Líbano abandona projeto futurista de Oscar Niemeyer

Artistas se mobilizam para pedir restauração do conjunto de prédios projetado pelo brasileiro em Trípoli e vão à Unesco para denunciar ameaça ao patrimônio

por AFP 23/10/2018 08:20
ANWAR AMRO/AFP
(foto: ANWAR AMRO/AFP)

Perto da beira-mar em Trípoli (Líbano), artistas lançaram um protesto sem precedentes para salvar uma joia da arquitetura modernista concebida há mais de meio século pelo brasileiro Oscar Niemeyer. Cantores, diretores, atores libaneses e de outros países ocupam há um mês a Feira Internacional de Rashid Karami, um grande complexo arquitetônico concebido na década de 1960 pelo “pai de Brasília”.

Localizado em um terreno de 70 hectares, segundo a Unesco, esse conjunto de prédios futuristas em concreto, cuja construção foi interrompida pela guerra civil que abalou o Líbano entre 1975 e 1990, recebeu o nome de um ex-primeiro-ministro libanês da região de Trípoli. Foi usado pelas forças armadas durante a guerra e depois abandonado. Hoje, está repleto de marcas do tempo: estruturas rachadas, piscinas vazias, ervas daninhas.

O evento cultural organizado em seu interior, intitulado “Cycles of collapsing progress”, visa a resgatá-lo do esquecimento, incitar a Unesco a inscrevê-lo na Lista do Patrimônio Mundial e o governo libanês a intervir rapidamente. Este local futurista é “único no Líbano e na região”, diz Wassim Naghi, presidente da União dos Arquitetos do Mediterrâneo.

Cúpula, arco, escadas em espiral no topo: Niemeyer deixou sua imaginação fluir em um lugar que ele concebeu como um espaço público para encontros, aberto a todos. A “Feira” deveria receber exposições permanentes, três museus e um teatro experimental, antes que a guerra civil do Líbano pusesse fim ao sonho. “Em sua modernidade, suas formas curvas, resume o progresso da arquitetura nos últimos 100 anos”, diz Naghi, lembrando que é uma das “maiores obras de Niemeyer fora do Brasil”.

Mas esta herança está ameaçada. “Os edifícios de concreto armado devem ser restaurados o mais rapidamente possível: alguns sofreram corrosões, blocos estão caindo e há muitas rachaduras”, adverte o presidente da União dos Arquitetos. “Tememos surpresas desagradáveis, especialmente no inverno, e pedimos urgentemente ao Estado que intervenha.”

Este local “testemunha a era de ouro da história moderna do Líbano e seus sonhos arquitetônicos, científicos e culturais”, diz a curadora Karina El Helou. O período próspero foi marcado por uma proliferação de ideias e projetos, lembra ela. Originalmente, um espaço subterrâneo abrigaria um museu de arquivos sobre a exploração espacial do Líbano, em homenagem a um episódio de sua história que muitos libaneses desconhecem. Na década de 1960, o país lançou vários foguetes pequenos sem astronautas, dos quais apenas um conseguiu chegar ao espaço. Este programa parou em 1969, e o museu espacial nunca chegou a existir.

Para ressuscitar sua memória, uma reprodução do foguete Cedar” – que cruzou a atmosfera há mais de 50 anos – está exposta onde seria o museu, como parte do evento cultural em andamento. Uma peça de teatro experimental também é proposta – um aceno ao teatro que o complexo abrigaria – bem como um concerto dedicado aos imigrantes ilegais que vivem em Trípoli.

O evento também “destaca o perigo iminente que pesa sobre este local”, diz Hélou. “É bom restaurar os espaços da história antiga, mas também devemos preservar esses monumentos que refletem a história moderna do país”, defende.

PERIGO

Dada a indiferença das autoridades, denunciada pelos artistas, a representante do Líbano na Unesco, Sahar Baassiri, garante que o Estado libanês e a organização internacional estão mobilizados. “Pretendemos continuar o trabalho em vista de inscrever o local na lista do Patrimônio Mundial em Perigo, na seção ‘arquitetura contemporânea’”, informou.

Mas alguns temem que o atual impasse político no Líbano possa precipitar ainda mais a decadência do local, considerando que o país está sem governo desde maio. Para sua reabilitação, “precisamos de estudos, de dinheiro e de um governo”, diz Naghi. “A atmosfera atual no país não é um bom sinal.”

Para Akram Oueida, diretor-geral da Feira, uma classificação da Unesco poderia “abrir as portas para doações externas. Estamos tentando obter financiamento do governo, o que nos foi prometido, mas nada foi feito”, diz.  (AFP)

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