicação viral. Com menos vírus nos gânglios neurais, provavelmente conseguiríamos reduzir o número de crises e também a transmissão para outras pessoas.

Bruna Bozano: Por que tratar o herpes labial ou de outras partes do corpo?
Dr. André A. Gauderer: O que mais vejo na prática diária são pessoas tratando as crises erradamente, ou simplesmente, não tratando.

Pela lógica popular, se elas desaparecem sozinhas em até uma semana, seria realmente necessário tratar?

A resposta aqui precisa ser enfática: SIM!!!

Acreditamos que o tratamento atua reduzindo a multiplicação do vírus, e com isso, a
intensidade, duração e frequência das crises. Além, também, de reduzir sua transmissão.

A cada crise, quando o vírus sai do gânglio neural e vai para a pele, uma nova fase de
multiplicação de vírus se inicia.

Depois dessa quantidade extra de vírus gerada, volta para ficar em latência no gânglio neural, como se estivessem “dormindo” esperando a chance de uma nova crise.

Uma crise não tratada pode cada vez gerar uma maior quantidade de vírus e, assim, novas
crises ficam mais prováveis de ocorrer.

Se a cada crise, a medicação correta for administrada, menos vírus sobrarão ali armazenados, e assim, cada vez mais as crises vão se espaçando.

Quando surgirem, tendem a ser mais brandas e talvez menos transmissíveis.

Bruna Bozano: Como é o tratamento do herpes simples?
Dr. André A. Gauderer:  Eu sei que o uso de pomadas antivirais é prático e é o mais adotado pela maioria das pessoas.

É claro que as pomadas vão ajudar a cicatrizar as lesões e reduzir a duração daquela crise.

Mas não falei que estamos também preocupados com crises frequentes, com recidivas, com qualidade de vida e com a circulação do vírus entre as pessoas? Por isso, precisamos associar o que temos hoje em mãos, que são os antivirais orais. Precisamos nos acostumar a tratar herpes labial ou genital com comprimidos, porque até onde sabemos, eles podem apresentar efeito na redução da multiplicação do vírus.

As moléculas do medicamento devem chegar no interior de células da pele e de nervos, pois esse é o local onde cada partícula viral está sendo construída.

Somente um tratamento antiviral por via oral, com absorção intestinal e cujas moléculas
viabilizem sua chegada nas lesões através da corrente sanguínea, apresentará efeito nessa
cadeia de replicação.

Uma pomada de Aciclovir não é capaz de penetrar no local.

Isso não quer dizer que seja necessário abandonar o uso das pomadas, mas pense nelas
como uma forma de encurtar aquela crise e nos antivirais orais, como uma forma de encurtar crises futuras.

O tratamento tópico pode, então, ser indicado, mas sempre associado aos comprimidos.

Bruna Bozano: Que medicações são utilizadas para tratar e como usá-las?
Dr. André A. Gauderer: A medicação oral deve ser iniciada logo aos primeiros sintomas. Sua eficácia é maior quanto mais precoce for iniciada. No período de crostas, quando as bolhas já estouraram, pode não trazer mais grande vantagem.

Os antivirais orais que temos são: Aciclovir, Valaciclovir e Fanciclovir. Todos eles são eficazes.

O Aciclovir possui a vantagem em relação ao preço, pois é acessível para a maioria das
pessoas e usado na saúde pública.

O Valaciclovir, apesar de mais caro, é uma evolução do Aciclovir.

O mecanismo de ação é o mesmo, porém, a concentração do Valaciclovir que consegue chegar até o plasma depois da ingestão oral, é bem maior, garantindo uma maior eficácia.

O Fanciclovir é semelhante ao Valaciclovir em sua eficácia.

Em geral, na saúde privada, opta-se pelo Valaciclovir ou Fanciclovir.

A forma de administração também é mais simples com esses dois últimos, sendo menos
provável de se esquecer doses.

O tempo de tratamento e a dose devem ser decididos com o médico, pois pode ser variável.

O tratamento, mesmo oral, não impede que a pessoa tenha novas crises. Assim como todas as outras formas de abordagem, é mais uma tentativa usada a nosso favor.

