'Ninguém é dono da Amazônia', diz teólogo Leonardo Boff

Convidado do projeto 'Sempre um Papo' desta terça-feira (1º), teólogo afirma que a preservação da Amazônia é uma questão global e convida público a debater o tema sob o viés da ética e da espiritualidade

por Cecília Emiliana 01/10/2019 13:38
Infinito Fotografia/divulgação
Teologo e escritor Leonardo Boff (foto: Infinito Fotografia/divulgação)

Às vésperas do Sínodo do Pan Amazônico - assembleia de clérigos convocada pelo papa Francisco para debater a preservação do maior bioma do mundo - Leonardo Boff desembarcou em Belo Horizonte sem medo de semear polêmica. “A Amazônia é um bem comum da Terra e da humidade. O Brasil pode ter a administração, que é muito ruim. Mas ele não é dono. O (Emmanuel) Macron, (presidente) da França, foi o único que entendeu isso”, afirma o teólogo. 

Ele participa nesta terça feira (1º) do projeto Sempre um papo, roda de conversa comandada pelo jornalista Afonso Borges que ocorrerá às 19h30, na Faculdade de Direito da UFMG. Sob o tema “Amazônia, salvaguarda da Terra”, o evento é aberto ao público e contará com a presença de lideranças religiosas, indígenas e de movimentos sociais.

A programação do encontro inclui ainda o lançamento do livro Ética e espiritualidade: como cuidar da casa comum (Editora Vozes, 200 p.), que aborda os chamados direitos da natureza e da Terra. Assunto fresco na seara da ecologia, o conceito é definido como o equilíbrio do que é bom para os seres humanos com o que é bom para as outras espécies do planeta.

“A Amazônia é um bioma muito rico e, ao mesmo tempo, extremamente frágil. A vegetação não sobrevive (do que retira) do chão, mas do entrelaçamento entre as raízes das plantas, dos nutrientes presentes nas fezes dos animais, da umidade que cai das folhas, já que o solo ali, de 30 a 40 centímetros para baixo, é pura areia. Se a gente não cuida, a região pode virar uma espécie de Saara”, alerta Boff. 

Para o teólogo, ao convocar um sínodo - encontro realizado em Roma, com cerca de 250 líderes religiosos de todo o mundo durante 23 dias - para discutir a questão amazônica, o Papa Francisco quis chamar atenção para a necessidade de reconhecimento da Amazônia como bem comum da humanidade, dadas as consequências de sua destruição. 

“Devastar a maior floresta tropical do mundo significa acabar com uma imensa reserva de água doce e com um importante filtro do equilíbrio climático global, que garante as chuvas numa área que vai desde do Centro-Oeste brasileiro ao norte da Argentina. Isso, para o citar o mínimo. Então não estamos falando de uma tragédia localizada, que afetaria apenas o mundo periférico, mas toda a civilização. O que o papa deseja é que todos tomem consciência disso e, assim, abandonem o velho paradigma da soberania, da divisão de países. Entramos numa fase planetária, que exige uma governança mais global, capaz de resolver problemas relacionados à água, ao calor, a tudo que sustenta a vida. A Amazônia, portanto, não é um problema brasileiro, mas do mundo todo”, afirma o escritor. 

Boff destaca ainda que a discussão é pertinente sobretudo no momento delicado experimentado pela política ambiental do Brasil, marcada pela exoneração do ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ricardo Galvão, após o presidente Jair Bolsonaro contestar dados recentes  do monitoramento do desmatamento da Amazônia. “A administração da floresta aqui é péssima, pois houve um entreguismo aos madeireiros e às mineradoras, que ameaçam a diversidade e a preservação de territórios indígenas. Eu, inclusive, tenho aqui um documento dos indígenas pedindo a transformação de todo o bioma amazônico em santuário intangível da mãe Terra. É uma proposta para a Unesco, para que ela eleve a região à condição de Patrimônio Mundial Natural, a exemplo do que aconteceu com vários parques e unidades de conservação da Mata Atlântica”, conta o teólogo. 

Leonardo Boff acumula cerca de 30 participações ao longo da trajetória de 33 anos do projeto Sempre um Papo. “Uma das fontes da encíclica sobre a natureza do papa Francisco teve como fonte o livro Grito da Terra, grito dos pobres, obra publicada pelo Boff em 1995. Muitas das questões debatidas hoje, ele já antecipou há muitos anos”, ressalta o anfitrião Afonso Borges.

SEMPRE UM PAPO
Com Leonardo Boff,  terça-feira (1/10), às 19h30, no auditório da Faculdade de Direito da UFMG (Av. João Pinheiro, 100, 2º. andar, Centro). Entrada gratuita

Ética e espiritualidade: como cuidar da casa comum 
Autor: Leonardo Boff
Editora: Vozes
(200 págs.)
Preço sugerido: R$ 25,14

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