Corpo de Nelson Pereira dos Santos é velado no Rio. Amigos lembram do mestre

Luiz Carlos Lacerda conta como foi a posse do diretor, o primeiro cineasta a se tornar imortal, na Academia Brasileira de Letras. 'Foi até as cinco da manhã'

por Mariana Peixoto 23/04/2018 08:38
Maria Tereza Correia/EM/D.APress
(foto: Maria Tereza Correia/EM/D.APress)
O corpo do cineasta Nelson Pereira dos Santos está sendo velado na manhã desta segunda-feira (23) na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. O enterro está marcado para as 15h, no Cemitério João Batista.

Internado desde 12 deste mês na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Samaritano, em Botafogo, o diretor, de 89 anos, morreu na tarde de sábado. Chegou à unidade de saúde com pneumonia e foi ali diagnosticado com um câncer no fígado em estado avançado.

As homenagens vieram por meio de palavras. Como lembrou o crítico Luiz Carlos Merten, “a ambição de Nelson e seus amigos – Glauber Rocha, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Ruy Guerra, etc. – não era pequena. Queriam mudar o cinema e o mundo.”

Foi essa a geração que resolveu pôr o Brasil real na tela. Diegues afirmou que a influência de Nelson em sua obra é “total”. “Ele inventou um cinema para o país e o país coube dentro do cinema dele. Como não havia escolas de cinema no Brasil na época (anos 1960), então aprendíamos com ele”, contou.

Um dos pais do Cinema Novo, Nelson lançou em 1964 um dos mais importantes filmes do movimento, Vidas secas, adaptado do romance de Graciliano Ramos. “Conta a lenda que Nelson nem chegou a elaborar um roteiro. Filmava do próprio livro”, lembrou Merten.

Vinte anos mais tarde, a adaptação de outra obra de Graciliano, Memórias do cárcere, se tornaria a obra-prima do cineasta. “Um dos melhores filmes já feitos no Brasil”, atestou Caetano Veloso.

A ABL chora um de seus imortais mais assíduos, “que distribuía seu luminoso bom humor nesta casa”, diz o poeta Marco Lucchesi, presidente da instituição.

ON-LINE Aliás, a Academia se transformou com a chegada dele, em 17 de julho de 2006. Nelson foi o primeiro cineasta a se tornar imortal – ocupou por 12 anos a cadeira que tem como patrono Castro Alves. Pela primeira vez, a ABL, então com 109 anos, fez uma transmissão on-line de um evento. E que evento, recorda o diretor Luiz Carlos Lacerda, um de seus amigos mais próximos, que o considerava seu “guru”.

“As festas lá acabavam cedo, mas a posse do Nelson foi até as cinco da manhã. Era black-tie, mas a toda hora aparecia na porta um maquinista de cinema, atores simples, gente que tinha feito papel secundário nos filmes dele. Os seguranças barravam e o Nelson ia para a porta de fardão falando para deixar o amigo entrar”, relembra.

Emmanuel Pinheiro/EM/D.APress
Nelson e Bigode em 2004, na Mostra de Tiradentes (foto: Emmanuel Pinheiro/EM/D.APress)
Lacerda é o “Bigode”, apelido que ganhou de Nelson em El justicero (1967), o primeiro filme do amigo em que trabalhou como assistente de direção. Na equipe técnica, havia dois Luiz Carlos Lacerda. “Quando ele gritava Lacerda, íamos os dois. Aí ele começou a me chamar de ‘ô do bigode’.”

O apelido ficou, assim como a amizade. Todos os domingos de manhã, Lacerda levava croissants para Nelson. Na casa do mestre, os dois falavam muito de cinema e também “mal dos outros”.

O ingresso de Lacerda no cinema muito se deve à influência de Nelson, que ele conheceu desde a infância, por causa do pai (o produtor João Tinoco de Freitas). “Quando acabou de filmar Como era gostoso o meu francês (1971), do qual fui assistente, ele apareceu com uma pilha de latas de negativos e disse: ‘Isto é para o seu filme.’” E Lacerda estreou em longa com Mãos vazias.

Um curta de Lacerda, rodado no início da década de 1970, marcou uma das últimas homenagens a Nelson. Em setembro de 2017, a 50ª edição do Festival de Cinema de Brasília celebrou a trajetória do cineasta. Já debilitado, ele não pôde comparecer. Mas ‘‘Bigode’’ estava lá e exibiu Nelson filma, que reúne imagens históricas do guru nos bastidores de seu longa Azyllo muito louco (1970). (Com agências)

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