O jornalista, pesquisador e produtor musical Rodrigo Faour admite: tinha certo preconceito em relação às canções de Wando. Durante as pesquisas para escrever História sexual da MPB, mudou radicalmente de opinião. “Descobri um compositor extremamente autêntico e original, diferente de outros desse segmento mais popular. Nunca o vi como machista – o que é muito comum no estilo que ele seguia. Wando sempre usou o enfoque mais libertador, com letras positivas. Entendia os amantes”, destaca.
Faour lembra que Wando foi o primeiro a escrever canção com a temática gay, em 1978. Emoções se referia ao amor muito bem resolvido entre dois homens. “Tempos depois, ele continuou ousando, ao falar de erotismo de forma mais natural. A função do artista é justamente esta: quebrar paradigmas, abrir a cabeça das pessoas. Wando fez isso com muita descontração e alegria”, frisa.
Carnaval
Fevereiro de 1971, véspera de carnaval. Jair Rodrigues foi procurado em seu escritório por Nilo Amaro. O líder do grupo Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano queria lhe apresentar Vanderley Alves dos Reis. “Ele nem era o Wando ainda. Era o Vanderley. Mostrou suas composições. Gostei, mas falei que, como estava perto do carnaval, queria um sambão, uma coisa mais alegre”, relembra Jair. Wando levou O importante é ser fevereiro, que logo depois estouraria nas paradas de sucesso na voz do cantor famoso. Os dois compuseram Se Deus quiser.
“Gravei outras canções dele, principalmente sambas. Depois Wando achou sua fórmula: o homem das calcinhas. Lamento muito sua morte, mas Deus sabe o que faz”, diz Jair. A obra de Wando também pode ser ouvida nas vozes de Roberto Carlos, Ângela Maria, Nando Reis e Originais do Samba. O grupo carioca Pedro Luís e a Parede (Plap) gravou Nega de Obaluaê. “Alguns de seus refrões são matadores. Ele criou frases clássicas da música brasileira, como ‘eu quero me enrolar nos seus cabelos’. Wando conseguiu uma coisa rara: ocupar lugar muito especial tanto junto da elite quanto do povão. Com justiça, virou um cara cult”, salienta Pedro Luís. Nesta quinta e sexta-feira, a Plap vai homenageá-lo em seus shows no Rio de Janeiro.
Muito emocionado, o cantor e compositor cearense Falcão avisa: o gênero brega é um orgulho para a dupla. “A gente faz um brega bom, um brega legal. Ele era um cara muito bacana, dessas pessoas que cativam mesmo. Wando rodava o Brasil inteiro, lotava as casas, mesmo sem destaque na grande mídia. Para mim, vão ficar a sua alegria e a sua suavidade”.
Tecladista e cantor da Orquestra Mineira de Brega, Artênius Daniel lamentou a morte do cantor. “Antes de fazer qualquer juízo de valor estético sobre o que é brega ou não, só o fato de Wando ser um dos nomes mais conhecidos da música brasileira é algo importante. Todo mundo conhece o hit Fogo e paixão”, conclui. Sábado, a Orquestra homenageará Wando em seu baile no Granfino’ s, em BH.
Do samba-joia ao brega romântico
Lançado em 1973, Glória a Deus no céu e samba na Terra, o primeiro dos 28 discos de Wando, não dá muitas pistas de que, alguns anos depois, o cantor se tornaria ícone da música popular romântica brasileira (o chamado brega). Na capa, o mineiro aparece empunhando violão, ostenta cabeleira afro e figurino um tanto desleixado. Nas 14 faixas, canta sambas nos quais exalta o carnaval, a capoeira, a malandragem, e se queixa de amores desfeitos, ainda sem o tom lascivo que marcaria seus trabalhos posteriores.
Durante a ditadura, Wando foi enquadrado pela crítica como cantor do samba-joia, corrente tida como menos politizada e conformista, da qual faziam parte Luiz Ayrão e Benito di Paula. No entanto, essa interpretação é equivocada (para não dizer preconceituosa).
Em seus discos lançados nos anos 1970, Wando abordou temas como a desigualdade social, a vida nas periferias e o preconceito. Porém, o amor escancarado (especialmente o carnal) entre homem e mulher fez a fama do cantor. Naquela década surgiram os sucessos Moça (1975) e Gosto de maçã (1978). Wando chegou aos anos 1980 com a popularidade em alta: Bem-vindo foi lançado pela poderosa Som Livre.
Em 1988, veio O mundo romântico de Wando, com Fogo e paixão. Nos anos 2000, a discografia traz poucos títulos. O último, Romântico brasileiro, sem vergonha, foi lançado em 2005 e rendeu DVD.
O número de discos vendidos por Wando é incerto. Mas só o álbum que trazia a faixa Moça bateu 1,2 milhão de cópias. “Aqui está um cara que vendeu 10 milhões de discos neste país. É fato só até 1995”, contou ele a Paulo César de Araújo, autor do livro Eu não sou cachorro, não.
MINEIRO DE CAJURI
Vanderley Alves dos Reis nasceu em 2 de outubro de 1945 em Cajuri, na Zona da Mata. Mudou-se para Juiz de Fora ainda criança e depois para Volta Redonda (RJ), onde trabalhou como motorista de caminhão e feirante. Rapazinho, tocava em grupos de bailes. Em 1973, foi descoberto por Nilo Amaro e lançou o primeiro compacto, Maria, Mariá.
FETICHE
Wando fez fama por causa das calcinhas. Dizia ele que se a lingerie for virada de cabeça para baixo, se parece com uma tenda. Em 1990, a capa do disco Tenda dos prazeres trazia a peça. O sucesso foi tanto que ele passou a distribuir, receber e a colecionar esse fetiche do vestuário feminino.
DISCOGRAFIA
1973 – Glória a Deus no céu e samba na Terra
1975 – Wando
1976 – Porta do sol
1977 – Ilusão
1978 – Gosto de maçã
1979 – Gazela
1980 – Bem-vindo
1981 – Pelas noites do Brasil
1982 – Fantasia noturna
1983 – Coisa cristalina
1985 – Vulgar e comum é não morrer de amor
1986 – Ui-Wando paixão
1987 – Coração aceso
1988 – O mundo romântico de Wando
1988 – Obsceno
1989 – Dor romântica
1990 – Tenda dos prazeres
1992 – Depois da cama
1993 – Mulheres
1995 – Dança romântica
1996 – O ponto G da história
1997 – Chacundum
1998 – Palavras inocentes
1999 – S.O.S. de amor (Wando ao vivo)
2000 – Picada de amor
2001 – Fêmeas
2002 – Acústico ao vivo (28 sucessos da MPB)
2005 – Romântico brasileiro, sem vergonha