Umberto Eco vivia em castelo com nada menos que 30 mil obras literárias

%u201CSe eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes%u201D, comentou o escritor em uma entrevista

por Estadão Conteúdo 20/02/2016 12:12
FRANCOIS GUILLOT / AFP
(foto: FRANCOIS GUILLOT / AFP)
Em uma tarde chuvosa de março de 2010, Umberto Eco chegou esbaforido em seu escritório/biblioteca, em Milão. Ele tinha afazeres em Turim e, por conta da neve, o aeroporto milanês estava fechado. %u201CVim de trem para não me atrasar muito%u201D, disse ele à reportagem do Estado, largo sorriso, uma hora depois do combinado. Eco concederia a entrevista que marcaria a capa do primeiro número do Sabático, suplemento literário que começou a circular no sábado seguinte, dia 13 de março daquele ano. O tema da conversa: o lançamento, no Brasil, da obra Não Contem com o Fim do Livro, escrito em parceria com o francês Jean-Claude Carrière e que a editora Record lançaria nas semanas seguintes. Em um momento em que o avanço tecnológico prometia abreviar (até mesmo encerrar definitivamente) a carreira da publicação em papel, Eco revelava seu ceticismo em relação à tecnologia. %u201CO livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído%u201D, afirmou, categórico. Eco falava de dentro de uma verdadeira fortaleza literária - naquele escritório/residência em Milão, ele guardava nada menos que 30 mil volumes, cuidadosamente dispostos em estantes espalhadas pelo apartamento, em um andar onde antes fora um pequeno hotel. %u201CSe eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes%u201D, comentou o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não pareciam ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, era fechado à chave, climatizado e com uma janela que vedava a luz solar: lá estavam as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel. O encontro seguinte que Eco teve com o Estado aconteceu um ano depois, em Frankfurt, durante a feira do livro. O escritor italiano lutava contra as críticas ao seu livro O Cemitério de Praga, em que alimentou uma discussão sobre antissemitismo. Com isso, chamou atenção até do Vaticano, preocupado com trechos em que o personagem principal, Simonini, falsificava testamentos e comercializava hóstias consagradas para missas satânicas. %u201CMinha intenção era desmembrar o racismo em todas as suas manifestações. Para isso, usei citações históricas. O início dos judeus vem de Céline. Dos alemães, busquei as expressões violentas e injuriosas de Nietzsche. Não inventei nada.%u201D

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