Quebrada Queer desafia o preconceito com rap de temática LGBT

Grupo paulista lança 'Ser', EP de estreia que se destaca no YouTube

por Débora Anunciação* 02/12/2018 06:00
Cristiano Rolemberg/Divulgação
Formado por seis jovens da periferia paulista, o grupo tem muitos fãs em BH e pretende fazer show em breve (foto: Cristiano Rolemberg/Divulgação)


“Nós tá aqui por cada bicha com a vida interrompida/ Por causa de homofobia, ódio e intolerância/ Resistimos no dia a dia/ Pra poder chegar o dia que prevaleça respeito, igualdade e esperança.” As letras politizadas do grupo paulista de rap Quebrada Queer destacam a importância da presença LGBT no meio artístico para o combate ao preconceito. Formado no fim de 2017 pelos MCs Guigo, Harlley, Lucas Boombeat, Murillo Zyess, Tchelo Gomez e pela produtora e DJ Apuke, o coletivo é o primeiro da América Latina a produzir rap com temática explicitamente LGBT. Para Guigo, ser pioneiro reflete a lgbtfobia e o machismo enraizados na sociedade brasileira. “É estranho que um estilo tão antigo no país nunca ter se pronunciado nesse sentido. Ainda mais o rap, conhecido por pregar respeito e amor”, diz.

Ser, primeiro EP do grupo, está disponível nas principais plataformas digitais. Empoderamento negro, periférico e queer são temas constantes nas rimas do grupo. A primeira cypher (rap criado e executado coletivamente), publicada no começo deste ano pelo canal RapBox, no YouTube, alcançou mais de 2 milhões de visualizações na plataforma. O resultado positivo bate de frente com o preconceito. Horas após o lançamento do vídeo, Guigo recebeu diversas ameaças de morte. “Estamos vivendo algo tão bom, mas, ao mesmo tempo, rola um medo porque a gente passa na rua sem saber quem essas pessoas são. O perigo se tornou iminente”, conta.

Cada faixa do disco remete a histórias vivenciadas diariamente por milhares de jovens LGBTs no país. Em Quem, a música mais densa, os rappers avaliam o início dos questionamentos no ambiente familiar. As influências de trap e dubstep de Tempo (Hold up) evidenciam a liberdade daqueles que saem de casa e são acolhidos na rua, longe de julgamentos. Sem terror, parceria com a drag queen Gloria Groove, aborda diferentes formas de amor. As raízes do racismo são discutidas na letra de Arruda, com participação do rapper Hiran. Pra quem duvidou finaliza o ciclo com uma redenção. Inteiramente digital, cada música terá um minivideoclipe próprio. “Nos últimos anos, quem tem carregado o rap nas costas são as bichas e as mulheres. As mulheres abriram caminho nesse espaço que sempre foi muito fechado, e talvez sem elas nós não conseguiríamos fazer o que temos feito”, aponta.

RAP 
Guigo revela que não escutava rap até a chegada da cantora Karol Conka à cena. “O rap nunca falou comigo ou pra mim. Criou uma ferida histórica na comunidade, porque nunca nos vimos representados, e sempre minimizados”, observa. Se ser queer fora dos palcos é complicado, em cima deles também. “Não podem nos criticar pela qualidade, então se apegam a outros adjetivos para invalidar nosso trampo. Dizem ‘ah o som é bom, mas não precisava da imagem assim’ ou ‘estão querendo chocar.’” A incoerência das críticas incomoda, tendo em vista a função do rap de denunciar temas invisibilizados. “Isso é homofobia”, conclui.

Recentemente, o grupo foi vetado de participar na categoria de rap em um festival e os integrantes precisaram ser realocados para o setor pop do evento. “Quando as pessoas perguntam sobre o preconceito, sempre questiono: ‘Quantos LGBTs você vê num line up de festival ou em evento de rap?’. Mas nem sempre o estranhamento é preconceito, às vezes é falta de informação”, comenta o compositor.

“Ninguém me da voz/ Eu já tenho voz/ Somos um só/ vocês que dividiram.” A poesia de Lucas Boombeat é pontual e avisa: artistas LGBT já têm voz, agora precisam de oportunidades. “Ainda hoje, o gay só é colocado na mídia para gerar polêmica ou para ser piada, nunca para ter um trabalho reverenciado”, analisa Guigo. Para ele, no contexto político atual é essencial não temer. “É natural que, quando uma frente conservadora avança, tentam nos colocar debaixo do tapete de novo, mas não podemos ter medo. Sempre tivemos dificuldades. Diversas travestis são assassinadas todos os dias, e isso não vai deixar de acontecer, e nem ocorrer mais porque ele (Bolsonaro) está na Presidência. Só se demonstrarmos medo. Está todo mundo junto”, reconhece. De acordo com Guigo, grande parte dos fãs do grupo é de Belo Horizonte e visitar a capital está nos planos. Um documentário com os bastidores da produção do EP será lançado no próximo ano. * Estagiária sob supervisão do subeditor Pablo Pires Fernandes

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