Conheça as mineiras que interpretam Elza no musical que conta a história da cantora

No espetáculo Elza - O musical, que fala sobre a vida e a trajetória da artista, sete mulheres negras se revezam no papel da diva

por Márcia Maria Cruz 20/06/2018 08:00
Silvana Marques/Divulgação
(foto: Silvana Marques/Divulgação)

Sete são os dias da semana, as cores do arco-íris, as notas musicais. São sete as Elzas. A trajetória da mulher do fim do mundo será contada em Elza – O musical, que estreia em 19 de julho no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro. O elenco é composto por sete atrizes escolhidas em seletiva nacional, sendo três delas mineiras: Júlia Dias, Laís Lacôrte e Janamô passaram por bateria de testes para ser escaladas. “Fico feliz de termos conterrâneas. Mas é elenco com diversidade, temos atrizes da Bahia, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro. Isso é muito rico. Traz vivências e potências que se conectam com a história de Elza. São todas as vivências juntas”, afirma Laís Lacôrte. O musical tem direção-geral de Duda Maia e direção musical de Pedro Luís. O texto é de Vinícius Calderoni.

As artistas são todas mulheres negras, que se identificam com a trajetória de Elza. “Contamos juntas essa história no momento presente, costurando os acontecimentos. É muito legal sermos sete. São sete vidas. Há um simbolismo muito grande”, diz Laís. No entanto, elas também interpretam outras personagens fundamentais à Elza. Janamô completa: “Estamos em cena a maior parte do tempo, faz parte da linguagem do espetáculo. A condução da Duda é para extrairmos o que temos de Elza dentro da nossa personalidade, nossa história dentro do momento do mundo.”

Laís se formou pelo Teatro Universitário e é bacharel em interpretação pela UFMG. Iniciou a carreira no projeto social Cariúnas. No entanto, o gosto pela música vem de casa. “A arte está muito presente na minha vida. Sou filha de músico (Gil da Matta). Meu primeiro contato com arte foi através dele”, afirma. Compositora, Laís é autora da canção Flor linda flor, que abre o espetáculo Madame Satã. Traz para o centro de suas composições o feminino. “Falo da mulher em busca de luz, que desabrocha, que se encontra. Nas letras, falo do meu lugar como mulher no mundo. Tento trazer um olhar que tenha poesia”, afirma.

Janamô começou a carreira cantando forró e hoje se define como cantora de música brasileira com influência da cultura popular. Ela vê proximidades com a trajetória da diva. “Tenho coragem, tenho determinação, histórias de superação. Tenho alegria, tenho tesão.” Como a própria Elza Soares, Janamô também passou pela escola do samba. “Tento não delimitar a minha maneira de sentir a música a partir de um gênero, embora o samba seja fonte inesgotável de pesquisa”, diz. Belo-horizontina, embora more atualmente no Rio, ela ressalta a ligação com a cena negra na capital. “Quanto mais para fora eu vou, mais tenho certeza de que Minas me aprontou para o mundo, é um celeiro de muito talento.”

Compositora, cantora e instrumentista, Júlia Dias é voz expressiva na cena negra belo-horizontina. É atriz da Companhia Burlantins e uma das idealizadoras da Mostra Benjamin de Oliveira. Integra o Coletivo Negras Autoras e ministra aulas de percussão na Associação Cultural Tambor Mineiro. Já integrou os musicais Zumbi, Oratório, Clara Negra, O negro, a flor e o rosário, Madame Satã, Negr.a e Eras. A ligação com a cultura negra vem do DNA. Júlia é filha de Maurício Tizumba com a psicóloga Bia Dias, que faleceu no último dia 14. Júlia fará o musical em homenagem à Elza, às mulheres negras e à mãe. “Não é fácil seguir, depois de perda desse tamanho. Minha mãe fez de mim a mulher que sou. Sonhou todos os meus sonhos. Ao mesmo tempo, estou mais forte. Agora, carrego a força dela dentro de mim. Se estou aqui, devo a ela”, diz.

A narrativa do musical não segue linearidade cronológica, fazendo jus ao fato de Elza se reinventar e projetar futuros. “Quando se trata da história de Elza, não há espaço para nostalgia. A artista sempre repete que o tempo é o agora. Elza não tem idade. É uma figura para qual o tempo é presente. Ela se conecta com tudo e com todos”, diz Janamô.

