Morre Dona Lucinha, aos 86 anos, em BH

Natural do Serro, ela era um dos maiores nomes da culinária mineira

Alexandre Guzanshe/E.M/D.A Press
Dona Lucinha na sacada de um dos seus restaurantes em BH (foto: Alexandre Guzanshe/E.M/D.A Press)
Morreu na manhã desta terça (9), aos 86 anos, em sua casa em Belo Horizonte, Dona Lucinha uma das maiores referências da culinária mineira. Nascida no Serro, ela atuou de formas múltiplas – foi catequista, professora, salgadeira, doceira, feirante, quitandeira, diretora escolar e vereadora.Dona Lucinha coordenou as atividades profissionais com a criação de seus 11 filhos.

 

José Marcílio, um dos filhos da culinarista, informou ao Estado de Minas que dona Lucinha vinha passando bem, embora já lidasse há algum tempo com os efeitos do Alzheimer. Na manhã desta terça (9), ela sofreu um infarto em casa. 

 

Autora de História da arte da cozinha mineira, um livro que se tornou clássico em sua área, Dona Lucinha ficou nacionalmente conhecida pelo restaurante que leva o seu nome e conta com duas unidades na capital mineira e uma em São Paulo. Reconhecida por seu esmero e cuidado na preparação dos pratos típicos de Minas, o Dona Lucinha é um dos pontos considerados obrigatórios pelos turistas em BH.

 

O velório está marcado para as 9h desta quarta (10), no Cemitério da Colina. O enterro será às 16h.

 

Nos últimos anos, em razão dos problemas de saúde, dona Lucinha havia restringido um pouco as atividades profissionais, mas não tinha perdido o interesse pela culinária e a energia para cozinhar.

 

Em entrevista ao Estado de Minas em 2016, prestes a fazer uma viagem para sua terra natal, ela comentou sobre a importância de suas origens no desenvolvimento do tipo de culinária a que se dedicou e também falou sobre seu gosto por preparos mais complicados

 

Na conversa, disse iria para participar da festa de Nossa Senhora do Rosário em sua cidade, mas achava possível que algum de seus conhecidos quisesse levá-la para a cozinha. "Vou para procissão, não para cozinhar, mas é capaz de alguém me pegar para ir para a cozinha. Mesmo velha, ainda dá para cozinhar. Estou muito bem, graças a Deus. Não sinto nada, nada”, revelou. 

 

Citou o empadão folhado como um dos quitutes que gostava de preparar. “É um dia para fazer o folhado e outro para o recheio, que leva batata, frango, lombo, macarrão, azeitona e palmito. O macarrão era um mais grosso que tinha no Serro, as azeitonas meu avô mandava buscar no Rio de Janeiro e o palmito a gente tirava no mato. Cubro com a massa folhada, aperto bem para não soltar e bordo com tiras da mesma massa. Quando assa, desfolha bonito. Quando me apertam, falo que não posso, mas faço tudo escondido e apresento o empadão pronto”.

 

Miguel Aun/Divulgação
Pratos tradicionalmente servidos no restaurante Dona Lucinha (foto: Miguel Aun/Divulgação)
Dona Lucinha era apegada às receitas raiz e dizia não saber comer essas coisas bem enfeitadas, bem bonitas e sem sabor. "Não tenho o menor interesse. Você entra nesses restaurantes e não sente cheiro de comida. Não gosto de jeito nenhum. Tem muita comida mineira feita por grandes chefs, mas que não tem nada a ver. Chefs de São Paulo acham que estão fazendo comida mineira, mas estão fazendo do jeito deles. Não adianta ensinar. Até o refogado é diferente e eles vendem como se fosse comida mineira.”

 

Em 2015, o Salgueiro se inspirou no livro de dona Lucinha para o enredo "Do fundo do quintal, sabores e saberes na Sapucaí". A autora era convidada de honra do desfile, mas teve um contratempo de saúde que a levou a uma internação em terapia intensiva poucos dias antes. No entanto, dona Lucinha se recuperou e fez questão de participar do desfile

Emmanuel Pinheiro/EM/D.A.Press
Dona Lucinha distribuía um "sopão" a pessoas carentes no Aglomerado da Serra em 2007. A iniciativa era de seu instituto (foto: Emmanuel Pinheiro/EM/D.A.Press)
 

 

 

 

 

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