Antes marginalizadas, drag queens ganham espaço na cultura pop

Na música, nos palcos e na televisão, as personagens travestidas conquistam o público, dando visibilidade a uma arte historicamente envolta em preconceito

por Adriana Izel 19/12/2017 08:00

Luís Xavier de França/Esp. C.B./D.A Press
Luís Xavier de França/Esp. C.B./D.A Press (foto: Luís Xavier de França/Esp. C.B./D.A Press)
Dois mil e dezessete se tornou o ano em que mais se falou em drag queens no Brasil. Nomes como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Lia Clark e Aretuza Lovi roubaram a cena na música. Na televisão, programas e novelas incorporaram artistas e passaram a evidenciar a temática trans. A volta do movimento em destaque teve grande relação com o sucesso do reality show RuPaul’s drag race, lançado em 2009 como uma competição entre drags queen nos Estados Unidos e que, atualmente, tem nove temporadas e até uma negociação para ter uma versão no Brasil. Na TV brasileira, as drags voltaram com tudo no ano passado com aparições em programas como Amor & sexo, com a presença de Aretuza Lovi e Pabllo Vittar na novela Pega pega e no reality show Drag me as a queen, que estreou em novembro deste ano no canal E.!

 

Na novela Pega pega, da Globo, o ator Gabriel Sanches interpreta a personagem Rúbia, que mostra a realidade do universo drag. Ele também mantém nos palcos a personagem Sara. No reality show Drag me as a queen, as apresentadoras Rita von Hunty, Penelopy Jean e Ikaro Kadoshi falam abertamente sobre a vida de drag queen e como a sociedade as encara.

Confusão A notoriedade das drags na atualidade serviu para derrubar preconceitos e abrir espaço para esse tipo de arte. Sim, o movimento drag não é necessariamente uma questão de gênero, apesar de perpassar pela temática. É se travestir de mulher com uma elaboração extravagante para uma performance. “As pessoas confundem muito com gênero. Mas ser drag é uma arte. Qualquer pessoa pode ser uma drag queen. A arte não pode ser limitada e nem explicada. Tem que ser sentida”, analisa Ikaro Kadoshi, que há 15 anos vive como drag queen.


Apesar de estar em destaque agora, drag queen é uma arte considerada milenar. Na Grécia antiga, nos anos de 500 A.C., o teatro tinha homens vestidos de forma feminina para representar papéis de mulheres nos palcos. Na época, as mulheres não podiam atuar. “O movimento drag sempre teve um caráter underground, mas sempre esteve em nossa cultura. Nos anos 1980, Rogéria fazia personagens em novelas da Globo. Em 1990, Silvio Santos trazia nos shows de talentos pelo menos uma vez por semana uma transformista. A Nany People tinha aparições no programa da Hebe Camargo... A arte drag sempre ocupou um espaço que flertava com o mainstream”, lembra Rita von Hunty.


“Não se descobre drag, se torna. Toda e qualquer pessoa pode se tornar drag. O fato de três drags queen, pela primeira vez, terem voz em um programa de televisão já é história e também ajuda a humanizar a figura drag, mostrando que nós, artistas independentes, somos pessoas normais como qualquer um”, afirma Penelopy, que ficou conhecida como a cover oficial de Lady Gaga no Brasil.


O ato de ser drag queen passa por diversas áreas do meio artístico. Elas podem ser atrizes, apresentadoras, performers e cantoras e, apesar de existir uma cultura de que apenas homens podem ser drags, existem casos de mulheres que também se transvestem. Os exemplos mais famosos são Vlada Vitrova, Greta Dubois e Ginger Moon.


A transformação de mulheres em drags é a proposta do programa Drag me as a queen, que tem como objetivo, por meio da arte drag, colocar as participantes em um ato de autoaceitação e afirmação por meio de “terapia drag”. “É um reality que celebra e enaltece as mulheres. Neles, nós três servimos como coaching drags para 13 mulheres diferentes (uma por episódio), as ajudando-as a descobrir suas divas interiores, que sim, existem”, explica Penelopy. Durante a atração, as mulheres ganham um nome artístico, dado pelas apresentadoras, e aprendem técnicas de interpretação e maquiagem. “Drag queen é uma arte performática que transita entre os gêneros e quebra os padrões impostos pela sociedade de uma maneira lúdica e diverta. E o fato de transformarmos mulheres em drag ajuda o telespectador entender que a arte não tem gênero ou sexualidade”, completa.

Contrato A drag Aretuza Lovi recentemente assinou contrato com uma gravadora para lançar o próximo disco, e acredita que a atual ascensão drag tem o objetivo de evitar a banalização e a sexualização da arte. “As pessoas pensam que drag é um homem vestido de mulher, e é. Mas tem um contexto de uma arte. Não é só colocar uma maquiagem, uma peruca. Você tem que entender aquilo como uma essência artística. Para ser uma drag precisa, primeiramente, gostar”, conta a artista.


Mesmo com o destaque drag no último ano, as artistas do movimento ainda percebem que existe um grande espaço a alcançar. “As coisas estão melhorando com essa visibilidade que temos tido e com as oportunidades. Mas ainda somos pouco valorizadas. Drag é uma arte que envolve muito investimento, tanto financeiro quanto em aprendizado e tempo. Como diria Gloria Groove: “Consumação não paga peruca”. Precisamos de bons cachês para manter o glamour dessa arte vivo”, completa Penelopy.


Gabriel Sanches, que interpreta as drags Rúbia e Sara (essa no espetáculo Sara e Nina), concorda: “Faltam oportunidades. Não tem quem olhe dentro da instituição política para essa parcela da população, que é criminalizada e está fora do nicho do privilégio”. (Colaborou Gustavo Breder)

 

 

 

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