Além dos tratamentos, é necessário manter sempre o local limpo, utilizando de preferência
lenços descartáveis. A cada bolha que se romper, é indicado secar bem a área toda ao redor, evitando contaminação por autoinoculação. Significa que o líquido que sai da bolha, quando entrar em contato com a pele, pode fazer surgir uma nova bolha.

Bruna Bozano: Existem fatores que podem desencadear uma crise de herpes?
Dr. André A. Gauderer: Vários fatores podem ser o gatilho de uma crise herpética, mas o porquê de desencadearem apenas em algumas pessoas, ainda não sabemos. 

As pessoas já associam bastante o estresse e a exposição ao sol como gatilhos importantes de crises. Mas existem outros fatores que também devem estar associados, como: alterações hormonais, queda da imunidade, infecções virais, inclusive gripes e resfriados. Sempre que possível, deve-se evitar esses gatilhos. Para garantir uma boa imunidade, o indicado é uma dieta saudável, associada a atividade física regular e boa rotina de sono.

Bruna Bozano: Como prevenir crises de herpes?
Dr. André A. Gauderer: Já falamos sobre os fatores que podem desencadear uma crise. Então, sempre que possível, deve-se evitá-los.

Uma dica importante que dou para quem costuma ter crises de herpes é fazer o tratamento de prevenção em certas situações como: viagens com muita exposição ao sol ou durante o verão, noivas e noivos perto da data do casamento.

Sempre pergunto aos meus pacientes se costumam ter crises de herpes antes dos
procedimentos a laser que geram mais dano à pele ou antes de preenchimento labial. Nesses pacientes que apresentam uma história prévia, é mandatório iniciar uma profilaxia com antiviral idealmente 1 dia antes do procedimento. Mas quase sempre indico a profilaxia mesmo para quem nunca teve crise, porque aquela lesão provocada pelo procedimento pode ser um gatilho.

Bruna Bozano: Já falamos de como tratamos o herpes, mas que medicações podemos usar para prevenir as crises?
Dr. André A. Gauderer: Para quem tem crises com muita frequência, podemos fazer um tratamento a longo prazo, com Aciclovir ou Valaciclovir em baixas doses e também a suplementação de um aminoácido chamado L-Lisina.

Estudos recentes começaram a falar sobre dois aminoácidos: Arginina e Lisina. 

Segundo as pesquisas, os dois aminoácidos estão presentes na nossa alimentação e para o herpes, o excesso de arginina faria mal e o excesso de Lisina faria bem. Então, uma forma de tentar prevenir crises é através da alimentação e da suplementação de Lisina.

É importante ficar atento a dieta quando estiver suplementando Lisina. O que queremos é um balanço positivo: mais Lisina que Arginina. Se você toma suplementos de Lisina mas come muitos alimentos ricos em Arginina, talvez não esteja conseguindo deixar positivo esse balanço.

Dentre a lista dos alimentos ricos em Arginina, temos: chocolate e castanhas. Vale a pena uma consulta com nutricionista para uma avaliação mais completa. Lembrando que a arginina não faz mal à saúde, ela apenas tem sido associada a crises de herpes simples.
Antivirais orais e L-lisina podem ser utilizados como tratamento e também como prevenção ao herpes e em geral indicamos para pessoas que apresentam mais de 6 crises ao ano.

A Lisina pode ser utilizada por longos períodos e é bastante segura, com poucos efeitos
colaterais. Mesmo no tratamento de uma crise, pode ser interessante associar um antiviral
como Aciclovir ou Valaciclovir, com a Lisina. A dose é variável, em geral entre 500mg e 3000mg ao dia. Ela parece estar associada tanto à redução do número de crises, quanto à redução da intensidade.

Vimos então que a forma de abordar e tratar o herpes não é tão simples como antigamente. 

É necessário que se entenda a importância de fazer sempre tratamento oral, evitar os fatores que podem desencadear, atentar para a dieta e se necessário, acrescentar tratamento preventivo.

Considero que podemos ficar otimistas em relação ao caminho que estamos percorrendo e,
talvez, daqui a alguns anos muito do que conhecemos sobre o vírus será atualizado. 

Enquanto isso, vamos fazendo o que já temos ao nosso alcance para aliviar as crises recorrentes e não banalizar a circulação do vírus, pois como mencionei, é um vírus com capacidade também para desencadear doenças mais graves.
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