Espetáculos de artistas mineiras resgatam a obra de Elis Regina

Homenagens não são só ao talento, mas também à personalidade da Pimentinha, que levantou pautas femininas e criticou a ditadura militar no Brasil

por Walter Felix 31/08/2018 08:00

Dila Puccini/Divulgação
'Quis misturar coisas minhas e dela, resolvi fazer uma brincadeira com o público', diz Maria Tereza Costa (foto: Dila Puccini/Divulgação)
Elis Regina (1945-1982) ainda prende, inebria, entontece. Tal qual os versos de uma de suas interpretações mais marcantes, a cantora segue fascinando, como comprovam os diversos tributos dedicados à Pimentinha na agenda musical de Belo Horizonte. Entre julho e agosto, pelo menos três espetáculos revisitaram, com variadas propostas, o repertório dessa artista que deixou sua marca de personalidade e talento na música brasileira.

 

Nesta sexta (31), é a vez de a atriz e cantora Maria Tereza Costa subir ao palco em Sem medo de ser Elis. O espetáculo perpassa toda a trajetória da gaúcha, contemplando a pluralidade de seu repertório, seus posicionamentos políticos e a vida pessoal. “Não é uma biografia, trato do discurso da Elis. Ela é uma mulher com vida e discurso extremamente atuais. Ao longo do espetáculo, faço uma ponte com coisas por que ela passou e que se aplicam, hoje, à minha vida e à minha profissão”, afirma a mineira de Campos Altos, radicada em BH. O desejo de brilhar como cantora fez Elis sair de Porto Alegre, onde nasceu, e tentar a vida no Rio de Janeiro, onde se tornou um dos nomes fundadores da MPB.

“O espetáculo tem estrutura bem costurada, dividida em blocos, onde falo sobre o ser artista, o ser mulher e o ser cidadã”, diz Maria Tereza. O quarto e último ato é aquele em que ela cumpre o desafio de interpretar clássicos como Madalena, O bêbado e a equilibrista e Como nossos pais. Ainda que não seja o maior objetivo de Maria Tereza, os espectadores poderão notar em sua performance gestos e uma entonação vocal que remetem a Elis, mas sem a intenção de imitá-la. “Quis misturar coisas minhas e dela. Resolvi fazer uma brincadeira com o público, que poderá ficar em dúvida se certos elementos são meus ou da Elis”, conta.

Maria Tereza diz que as razões que a levaram a compor um tributo a Elis são as mesmas que fazem a Pimentinha ser saudada por tantos artistas, mesmo 36 anos após sua morte. “Elis foi uma mulher inspiradora, por sua força, posicionamento e veracidade. Foi muito ativa como artista e cantora, mas também como mãe. Era uma mulher muito completa e, ao mesmo tempo, muito humana.”


Vanusa Campos/Divulgação
'Elis teve uma carreira-relâmpago, que ecoa no tempo. E, também por isso, deixou muita sede', afirma Isabela Morais (foto: Vanusa Campos/Divulgação)
ESSA MULHER Segundo Isabela Morais – que apresentou o show De coisas que aprendi com Elis no Cine Theatro Brasil, no mês passado –, o apelo emocional junto ao público justifica a infinidade de tributos dedicados à intérprete. “Elis teve uma carreira-relâmpago, que ecoa no tempo. E, também por isso, deixou muita sede. Eu mesma não assisti à Elis – nasci depois de sua morte”, diz a cantora, natural de Três Pontas.

O título de seu espetáculo não é apenas uma alusão aos versos de Como nossos pais, mas fala também da importância de Elis Regina como a primeira referência artística para Isabela. Ela leva aos palcos sua história de aprendizado e admiração pela musa, que teve início ainda na infância. “Ainda hoje, sigo aprendendo coisas com Elis, como a entrega no palco, o estar sob os holofotes e o entendimento de que cada momento de um show é único e é preciso estar sempre entregue”, afirma.

