O levantamento de dados sobre o artesanato de Inhaúma, a cargo dos historiadores Cláudio Diniz, Arnon Romano e Wanderson Martins, deve ser concluído até julho. Cláudio Diniz explica que a cerâmica está na origem do nome da cidade: a palavra indígena nha-u significa barro. Ainda hoje, a tinta vermelha usada na pintura de algumas panelas é feita a partir da terra de formigueiro, herança dos povos autóctones que habitaram a região. “Isso demonstra a longevidade desse artesanato e sua importância na constituição da identidade e da memória locais”, observa o historiador.
Atividade familiar praticada há quatro gerações, a cerâmica teve importância econômica para a cidade até o início da década de 1980. Porém, a partir dos anos 1990 ela vem desaparecendo. A redução do número de artesãos se deve ao aumento do consumo de produtos de plástico, “processo intensificado com o surgimento das lojas de R$ 1,99”, conta Diniz. As peças deixaram de ser utilitárias para se tornar decorativas. “O desafio é encontrar uma forma de valorizar comercialmente a arte em barro, de forma que ela gere renda e trabalho, atraia aprendizes e preserve a tradição”, argumenta o pesquisador.
Clauzilene de Paula, de 43 anos, faz cerâmica desde os 18. Aprendeu a técnica com a mãe. “O artesanato está no meu sangue. Ele vem da raiz, da alma. Isso é muito lindo”, diz, preocupada com o futuro da atividade. “Os filhos não se interessam em continuar o ofício dos pais por falta de apoio. Estou feliz com a iniciativa do tombamento, porque vejo alguém querendo fazer algo por nós e pela continuidade de uma tradição”, afirma.
Segundo ela, faz falta uma casa do artesão na cidade, espaço destinado a divulgar o ofício. “O pessoal de Inhaúma deve valorizar mais o nosso artesanato. As pessoas não percebem o carinho com que realizamos nosso trabalho”, protesta. Clauzilene conta que chegaram a chamar suas peças de pelotas de barro. “Foi doloroso, mas em outros lugares me abraçaram pelo que eu criava”, conclui.