Ator Maurício Canguçu assume o comando da Funarte em Minas Gerais

Indicado pelo ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura de BH, ele diz que quer dar relevância à entidade e que manterá sua carreira no palco em paralelo com a função pública

por Ana Clara Brant 03/10/2019 06:00
LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS
O ator e produtor Maurício Canguçu, na sede da Funarte em BH (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS)

O ator, diretor e produtor Maurício Canguçu costumava dizer ao seu círculo de amigos que, quando completasse 50 anos, iria se aposentar. O desejo era dedicar-se somente à atuação e abandonar as outras atividades para poder aproveitar mais a vida. “Já trabalhei tanto. Fui office boy. Sempre fiz teatro na cara e na coragem, ao ponto de, no começo, carregar lata de cola para sair pregando cartazes pela cidade. Então sempre tive esse intuito de diminuir o ritmo em algum momento”, afirma.

Mas, faltando poucos dias para completar meio século de idade (em 2 de setembro passado), ele foi pego de surpresa com um convite inesperado: assumir um posto na administração pública, algo inédito em sua trajetória profissional. O cargo é de coordenador da Fundação Nacional de Artes (Funarte) em Minas Gerais.
“Completei 50 anos agora e tudo o que eu tinha planejado veio por água abaixo (risos). Arrumei mais trabalho, porque é um projeto no qual a gente tem que entrar de cabeça. É um desafio e não deixa também de ser uma maneira de celebrar tudo o que construí. Agora são praticamente 24 horas ralando, mas é o que temos e estou muito feliz.”

Apesar de a nomeação ter sido publicada no Diário Oficial da União (DOU) somente na semana passada e de a posse estar programada para esta sexta-feira (4), desde o começo de agosto Maurício Canguçu desempenha a nova função. “Se eu não começasse já, seria complicado apresentar os projetos e colocar as minhas ideias em prática. Por conta de questões burocráticas, de ter um limite para o ano fiscal, preferi começar,  mesmo sem ser oficial, para ir entendendo todo o processo e propor o que eu gostaria de fazer para o ano que vem”, conta.
 
Ele diz que durante esses dois meses não recebeu salário, mas assegura que esse é o menor dos problemas. “Não é desdenhar, mas não aceitei esse cargo por questões financeiras. Esse não é o meu foco. Muito pelo contrário. Claro que preciso e quero o salário, até porque estou abrindo mão de outras coisas, empenhando meu tempo e minha dedicação, mas considero isso uma missão. Quero colocar a Funarte de Minas num outro patamar e contribuir para que a instituição se torne cada vez melhor e mais eficiente.”

O convite para o cargo partiu do mineiro Leônidas de Oliveira, ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura (FMC) na gestão Marcio Lacerda e do início da gestão Alexandre Kalil e atual diretor-executivo nacional da Funarte. Canguçu elogia o desempenho de Oliveira à frente da FMC. “Vários projetos bacanas surgiram quando ele estava na Fundação, como a Virada Cultural. Ele sempre teve um olhar sobre os mais variados tipos de linguagens, um olhar sobre a periferia. Leônidas valoriza e contempla manifestações artísticas e culturais diversas,  sem privilegiar apenas uma. Sempre gostei muito da maneira dele de atuar, e ele chegou a comentar que, algum dia, gostaria de trabalhar comigo ou com o Ílvio (Ílvio Amaral, ator, produtor, diretor e sócio há 30 anos de Maurício na Cangaral Produções Artísticas) por toda a nossa trajetória”, conta.
 

DÚVIDA

O ator diz que, de início, se assustou com a proposta e ficou em dúvida se valeria a pena aceitar o convite. “Nunca me imaginei nesse lugar. Não tenho rabo preso com ninguém e sempre fiz meu teatro de forma independente. Desde o começo, Ílvio e eu nos preocupamos em atender aos nossos desejos, e não ao mercado. Acho que aceitar este desafio é uma coroação e o reconhecimento de todo um trabalho.”

Canguçu vai se dividir entre a Funarte e o palco, incluindo, o trabalho de maior sucesso da Cangaral, o fenômeno Acredite, um espírito baixou em mim, atualmente em cartaz na capital paulista. Ele diz, no entanto, que segue sendo sócio, mas não participa mais da administração da empresa. “Sigo exercendo meu ofício de ator e me desdobrando entre BH, São Paulo e Rio, e não só por conta das turnês dos espetáculos, mas das reuniões que o cargo exige. Lidar com essas questões formais, burocráticas é uma coisa nova para mim, mas estou bem empolgado.”
 
