Pat Metheny, perto de completar 60 anos, lança disco que reafirma seu lugar na cena jazzística mundial

Músico tem passagens por BH e ligações com o Clube da Esquina

por Eduardo Tristão Girão 07/05/2014 08:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

Valentin Flanraud/Reuters
(foto: Valentin Flanraud/Reuters)
Perto de completar 60 anos, o guitarrista norte-americano Pat Metheny prova estar em plena forma com o recém-lançado 'Kin' (Nonesuch), disco de estúdio gravado nos Estados Unidos com o grupo que mais tem acompanhado o artista nos últimos anos. Excelente improvisador, compositor criativo e arranjador cada vez mais sofisticado, o artista é, há décadas, uma das referências centrais da guitarra jazzística mundial. Já experimentou de tudo um pouco em seus álbuns e, com isso, ganhou legião de fãs, diversos prêmios (só de Grammy, são cerca de 20), condecorações e indicações em listas.

Não por acaso, já foi incluído em categorias como jazz, jazz fusion, electric jazz, jazz contemporâneo, pop instrumental, rock instrumental e até mesmo new age. Mesmo assim, há uma certeza: seu estilo na guitarra é inconfundível (fraseados, timbres e harmonias) e fez escola pelo mundo, influenciando não apenas quem toca o instrumento, mas intérpretes e compositores em geral. E o que impressiona é que essa personalidade já estava razoavelmente definida em seu disco de estreia, 'Bright size life', de 1976.

Em sua extensa discografia estão trabalhos com diversas formações, de solo a grupos recheados de vocalistas e percussionistas, passando por duos, trios, quartetos, quintetos – vários lançados pelo selo alemão ECM. O guitarrista gravou com Dave Holland, Chick Corea, Jaco Pastorius, Charlie Haden, John Scofield, Jack DeJohnette, Herbie Hancock, Ornette Coleman, Brad Mehldau, Michael Brecker e Trilok Gurtu, além de brasileiros, a exemplo de Milton Nascimento, Toninho Horta e Naná Vasconcelos.

Em 'Kin', álbum que acaba de lançar, o guitarrista mantém a aposta na sonoridade de grupo, ainda que ampliando a abrangência dos arranjos. Ele faz isso com o auxílio de recursos eletrônicos e de engenhocas previamente utilizadas em trabalhos anteriores, como os orchestrionics, instrumentos convencionais interligados entre si por sistema que faz com que “toquem” em resposta ao que Metheny toca na guitarra. Mas o principal mérito desse disco não está nisso, mas na consolidação dos músicos envolvidos como seu novo grupo – sem forçar comparação com o que foi, no passado, o Pat Metheny Group.

Ele vinha tocando com os competentes Chris Potter (sopros), Ben Williams (baixo acústico) e Antonio Sánchez (bateria) desde 2012, formação que chamou de Unity Band e deu nome ao bom disco que lançaram no mesmo ano. Agora com o jovem italiano Julio Carmassi (piano, sopros, violoncelo e teclado) a formar um quinteto, gravou as nove faixas de Kin, com destaque para composições como 'On day one', 'Rise up', 'Sign of the season' e a faixa-título, todas com mais de 10 minutos de duração e demonstrações de como o guitarrista continua um soberbo improvisador – além de hábil para criar “paisagens” com seus arranjos.

SANTA TEREZA Tendo declarado abertamente e em diversas ocasiões sua admiração pela música do Clube da Esquina, Pat Metheny fez amigos e parceiros em Belo Horizonte. Esteve na capital mineira algumas vezes, a última delas no ano passado, em junho, quando tocou no Grande Teatro do Sesc Palladium. Mas sua visita mais interessante à cidade foi nos anos 1980, quando se mostrou muito ansioso por conhecer “onde ficava o tal clube dos músicos mineiros” que admira.

Os anfitriões do norte-americano explicaram que isso não existia e que, na verdade, era apenas um cruzamento de ruas de Santa Tereza, onde amigos se encontravam. Não teve jeito: Metheny quis conferir pessoalmente. O guitarrista estava acompanhado por poucas pessoas, entre elas Milton Nascimento e Tavinho Bretas, e a primeira parada no bairro foi feita na casa da família Borges, onde estavam o cantor e compositor Lô, sua irmã Solange e seus pais, Maricota e Salomão. Passaram a tarde juntos.

“A recepção foi com grande alegria e carinho. Depois de cafezinhos, pães de queijo, biscoitinhos, muitos casos e boas risadas, mesmo com o Pat não entendendo nada do que falávamos, Lô e Milton levaram ele até a tal esquina. Naquela época não tinha ainda qualquer placa indicativa como referência, como hoje tem a do Museu Clube da Esquina. O Pat olhava para aquele lugar sem entender nada e a gente olhava para ele sorrindo e com aquela expressão de ‘é isso mesmo que você está vendo’”, lembra Bretas.


Promessa é dívida

Talvez o guitarrista não se lembre, mas acabou deixando duas “dívidas” para trás. Uma delas foi feita nessa mesma visita aos Borges. Lô lembra: “Naquela tarde, ele falou comigo que o 'Clube da esquina', de 1972, é um dos discos de cabeceira dele e que o incentivou a tocar e compor. Disse que queria gravar comigo, mas isso nunca aconteceu. Acho que isso foi mais uma gentileza dele”. O mineiro, fã de Metheny há muito tempo, diz isso sem qualquer rancor.

Outro “credor” é Toninho Horta, que anos 1980 gravou suas músicas 'Moonstone' e 'Prato feito' (nos discos Moonstone e Toninho Horta, respectivamente) com o norte-americano. O mineiro afirma que, desde então, os dois conversam sobre fazer um disco inteiro juntos. Inclusive, revela que a sugestão de Metheny era que fossem para o estúdio com ninguém menos que o percussionista Naná Vasconcelos, o pianista Herbie Hancock, o baixista Charlie Haden e o baterista Jack DeJohnette.

“Estou esperando até hoje”, brinca Horta. E o mineiro aproveita para mandar recado: “Músicos que têm vontade de gravar juntos às vezes não conseguem fazer isso por causa do business. O Pat tem muito compromisso, é do jazz mais pop. Já eu, sou facinho, facinho”, garante.

PAT EM 5 TEMPOS

Bright size life (1976)
Disco de estreia do guitarrista, é quase todo autoral. Gravado com o baixista Jaco Pastorius e o baterista Bob Moses, já apresenta o estilo de Metheny consideravelmente desenvolvido.


First circle (1984)
Um dos mais expressivos trabalhos do artista no formato de grupo, tem o baixista e vocalista argentino Pedro Aznar como cereja do bolo. Ele contribui com emocionantes vocalises e até com uma canção.


Imaginary day (1997)
De sonoridade exuberante, esse álbum tem o artista a dominar diferentes instrumentos, como o violão Pikasso (de 42 cordas) e a guitarra sem trastes, à frente de competente grupo.


Beyond the Missouri sky (1997)
Com Metheny ao violão e Charlie Haden no baixo acústico, é um trabalho belo e delicado. O talento deles para criar melodias e harmonizar fica ainda mais perceptível nesse registro desplugado.


Orchestrion (2010)
O nome é referência a sistema integrado de instrumentos que tocam em resposta às notas que Metheny faz soar na guitarra. Essa é a base do disco, que o artista gravou “sozinho”.

MAIS SOBRE MÚSICA