Formado pela Escola de Arte de Dacar, Mamour atuou no balé e na orquestra nacionais de seu país, quando teve a oportunidade de viajar por quase 20 países. Morou durante nove anos na França, período em que estudou composição na Universidade de Versailles e atuou como músico. Tocou com ícones do continente africano, como o cantor nigeriano Fela Kuti e o saxofonista camaronês Manu Dibango. Como bolsista da Unesco, havia decidido ir para o México, mas seus amigos da embaixada brasileira em Dacar o fizeram mudar de ideia. Assim, BH entrou na sua rota.
PISTAS Com oito faixas autorais, 'O poder do ritmo' foi gravado no ano passado, em Belo Horizonte. Mamour tocou praticamente todos os instrumentos, o que inclui boa variedade de percussões trazidas do Senegal, como balafon (espécie de marimba de madeira), djembe e sabar, este último um dos mais característicos do seu país. “Quando se toca o sabar por lá, todo mundo para e presta atenção. Está presente nos batizados e em manifestações diversas do país”, exemplifica. Ele só deixou a bateria a cargo do filho Cheikh Ba, de 22 anos – sua filha Djeinaba Kane Ba, de 12, ainda está aprendendo piano.
Além de introduzir novos sons de percussão africana no país, o artista quer que o álbum ajude a mudar a concepção dos brasileiros sobre o ritmo. “As pessoas entendem o ritmo como acompanhamento, com um cantor à frente. No meu disco não é assim, há um diálogo com a percussão”, explica. Instrumental, o disco é baseado principalmente em ritmos senegaleses, com melodias de inspiração africana e, como define o percussionista, “harmonias universais”. Pitadas de pop, música eletrônica e improvisação (jazz) são as “pistas” que ele deixa para as futuras conexões que deseja desenvolver.
“Se as bandas de rock descobrissem o sabar, ele explodiria pelo mundo. Ele fala como a guitarra”, diz Mamour. Ele diz ter visto percussionistas de cantoras baianas como Ivete Sangalo e Daniela Mercury usando sabar, mas, na opinião dele, os colegas “ainda não sabem encaixá-lo na música”. Há exemplos do potencial da percussão africana por todo o disco e um dos mais interessantes é expresso por meio dos bongas, conjunto de seis tambores que não substitui, mas assume de forma discreta (e curiosa) o papel do baixo. 'Mansana-Cissé', 'Thiossen' e 'Elegance' são bons exemplos disso.
A propósito, esta última faixa tem como base ritmo conhecido na África como gumbé e chama a atenção pela similaridade com a batida brasileira do maculelê (que influencia o funk carioca, por sua vez). Mamour diz que fez isso de propósito: “Para aproximar e mostrar que muito do que se toca aqui é tocado lá também. A forma é a mesma”.
Um coral para BH
Mamour Ba revela que vem estreitando laços com a Colômbia (onde também há forte herança africana) nos últimos quatro anos. Esteve lá pela primeira vez para participar de uma conferência e voltou maravilhado com a música que ouviu, principalmente na comunidade de Palenque de San Basilio, no Norte do país, habitada por descendentes de escravos africanos levados para lá pelos colonizadores espanhóis. O percussionista tem ido todo ano para lá, onde desenvolve trabalho com um grupo vocal.
Fazer o mesmo aqui é um sonho, confessa: “Montaria um coral de 200 vozes para fazer Belo Horizonte cantar. Seria todo fim de ano, numa praça, para manter nossos laços culturais”. Por enquanto, o mais próximo disso é o projeto de seu próximo disco, ainda sem nome, mas já conceitualmente definido: repertório exclusivamente de canções de Milton Nascimento interpretadas por 30 vozes, todas gravadas por Mamour. “Por que Milton não foi ainda gravar com os africanos?”, pergunta o músico senegalês.
“Haverá base de percussão, com as vozes ao centro”, adianta. Já selecionou músicas como 'Maria Maria', 'Fé cega, 'faca amolada', 'Travessia', 'Coração de estudante' e 'Francisco'. Convidados estão previstos, mas Mamour prefere manter segredo. O artista planeja entrar em estúdio para registrar as músicas ainda este ano.
PELO MUNDO
Mamour Ba tem feito, frequentemente, apresentações no exterior. Para o ano que vem, já estão marcados shows nos Estados Unidos, Austrália e países da Europa. Além disso, ele visita anualmente o Senegal, onde mora parte de sua família. Sua agenda prevê para dia 11 do mês que vem concerto no Festival de Inverno de Ouro Branco, com seu grupo Conexão African Beat, formado por alguns de seus ex-alunos de percussão.