''Na época dos punks, eu era boa moça'', diz Cássia Eller em entrevista rara de 1992

Em entrevista a uma rádio de Conceição do Mato Dentro (MG) a cantora, então com 29 anos, falou sobre Brasília, sucesso, inspirações e relação com a gravadora; leia a conversa na íntegra

por Gabriel de Sá 21/06/2015 17:33

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 Déborah Dornelles/Divulgação
(foto: Déborah Dornelles/Divulgação)

Cássia Rejane Eller contava 29 anos de vida naquele setembro de 1992. A idade ''avançada'', contudo, ainda não havia conseguido domar a gigantesca timidez da artista — que nasceu no Rio de Janeiro e iniciou a carreira em Brasília. Cássia havia acabado de lançar o segundo disco, O marginal, quando foi convidada a se apresentar em um festival de música na pequena Conceição do Mato Dentro (MG), cidade a 160km de Belo Horizonte. Apesar de ter morado com os pais na capital do estado no fim da infância, aquela era a primeira vez que a cantora se apresentava sozinha em Minas Gerais.

''Eu sou ruim de falar, mas queria dizer que essa cidade é muito legal. Espero voltar'', disse Cássia em um programa de rádio local no dia seguinte à apresentação. A conversa, conduzida pelo músico Renato Carvalho, foi transmitida à população local em 1992 e permaneceu guardada nos arquivos do entrevistador. Confira aqui a entrevista, na íntegra, com excluisvidade:

''Eu havia ido a Brasília um tempo antes e as pessoas já comentavam dela, dizendo que uma grande cantora da cidade iria estourar em breve. Quando a entrevistei, Cássia estava tocando sem parar com a versão que fez para Por enquanto, do Renato Russo'', recorda-se Renato Carvalho, que hoje integra o grupo de samba Zé da Guiomar. Para fazer a entrevista, Cássia e Renato conversaram bastante, a fim de criarem intimidade e o diálogo fluir mais facilmente. Antes do papo, a artista pediu um café e tratou ela mesma de se servir. Logo depois da conversa, soltou uma gargalhada daquelas e disse: ''P… que pariu, tomei o café porque estava me c… de medo''.

Cássia, como foi o início da sua carreira em Brasília?


Comecei a cantar em 1981 e o primeiro trabalho que eu fiz foi com o Oswaldo Montenegro, um espetáculo musical. Era o 'Veja você Brasília'. Trabalhei com ele dois anos. Fiz o musical 'Cristal', também dele. Cantei em ópera, em teatro e em um trio elétrico chamado Massa Real. Trabalhei em três óperas — inclusive cantei em Belo Horizonte, no Palácio das Artes.

Canto lírico e trio elétrico combinam?

(Risos) não combinam muito, não. Mas é bom, né?! É música. Quanto mais você puder aprender e escutar, é legal.

Cantores e cantoras: quem são suas principais fontes de inspiração?

Os principais são John Lennon e Paul McCartney. Eu comecei a tocar violão aprendendo as músicas dos Beatles. Aprendi a falar e cantar em inglês com as músicas deles. Tem outra cantora, americana, que eu gosto muito, a Nina Simone. No Brasil, tem uma menina nova de São Paulo — quer dizer, não é tão nova, tem a minha idade — que tá cantando há um tempinho, que é a Ná Ozzetti. Ela tem um trabalho fascinante no grupo Rumo.

A década de 1980 em Brasília, em que você fazia canto lírico e cantava no trio elétrico, foi marcada pela efervescência do rock. Você não teve participação nisso?

Não. Nessa época dos punks eu era muito boa moça, era quietinha, na minha. Eu não encontrava com eles, não era amiga. Só encontrava com um cara da Plebe Rude, pois a irmã dele era cantora lírica também (o ''cara'' é Jander Bilaphra, o Ameba; e a cantora, Janette Dornellas). Eu não fazia rock ainda nessa época. Eu tinha um grupo de samba também, e a gente fazia muito carnaval. Comecei no rock lá pra 1986, 1987…

Você se considera uma cantora de rock e de blues?

 

Não (risos). Tem isso de a gente ser brasileiro, que é a coisa que mais pega. É um caldeirão esse negócio aqui. Tem de tudo aqui dentro. Inclusive rock e blues. Não me considero cantora disso, mas dou minhas cacetadas.

A música do primeiro disco que te projetou foi 'Por enquanto', do Renato Russo.

 

Essa música é do primeiro disco da Legião Urbana, de 1985. Eu adoro ela. Conheci e comecei a cantar, tocando ao violão. Meu empresário sugeriu de a gente gravar, fazer uma fita demo. Foi a primeira que eu gravei, descompromissadamente (risos). O empresário mostrou pro cara da gravadora. Eu nem acreditava que ia ganhar alguma coisa com aquilo. As coisas estavam tão difíceis, sabe? O (produtor) Mayrton Bahia ouviu e deu certo.

E para o segundo disco, o recém-lançado 'O marginal', houve a preocupação de reeditar um segundo grande sucesso, como foi Por enquanto para o primeiro?

 

Eles tendem a sempre fazer isso, com todo mundo. É uma empresa, precisam lucrar, ganhar grana. Mas a gente precisa estar sempre prestando atenção, se impor. Não chutando a porta, e sim se dando o devido respeito. Antes de eles pedirem alguma coisa, eu sempre estava com o trabalho na mão. Eu gosto de trabalhar com música, então não deixo para depois. Antes de eles pedirem qualquer coisa, como uma outra Por enquanto, eu já havia escolhido o repertório do disco e mostrei. Eles acharam legal. Você tem que tomar conta do que é seu. Não pode deixar para os outros.

Você tem preferência por alguma música desse disco?

 

Caso você queira saber é dos mineiros Márcio Borges e Beto Guedes, uma música de um disco do Beto, Novelli, Toninho Horta e Danilo Caymmi. Eu acho ela linda e foi a primeira música que a gente escolheu. Tem uma do Itamar (Assumpção) também, Sonhei que viajava com você. Eu tava indo pra Índia ano passado, ganhei uma passagem. Tava toda feliz e satisfeita e acabei não indo porque estava na época de gravar o segundo disco. Eu tinha encomendado uma música pro Itamar e ele demorou mais do que o combinado pra me entregar. Liguei pra ele e disse: ''Pô, cara''; E ele: ''Cássia, sonhei com você, que viajava para o Japão''. E me cantou essa música ao telefone. Ele sonhou mesmo. Acabei não indo. Ficou só na letra.

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