A homenagem se estende ao cenário e ao figurino do espetáculo, que fazem referência à estética do disco Elis, essa mulher (1979) e aos trajes usados pela cantora no Festival de Montreaux, no mesmo ano. Isabela não se limita a imitar trejeitos – como o balançar dos braços, que rendeu a Elis o apelido de Hélice Regina. “Busco a expressividade da Elis, sem me preocupar em ficar parecida. Procuro remeter à interpretação, porque, se eu me preocupasse em imitá-la, não levaria a minha verdade ao palco e falharia com aquilo que Elis tinha de melhor”, afirma a cantora.

 

 

Isabela ressalta a força de Elis, usada, além da performance visceral, para questionar costumes e a política de sua época. Elis criticou a ditadura militar no Brasil para a imprensa estrangeira, gravou letras cheias de analogias e subtexto e a canção que veio a se tornar o hino da anistia, O bêbado e a equilibrista.

Em seu set list, Isabela fez questão de incluir Mestre sala dos mares, gravada na década de 1970, mas que ainda retrata as contradições brasileiras. “Por ter um repertório tão rico, é gratificante e delicioso para um intérprete reviver essas canções. É também muito desafiador, o que torna a experiência ainda melhor.”

De coisas que aprendi com Elis fará turnê pelo interior de Minas. O show desembarca em Itabira no final de outubro e parte para Capitólio e Varginha em novembro.

Frank Bittencourt/Divulgação
Malvina Lacerda e Carol Serdeira homenageiam Elis na primeira turnê do show 'Redescobrir' (foto: Frank Bittencourt/Divulgação)
REDESCOBRIR “Elis é uma dessas artistas que nunca vão morrer, por ser quem era e pelas bandeiras que carregava. Não era só a competência – que ela tinha –, mas aquela alegria, força e energia não se vê em mais ninguém. Era um fenômeno da natureza e por isso continua reverberando até hoje”, avalia a cantora Carol Serdeira, que, ao lado de Malvina Lacerda, interpreta o repertório de Elis no show Redescobrir.

A cada temporada desse projeto elas pretendem homenagear músicos que foram referências na formação de cada uma. “Nosso desejo era começar com algum artista que compartilhasse daquilo que nós acreditamos. E a Elis é uma mulher que representa absolutamente tudo. Ela falava de coisas politicamente importantes, como aborto e feminismo, muito antes de esses assuntos se tornarem populares”, afirma Carol.

A apresentação – que leva o nome da canção de Gonzaguinha, famosa na voz de Elis – estreou no início do mês, na programação do Savassi Festival. No palco, elas se distanciam da interpretação da homenageada e apresentam releituras de suas músicas, com direito a novos arranjos. “É uma homenagem com a nossa cara, mas com todo o respeito ao legado que ela deixou. É emocionante poder visitar esse lugar que as pessoas já conhecem, mostrando, com ele, as cantoras que nós somos”, diz Carol.

O repertório selecionado para o show dialoga com a identidade musical da dupla. Além de privilegiar o “lado A” do repertório de Elis, elas escolheram letras mais emotivas, caso de Romaria, composição de Renato Teixeira. Ouça:


“Começamos (o projeto Redescobrir) do melhor e do pior jeito”, brinca Carol. “Por ser uma das maiores cantoras brasileiras, ela tem o repertório mais difícil de se interpretar. Tudo que ela cantava ficou marcado pelo jeito e pela personalidade dela. Elis cantava de tudo, desde samba até uma pegada mais roqueira, e fazia isso tão bem que as pessoas vão ao show querendo ouvir todas as fases da sua carreira.”

O primeiro álbum da dupla já está disponível nas plataformas digitais. Em setembro, elas também iniciam turnê pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais, onde passarão por Viçosa, Juiz de Fora e Diamantina. A temporada deve chegar ao fim no primeiro semestre de 2019, com um segundo show em BH.

SEM MEDO DE SER ELIS
Espetáculo de Maria Tereza Costa. Sexta-feira (31/8), às 20h30, no Teatro Francisco Nunes. Parque Municipal, Av. Afonso Pena, 1.377, Centro. (31) 3277-6325. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), à venda no site sympla.com.br.

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