Ao mesmo tempo em que Elza aponta para o futuro, a trajetória da artista demonstra que as barreiras são superáveis. “Ela é a demonstração de que é possível continuar caminhando e quebrando barreiras. Elza é a possibilidade de um sim. Um sim para a mulher negra. É um sim para a gente. Ela passou por muitas vivências que mulheres negras passam”, diz Laís, destacando o fato de a artista nunca ter se calado. “Generosa, expôs tudo isso. Gritou todas as violências. Nunca se silenciou.Quando se expõe, não fala só por ela. Fala por nós.”

Elza é venerada entre mulheres negras de todas as idades. “Estamos num momento em que os valores estão sendo muito questionados. Então, poder integrar elenco do espetáculo homenageando uma artista negra, que sofreu preconceito devido à sua cor, ofício e gênero, é a oportunidade de sete mulheres negras dizerem o que mudou dos tempos passados, o que segue em frente e como mudar”, completa Janamô.

Júlia aponta o quão simbólico o fato de o espetáculo estrear no Rio de Janeiro, cidade onde foi assassinada, em 15 de março, a vereadora Marielle Franco (1979-2018). “O musical é o símbolo que a luta segue. Lutamos, por meio da nossa arte, por um mundo de paz, dignidade e igualdade de direitos para todos”, diz.

A escolha de três artistas mineiras para compor o elenco foi coincidência. No entanto, vasculhando a biografia da artista, encontra-se razão para a ligação. A mãe de Elza é mineira. “Além de a mãe ser mineira, ela tem relação com Minas. É fã de Marku Ribas (1947-2013) e foi madrinha de Vander Lee (1966-2016)”, afirma.

Três perguntas para Pedro Luís - Diretor musical

Você compôs a canção que dá título ao álbum Deus é mulher. Como foi esse encontro com Elza?

Compus Deus há de ser. Nosso encontro é de bastante tempo. A primeira vez foi em um encontro de gravadoras e artistas, em 1998, em Gramado. Estava todo mundo hospedado no hotel e cruzei com ela no corredor. Foi um encontro muito simpático. Algum tempo depois, a convidei para cantar no CD do Monobloco, em 2002. Foi uma participação gloriosa, com as canções Eu bebo sim, Salve a mocidade e Oba. Ela arrasou. Fomos nos aproximando. Depois, a convidamos para um show do grupo de choro carioca Rabo de Lagartixa. Nos paqueramos nessas décadas. Fui à casa dela. Em um dos shows de A mulher do fim do mundo, fui ao camarim para convidá-la para cantar Deus há de ser comigo. Disse a ela que queria contar um segredo no ouvido e falei: “Deus é mulher”. E ela já disse: “É minha, quero pra mim”. Ela não tinha ouvido a música. É um privilégio ter uma canção batizando o álbum de uma artista tão intensa e de personalidade. A voz artística e política mais importante que temos hoje no Brasil.

Como surgiu a ideia do musical?

É uma proposta do Sarau Agência de Cultura Brasileira, de quem já havia sido parceiro em alguns projetos, como a direção de Gota d’água a seco. Montei uma equipe com a Antonia Adnet. Falaram há muitos anos, dois a três anos, que queriam que eu fizesse a direção do musical da Elza. Estamos supermergulhados. Fizemos uma aproximação com Elza. Afinal, é uma homenageada viva e no esplendor da atividade, aos 87 anos. O Vinícius Calderoni escreve a dramaturgia baseando-se em várias biografias. Nunca tinha trabalhado com a Duda Maia, que tem uma maneira muito própria de construir o espetáculo, na forma como prepara os corpos, algo que vem da dança. Ela trabalhou com a coreógrafa Angel Vianna. É emocionante como prepara os corpos para receber depois o texto. Interessante e instigante. Estamos conversando sobre o vastíssimo repertório da Elza. É um desafio contemplar tudo que é importante na história dela. Estamos bem perto de fechar a playlist: são 26 canções, mas podemos chegar a 30.

Por que sete Elzas?


Decidiu-se faríamos com mulheres por uma questão política e de representatividade. Elza é tão múltipla. Mantivemos personagens importantíssimos na vida dela, que ela disse que era imprescindível estarem na dramaturgia. Mas mesmo esses personagens são contemplados por elas. Temos uma atriz convidada, a Larissa Luz, superartista e ativista. As outras seis foram escolhidas em audição. Foram mais de 150 inscritas. Temos três mineiras – Janamô, Laís e Júlia Dias. A Júlia, eu conheço praticamente de criança. É filha do Tizumba, que é um grande amigo. São todas muito interessantes e muitos diferentes. Outras duas são baianas, a Larissa e a Verônica Bonfim; a Khrystal Saraiva é de Natal; e a Quézia Estácio é carioca. A banda também é formada por seis mulheres.

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