Personalidades lamentam morte de Tônia Carrero

Atriz nunca deixou a beleza ofuscar seu talento. Na década de 1950, a estrela tomou as rédeas da própria carreira e hoje inspira nova geração de colegas

por Ângela Faria 05/03/2018 09:04

Arquivo EM
Tônia Carrero com Nelson Xavier e Emiliano Queiroz na peça Navalha na carne (1967) (foto: Arquivo EM)
Um pedaço da história do Brasil”. Assim o diretor e ator Lucio Mauro Filho se referiu a Tônia Carrero, que morreu sábado à noite, aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Internada na Clínica São Vicente para tratar de uma úlcera no sacro, a atriz não resistiu à parada cardíaca durante um procedimento considerado simples pela família. O corpo foi velado ontem, no Theatro Municipal, e a cremação está prevista para o meio-dia desta segunda-feira (05), no Memorial do Carmo.

Dona de beleza estonteante, Tônia Carrero batalhou para se tornar atriz respeitada. Mesmo depois de estudar teatro em Paris, na década de 1940, não era levada a sério – vários papéis lhe foram negados no início da carreira. Nos anos 1950, criou a própria companhia de teatro.

“Muito antes destes tempos de empoderamento, lutou para não ser escrava da maldição da beleza. Venceu”, lembrou Lúcio Mauro Filho, em seu perfil no Instagram. A atriz atuou em 54 peças, 19 filmes e 15 novelas. Quando a chamada “segunda onda” do movimento feminista ganhou destaque, nos anos 1960, ela já comandava a própria carreira.

PROSTITUTA Tônia será lembrada por papéis glamurosos e populares na TV – como o da linda e sofisticada Stellinha Simpson da novela Água viva (1980). Mas, já em 1967, havia trocado charme e beleza pelo mundo cão onde vivia a prostituta Neusa Suely, protagonista de Navalha na carne, peça de Plínio Marcos, um dos dramaturgos mais censurados pela ditadura militar. Esse trabalho lhe rendeu os prêmios Molière e Associação de Críticos Cariocas.

“O que mais me lembro é a Tônia na linha de frente nas passeatas de 68, nas escadarias do Municipal, segurando cartazes contra a ditadura, contra a censura. Ela era muito forte”, comentou ontem a atriz Renata Sorrah nas redes sociais, ao se despedir da colega.

Em junho de 1968, na histórica Passeata dos Cem Mil, lá estava a atriz ao lado das colegas Eva Todor, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Benguel. Atrás delas, via-se um cartaz que bem serviria para estes nossos conturbados tempos: “Contra a censura. Pela cultura”.

Ontem, a nova geração de colegas se despediu de Tônia Carrero ressaltando sua paixão pelo ofício. “Foi a primeira grande atriz que vi, ainda adolescente. Foi vendo Tonia como Sarah Bernhardt que decidi ser atriz. Era apaixonada pela arte, pelo teatro, pela vida”, afirmou Leona Cavalli. “Seu brilho está eternizado em cada personagem, cada emoção, cada vez que você mostrou a força de ser mulher”, postou Leandra Leal em seu perfil no Instagram.

Depois de uma participação especial em Senhora do destino (2004/2005), novela da Globo, Tônia Carrero deixou a vida pública. Sofria de hidrocefalia oculta, doença que afetou seus movimentos e a fala. Vivia com familiares na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ela deixou o filho, Cecil, e os netos Carlos, Luiza Miguel e João.

O presidente Michel Temer lamentou o falecimento da atriz. “O Brasil se entristece com a morte de Tônia Carrero. A TV, o cinema e o teatro ficam com a marca indelével de seu grande talento”, postou ele, em sua conta no Twitter.

 

A corajosa Mariinha

O Cruzeiro/EM/D.A Press
Tônia foi uma das estrelas da TV Tupi de São Paulo (foto: O Cruzeiro/EM/D.A Press)
Ela nasceu Maria Antonieta Portocarrero Thedim, em 23 de agosto de 1922. Filha de militar, o general Hermenegildo Portocarrero – que, a despeito da patente, era chamado de “Barão” –, e de Zilda de Farias, foi, desde sempre, Mariinha. Tônia Carrero, “o monstro de olhos azuis”, título de sua autobiografia, só surgiria mais tarde.

