'Política, no Brasil, é sobre o caos', diz Marcelo D2 em entrevista

Exatos 20 anos depois de ser proibido de tocar em BH, Planet Hemp volta à cidade para se apresentar, nesta terça (14), no Hangar 677

por Mariana Peixoto 13/11/2017 10:51

Wilmore Oliveira/Divulgação
(foto: Wilmore Oliveira/Divulgação)
"Justiça proíbe show do Planet Hemp em BH”, noticiou o Estado de Minas em 8 de novembro de 1997. Na reportagem de capa, o jornal destacou que, “pela primeira vez na história de Belo Horizonte, a proibição da apresentação de um grupo de rock nacional mobilizou as polícias Civil e Militar, o Ministério Público e o Judiciário”.

A acusação para o cancelamento do show, na extinta Estação 767, era “apologia ao uso de drogas”. Naquela noite de 7 de novembro, os integrantes da banda, impossibilitados de se apresentar, foram para outra casa noturna, o Studio Bar, para uma festa que Rogério Flausino, do Jota Quest, estava fazendo.

Na madrugada, foram levados para a delegacia de plantão do Departamento de Investigações, na Lagoinha. Detidos por cinco horas, só saíram na manhã seguinte. De lá, a história é conhecida: rumaram para Brasília de ônibus e, chegando à capital federal, foram presos. Foram oito dias na cadeia.

Vinte anos mais tarde, Marcelo D2, cinquentão desde o dia 5 deste mês, acha que o país de 2017 é um pouco melhor do que o de 1997 em relação “à liberdade de expressão”. “Por outro lado, estamos num momento meio parecido ao daquela época. Acho que a política no Brasil se alimenta do medo. ‘Os militares podem voltar ao poder? Então, vamos votar na extrema-esquerda! A esquerda come criancinha? Então, tem que votar no Bolsonaro!’ Política, no Brasil, é sobre o caos”, afirma.

Ao longo das duas últimas décadas, muitos cães ladraram, mas a caravana não parou. Tanto que o Planet Hemp continua na ativa. A banda chega nesta terça (14) a Belo Horizonte, como principal atração dos quatro anos da festa FCK. O evento, a partir das 22h, no Hangar 677, ainda terá shows com o rapper Froid e a banda Lagum.

Diversão “O Planet é hoje o projeto paralelo de todo mundo, um lugar em que a gente vai para se divertir. Fizemos a banda por causa disto e quisemos voltar a tocar (no início dos anos 2000 o grupo anunciou seu fim) também por isso. Não tem nostalgia. Oitenta por cento do nosso público não viu o Planet Hemp antes. E faço show há pelo menos 25 anos. E shows iguais ao do Planet não tem”, afirma D2.

Com BNegão e D2 nos vocais, mais o baterista Pedro Garcia e o baixista Formigão como integrantes oficiais, o Planet de 2017 não é muito diferente daquele que sacudiu a música pop brasileira na década de 1990. “A banda é única, surgiu na época em que o Brasil precisava de alguma coisa. E o país continua precisando daquela explosão”, diz ele.

Tanto que o repertório do show traz músicas dos três álbuns de estúdio do grupo, que tinham como principal tema a legalização da maconha: Usuário (1995), Os cães ladram mas a caravana não para (1997) e A invasão do sagaz homem fumaça (2000). D2 promete alguns covers, e também algumas mexidas em músicas antigas.

O Planet é projeto paralelo desde que ele assumiu sua bem-sucedida carreira solo. Neste ano, está dando um passo além. Depois de fazer a ponte do hip-hop com o samba, ele entrou na seara do jazz.

Estreou, na Europa, o projeto Marcelo D2 & SambaDrive, que só chegou ao Brasil na última semana, com duas apresentações no Blue Note, no Rio de Janeiro. No projeto, ele toca músicas tanto da carreira solo (Qual é? e Maldição do samba) quanto do Planet (Contexto e Mantenha o respeito) com um trio de formato jazzístico – Mauro Berman (baixo), Lourenço Monteiro (bateria) e Pablo Lapidusas (piano).

“Desde moleque, gosto muito de jazz. Tenho, inclusive, uma tatuagem do John Coltrane. E a coisa de o Brasil ter seu próprio jazz, a bossa nova, é algo que sempre me fascinou. A partir de À procura da batida perfeita (segundo álbum solo, de 2003), passei a beber muito na fonte do samba jazz brasileiro: Zimbo Trio, Walter Wanderley, Milton Banana, Azymuth”, conta ele.


Enquanto faz os dois shows – Planet Hemp e SambaDrive – ainda prepara um novo álbum. “Estou me sentindo agora melhor do que aos 40 anos. Voltei a correr, tenho dormido melhor, me sentido mais disposto”, diz D2, pai de quatro e avô de Giovanna.

Hoje, sou um cara mais preocupado com o álcool do que com a maconha. A conversa com meus filhos sempre foi muito aberta. Minha filha de 17 anos parou de fumar maconha quando entrou para a faculdade. Todo o mundo usa droga em algum momento da vida. E só porque o álcool, por exemplo, é legal, não quer dizer que não seja droga. Tem gente que se diz contra e se enche de remédio. O importante nisso tudo é conhecer o seu corpo, seu limite”, afirma.


E quanto à bandeira do Planet, 24 anos depois da criação da banda? “Acho que hoje não é mais uma questão se vão legalizar a maconha, e sim quando irão legalizar”, conclui.

 

FESTA FCK
Shows com Planet Hemp, Froid e Lagum. Terça (14), a partir das 22h, no Hangar 677, Rua Henriqueto Cardinalli, 121, Olhos d'Água. Ingressos: Pista: a partir de R$ 70; Pista premium: a partir de R$ 110. Informações: (31) 98718-6478. Classificação: 18 anos

Imagem Filmes/Divulgacao
D2 (Renato Góes) e Skunk (Ícaro Silva) no filme Legalize já (foto: Imagem Filmes/Divulgacao)

Cinebiografia do Planet

 

Em 1993, dois jovens marginalizados pelo status quo encontram na Lapa, no Rio de Janeiro, o lugar ideal para darem início a uma banda. Rap, rock, música negra faziam a cabeça de Marcelo Maldonaldo Peixoto e Luís Antônio da Silva Machado, os dois amigos-irmãos que fundariam uma das mais influentes bandas daquela década.


Exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, Legalize já, de Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, é uma cinebiografia do Planet Hemp. Em destaque está o início da banda, com Marcelo D2 e Skunk (morto em 1994, vítima da Aids) à frente. O filme, que deve ser lançado no circuito comercial em fevereiro, é estrelado por Renato Góes (D2) e Ícaro Silva (Skunk).


D2 participou ativamente do projeto. Colaborou com o argumento e o roteiro, e fez a trilha com os músicos do SambaDrive. Ver a própria história na tela grande causou impacto em D2. “Mais assustador foi ver o Skunk. O Bernardo (BNegão), que não estava na banda na época da história do filme, tomou um susto quando viu. Para mim foi ver minha saudade transformada em filme”, diz. 

 

Veja a versão de D2 e SambaDrive para 'A maldição do samba'

 

 

 

 

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