Palhaço há mais tempo em atividade no Brasil, Alegria não pensa em se aposentar

Álvaro Marinho, o Palhaço Alegria, tem enfisema, mas se apresenta em escolas e montou picadeiro no quintal da chácara onde mora

por Ana Clara Brant 26/03/2017 13:35
BETO NOVAES/EM/D.A PRESS
Álvaro Marinho, o Palhaço Alegria, transformou o seu quintal em circo (foto: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS)

Quando estiver chegando, diz que você vai na casa do Alegria. Nem adianta perguntar pelo nome de verdade, Álvaro, porque nunca me chamaram assim – nem minha mãe, nem minha mulher e nem meus filhos. Sou o Alegria”. Um aviso assim só pode vir de alguém que sempre levou a vida com leveza e bom-humor. E, mais do que isso, é sinônimo de diversão e felicidade.

“Sempre fui alegre. É muito melhor rir do que chorar. A única coisa que me tira do sério é chegar no circo e não ver o artista aplaudido. Aí fico bem aborrecido”, ressalta Alegria, de 84 anos, o palhaço há mais tempo em atividade no Brasil.

“Tem outros mais velhos do que eu, mas não estão mais na ativa. Sempre que me chamam para apresentar, vou. Mesmo com a saúde meio debilitada”, avisa ele.

Nascido debaixo da lona do Circo Novo Mundo, em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, Álvaro Marinho foi criado pelos avós. Aos 7 anos, virou Palhaço Alegria. Foi o ventríloquo Hernane Lobo quem pintou a cara do menino e lhe deu o nome artístico. “Como era muito alegre e vivia brincando, ele pensou: você é uma alegria neste circo. É assim que vou te chamar”, recorda.

TRADIÇÃO

Alegria é de família circense. Fez de tudo um pouco no picadeiro, jamais se imaginou trabalhando em outra profissão. A paixão era tamanha que acabou levando esposa, filhos e netos para o ramo.

“Quando me casei com ele, há 55 anos, o Alegria me disse que era diretor de teatro. Nem imaginava que ele mexia com circo. Assim que nos casamos, avisou que teria de viajar. Desconfiei. Quando vi a lona armada, pensei: ‘Nossa, onde eu fui amarrar a minha égua?’”, brinca a mulher dele, dona Marinete, de 74 anos.

Não teve jeito. Ela acabou se tornando assistente do marido. Depois, virou trapezista e acrobata. “É bom se casar com palhaço, mas em algumas horas a gente passa raiva. Quando você se casa com alguém do circo, vira de circo também. Em alguns momentos, não quer trabalhar, mas é obrigada a entrar no picadeiro assim mesmo”, garante ela, jurando que essa vida é divertida.

Marinete é a segunda esposa de Alegria. Com apenas 15 anos, ele se casou pela primeira vez e teve duas filhas. Aos 17, ficou viúvo. A segunda união lhe rendeu 19 filhos – sete estão vivos. O veterano dos picadeiros tem 27 netos e 18 bisnetos.

“Que a gente saiba, ele teve 21 filhos”, diverte-se um deles, o torneiro mecânico Irinei, de 48. Geisetel, de 37, uma de suas irmãs, conta que mesmo que quisessem, os meninos não teriam como fugir do picadeiro. Só a partir da adolescência os meninos tomaram outro rumo na vida.

“Todo mundo aqui em casa aprendeu alguma coisa. Quando fiz 14 anos, acabei saindo para poder estudar. Naquela época, era mais complicado frequentar escola”, observa Geisetel, que deu o nome do pai ao filho Álvaro, de 8.

“Seu” Alegria confessa: é estranho viver entre paredes. “A coisa mais difícil da minha vida foi morar dentro de uma casa. Tinha medo do teto cair em cima da gente, se desse um temporal. Debaixo da barraca do circo, era bem mais tranquilo. Se caísse, não machucava ninguém”, justifica.

CHÁCARA


Há cinco anos, a família Marinho mora numa chácara na zona rural de Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O lugar é praticamente um picadeiro, com direito a lona de circo no quintal, que abriga as festas da numerosa família. Lá, Alegria recebe visitas dos amigos de profissão, como o Palhaço Quequé e Moisés, conhecido como o Rei do Pedal, por sua habilidade com a bicicleta.

“Circo é família, ainda atrai muita gente. Em todo lugar onde vou, faço um sucesso danado”, afirma Moisés, que participou de filmes dos Trapalhões como dublê de Renato Aragão.

Quando os avós de Alegria morreram, ele assumiu o negócio da família, que acabou se transformando em Circo Cristal Madri. O novo nome surgiu por volta de 1989, época em que os picadeiros brasileiros enfrentavam severa crise.

“O nosso estava quase fechando, quando um fazendeiro amigo da família me deu 200 sacos de açúcar para nos mantermos. Ele gostava muito de circo, não queria que a gente fechasse. Aí, emendamos os sacos e fizemos a lona. Como era açúcar cristal, batizamos assim. Um dos meus filhos acrescentou o Madri para ficar mais estiloso”, explica Alegria.

Atualmente, o circo está parado, mas nem por isso o veterano deixa de se apresentar. “Diminuiu”, reclama. “E a culpa é disto aí”, diz, apontando o cilindro de oxigênio. Fumante dos 9 aos 54 anos, Alegria tem enfisema pulmonar e se viu obrigado a reduzir o ritmo de trabalho. “De vez em quando, eu me apresento em escola, em ginásio. Todos os anos, faço questão de ir a Mariana participar do Circovolante – Encontro Internacional de Palhaços. Em 2010, fui o homenageado. É uma festa”, conta.

Com rotina mais caseira, ele divide seu tempo entre a família e os amigos, faz caminhadas esporádicas e assiste à TV. “Vejo tudo, principalmente jornal. Gosto de saber das notícias. Também assisto a muitos DVDs de circo, às minhas apresentações e às do Cirque du Soleil, que cheguei a ver ao vivo. Foi maravilhoso”, destaca.

DICIONÁRIO


Alegria também gosta de reviver o passado. Faz questão de contar causos e mostrar as fotos sobre parte da história de sua família e de outros clãs circenses que fazem parte do livro Encircopédia – Dicionário crítico ilustrado do circo no Brasil, escrito pela pesquisadora, diretora teatral e atriz Sula Mavrudis.

“O que mais gosto nesta vida é ser aplaudido pelas pessoas e ver o sorriso estampado no rosto delas, principalmente a criançada. Palhaço e circo são eternos, nunca vão acabar. Afinal, quem não gosta de rir?”, diz o veterano dos picadeiros. Palavra de quem se chama Alegria.

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