O pai sempre se interessou por teatro, era amigo de Procópio Ferreira e Oscarito. Mas aquilo não era para a filha. “O teatro não serve de modo algum para moça de família” teria dito Barão a Mariinha, quando ela demonstrou a vontade de conhecer aquele outro mundo. Como ditavam as regras do Brasil na primeira metade do século 20, Mariinha casou-se cedo.

O artista plástico Carlos Arthur Thiré lhe deu o único filho, Cecil, e também a oportunidade de estudar. Já casada, Mariinha se formou em educação física. Fascinada pelas artes, virou Tônia Carrero quando conseguiu um pequeno papel no filme Querida Susana (1947).

A grande mudança veio logo depois, quando deixou o filho pequeno no Rio de Janeiro, e, com o marido, foi viver em Paris. Estudou teatro na França e, dois anos mais tarde, de volta ao Brasil, dedicou-se ao ofício. O casamento, em crise, também chegava ao final. Na França, o cronista Rubem Braga se apaixonou por ela.

A estreia no teatro ocorreu em 1949. Ao lado de Paulo Autran, Tônia encenou Um deus dormiu lá em casa, no Rio de Janeiro. A beleza incomum já atraía todos os holofotes. O papel lhe rendeu o primeiro prêmio, na categoria atriz revelação, concedido pela Associação de Críticos Cariocas.

TBC Em 1951, Tônia se mudou para São Paulo, contratada pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Em 1953, estreou no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), dirigida por Adolfo Celi, o italiano radicado no Brasil que veio a se tornar seu segundo marido.

A curta trajetória no TBC incluiu participações em Uma mulher do outro mundo, de Noel Coward, novamente dirigida por Celi; Negócios de Estado, de Louis Verneuil; e no papel-título em Cândida, de Bernard Shaw, ambas dirigidas por Ziembinski.

Tônia se desligou da companhia paulista para fundar, no Rio de Janeiro, junto de Celi e de seu grande amigo Paulo Autran, a Companhia Celi-Autran-Carrero (CTCA), que estreou em 1956 com Otelo, de William Shakespeare. Foi muito elogiada ao interpretar Desdêmona. A partir daí, passou a se dedicar a repertório eclético, que incluía textos clássicos e de vanguarda.

Em 1965, sem a estrutura da CTCA e Adolfo Celi, que havia guiado e impulsionado sua carreira, a atriz criou a própria empresa. A Companhia Tônia Carrero já não era apenas um conjunto estável, mas a firma que viabilizaria as esporádicas montagens protagonizadas pela estrela.

Com graça, ao lado de Paulo Autran, ela interpretou A dama do Maxim’s (1965), de Georges Feydeau; agora dirigida por outro italiano, Gianni Ratto. Em 1968, brilhou como a patética Neusa Suely de Navalha na carne, de Plínio Marcos.

Homenageada pelo Prêmio Shell em 2008, Tônia atuou no teatro pela última vez em 2007, em Um barco para o sonho, de Alexei Arbuzov, peça produzida pelo filho Cécil Thiré e dirigida pelo neto Carlos Thiré.

NOVELAS Tônia está entre as pioneiras da televisão brasileira. Em 1952, interpretou várias personagens no Grande Teatro Tupi. A atriz protagonizou (ao lado de Francisco Cuoco) Sangue do meu sangue, novela exibida pela TV Excelsior em 1969. Trabalhou em diversas emissoras, como a Bandeirantes, na novela Cara a cara (1979); a extinta Manchete, em Kananga do Japão (1989), e o SBT, em Sangue do meu sangue (1995).

Porém, seus maiores sucessos foram as novelas da Globo: Água viva (1980), que lhe rendeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Louco amor (1983) e Sassaricando (1987).

Seu último trabalho como atriz foi no filme Chega de saudade (2008), de Laís Bodansky. Tônia interpretava dona Alice, uma das antigas frequentadoras do clube de dança de salão que dá nome ao longa.

 

(Com Mariana Peixoto e agência)

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