Recentemente, a Funarte esteve em evidência por uma polêmica. O diretor do Centro de Artes Cênicas da instituição, o diretor teatral Roberto Alvim, ofendeu Fernanda Montenegro, considerada a maior atriz do país, em postagens no Facebook e chegou a chamá-la de “sórdida” e “mentirosa”. A atitude gerou indignação na classe artística, que se manifestou contra as declarações e classificou Alvim como inapto para o cargo.

O presidente da Funarte, o pianista Miguel Proença, se disse chocado com as ofensas. “Já pedi um auxílio ao ministro da Cidadania (Osmar Terra), pedi uma audiência com ele para tomar uma providência. Admiro muito a Fernanda; além de ser a grande dama do teatro, ela é uma grande amiga. Fiquei com esse peso nas costas, o Brasil inteiro está de olho na Funarte hoje por causa disso. E aqui produzimos arte e beleza, não agressão”, declarou.

Embora seja essencialmente um homem de teatro, Maurício Canguçu preferiu se esquivar da polêmica. “A opinião do Alvim é do Alvim. A opinião do Miguel é do Miguel. E a minha é a minha. Fazemos parte de uma mesma instituição, mas somos independentes. Tem gente que compactua com o que eles dizem; outros, não. Já temos tantos problemas para lidar aqui. A falta de público, que é cada vez mais grave, o pouco entendimento de muita gente com relação às leis de incentivo, a burocracia. Quero fazer o meu trabalho, cuidar do meu quintal e não ficar alimentando mais polêmicas”, diz.

Com relação ao fato de fazer parte de um governo que não é muito afinado com a classe artística e tem tido uma série de atritos com o setor em virtude dos cortes de investimento e da reformulação das políticas públicas para a cultura, incluindo a intenção de usar “filtros” para a concessão de incentivos fiscais à produção, Canguçu diz não ter sentido, até o momento, nenhuma reação negativa.

“Fui bem recebido e tenho tido apoio dentro e fora da Funarte, inclusive por parte de pessoas que não são do meu círculo de convivência. Sou o primeiro ator que está à frente da regional em Minas. A maioria dos coordenadores eram funcionários de carreira, e muita gente tem exaltado essa coisa, justamente por eu oferecer um novo olhar. Sempre trabalhei muito, a vida toda, e nunca entrei em política. Nunca tive tempo de ficar militando. Tenho uma posição pessoal e não fico expondo. Acho que até por isso eu esteja lá.”

Canguçu já tem desenvolvido algumas ações, como o programa Funarte Aberta, que começa na próxima semana e vai oferecer, até dezembro, oficinas gratuitas de circo, dança de salão, street dance, canto e interpretação para a TV. “Nós ficamos impressionados com a quantidade de pessoas que se inscreveram. Gente de todas as idades e que nunca frequentou a Funarte. Acho importante começar a movimentar, fazer alguma coisa desde já”, diz.

LONA

Outra ideia que começa a tomar forma e que ele considera a menina dos olhos de seu começo de gestão é a montagem de uma lona permanente, que deve comportar um público de até 600 espectadores. “Como os espaços aqui são pequenos, faltava esse de médio porte para receber qualquer tipo de espetáculo. Queremos receber grupos que nunca se apresentaram aqui, inclusive do interior, linguagens que nunca estiveram presentes. Já tem a verba para a lona, e acredito que, se tudo der certo, vamos inaugurá-la em janeiro.” Outra ideia é a abertura de um café literário no espaço da Funarte em Minas.

O novo coordenador também quer dar uma cara nova à rua Januária, onde fica a Funarte, e transformá-la em um endereço de referência artística. “Muita gente fala que é um lugar meio perigoso, ermo, mal iluminado. Queremos ocupá-la, levar artistas urbanos para fazer intervenções, desenvolver várias atividades, sobretudo nos fins de semana. Minha ideia é não só investir lá dentro, mas no entorno da Funarte. Que a Januária vire uma rua das artes.”

Maurício sabe que sua tarefa não é fácil, mas afirma que quer deixar a sua marca. “Estou aberto a todos que queiram se juntar e transformar a cultura em Minas. Quero ser lembrado como alguém que deu abertura a todas as manifestações artísticas. Não sei se vou ficar um mês, um ano, quatro anos. Mas, no dia em que eu deixar a Funarte, quero que saibam que passei por ali e que consegui deixar algo de relevante na instituição. Estou me esforçando e vou me esforçar muito para que isso aconteça.”

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