Veja mais fotos de instrumentos não convencionais
Uma das áreas com mais variedade de instrumentos é a percussão. E foi isso que chamou a atenção de Daniela Rennó, que deixou a comunicação social para se dedicar à música. A percussionista e compositora se interessou, primeiramente, pelo som do tambor africano. Depois do contato com o pessoal do Uakti, ingressou no aprendizado da tabla, instrumento indiano de percussão. “Cada cultura tem um arsenal de instrumentos, ainda mais de percussão. Acho que é o naipe com maior variações, porque você consegue transitar mais na melodia, você pontua mais. Passei por tudo um pouco: música indiana, cubana, toquei pandeiro. Acho isso muito importante para qualquer artista”, aconselha. Mas Daniela se encontrou mesmo foi no vibrafone, um idiofone – categoria de instrumentos musicais cujo som é produzido pelo próprio corpo do instrumento – composto de diversas teclas de metal montadas em um suporte sobre tubos que servem para amplificar o som. “Ele me chamou a atenção porque me abriu um mundo melódico e harmônico. É instrumento muito interessante e, depois de ter tocado tanta coisa, porque a gente acaba virando colecionador, me dediquei mais ao vibrafone”, conta Daniela, que é proprietária do Estúdio Acústico.
Além de tocar instrumentos considerados inusitados para a maioria das pessoas, Raja Singh é luthier e se especializou em verdadeiros tesouros musicais da Índia. Sitar, dilruba, surbahar e tanpura são alguns dos instrumentos que são produzidos por ele em seu ateliê no Bairro Glória, em Belo Horizonte. Apesar de não ter nenhuma ligação familiar com a Índia – ele é brasileiro e adotou o nome Raja Singh Khalsa desde que enveredou pelo ramo de fabricação dos instrumentos – o “sitar maker”, como também é chamado, sempre foi encantado com a música oriental. Depois de uma temporada indiana, voltou ao Brasil e decidiu se tornar artesão da música em 2004.
“Sou autodidata, porque aprendi a confeccionar sozinho os instrumentos. A matéria-prima é toda daqui de Belo Horizonte e faço tudo: lixo, corto, colo, dou polimento, trabalho a madeira. Levo cerca de 30 dias para produzir um único instrumento e tenho recebido muitos elogios e comentários, até mesmo de gente da Índia.” Ele conta que mesmo na Índia a fabricação de instrumentos tradicionais está acabando. “Eles têm optado muito pelos ocidentais, como guitarra, baixo e bateria”, revela Raja, que vai se dedicar em breve à produção do rudra veena. “Vai ser o meu grande desafio. Ele é o pai de todos instrumentos e é de extrema dificuldade para ser feito”, afirma.
Diversidade
A sonoridade curiosa e exótica não é privilégio apenas dos instrumentos pouco usuais, mas também pode ser extraída dos mais tradicionais. E até mesmo de objetos do dia a dia, como lembra o violonista, compositor e arranjador Geraldo Vianna. Para ele, há uma curiosidade do ser humano pela produção do som e tudo emite algum barulho próprio. “Existe uma inquietação e uma necessidade em criar novos sons. Qualquer coisa pode virar um instrumento. Uma panela, taças de vidro, talheres, o próprio andar em um piso. Mas isso deve estar associado ao bom gosto estético. A criação sonora tem que agir em função da música”, ressalta.
Geraldo Vianna acrescenta que é possível descobrir e desenvolver novas possibilidades sonoras mesmo nos instrumentos mais convencionais. Pelo fato de trabalhar com arranjos, está sempre em busca de inovação. “O que importa, no fim das contas, é a musicalidade e o conhecimento. O experimentalismo gratuito, seja com um instrumento tradicional ou não, não vai acrescentar musicalmente. Para mim, música é isso. Não pode ter medo de inventar, tem que ter arrojo”, aconselha.
Criação coletiva
Minas Gerais tem dois grupos reconhecidos por experimentar e inovar no quesito sonoridade. Criado no fim da década de 1970 por Marco Antônio Guimarães, Artur Andrés Ribeiro, Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos, o Uakti utiliza instrumentos musicais não convencionais, construídos pelo grupo, a partir de materiais como vidro, tubos de PVC, rodas de bicicleta e até colunas de água, que têm sonoridade própria e conquistaram público em todo o mundo. O Uakti desenvolveu trilhas para balés e filmes, além de arranjar temas de música erudita e canções dos Beatles para os instrumentos criados por Marco Antônio Guimarães.
Já O Grivo, formado por Nelson Soares e Marcos Moreira, nasceu do interesse em expandir o universo sonoro e descobrir maneiras diferentes de organizar improvisações. O grupo trabalha com pesquisa de fontes sonoras acústicas e eletrônicas, com a construção de máquinas e mecanismos sonoros, e com a utilização, não convencional de instrumentos musicais tradicionais. Saiba mais sobre os grupos: www.uakti.com.br e www.ogrivo.com.
Assista a trecho de apresentação de Raja Singh tocando dilruba: