saiba mais
“Muitas técnicas agrícolas, de criação de gado e de mineração, até hoje praticadas, são de origem africana”, ressalta o historiador. “Também técnicas de tecelagem e ourivesaria, além de usos culinários. Sem falar na música de todo o Brasil, nas várias formas de samba, nos diversos instrumentos usados na música popular fora de mercado, na capoeira, hoje uma prática desportiva mundializada”, acrescenta Nei Lopes.
Segundo ele, a religiosidade de matriz africana também é muito importante, principalmente pelos aportes que trouxe ao catolicismo. “E nessa religiosidade há toda uma fundamentação filosófica e moral. Sem o africano, o Brasil seria muito diferente, talvez nem tivesse uma identidade definida”, adverte o historiador. De acordo com ele, apesar da Lei 10.639/2003, que obriga o ensino de história e cultura africana e afro-rasileira nas escolas, a reação a ela tem sido muito grande.
“E isto principalmente nos redutos menos favorecidos, onde a força das chamadas Igrejas eletrônicas, neopentecostais, sataniza a cultura negra”, denuncia. Na opinião do historiador, é preciso divulgar cada vez mais conteúdos das culturas afro-originadas, para elevar a autoestima dos afrodescendentes, sempre muito baixa no país.
Nei Lopes faz questão de lembrar que, apesar das políticas públicas que menosprezam a presença negra no Brasil, até os anos 1930, desde a década de 1970 as entidades civis de defesa e promoção do povo afrodescendente vêm ganhando força por aqui. “Ainda assim, elas tinham de atuar como entidades meramente culturais, pois a repressão era grande”, recorda.
Como afirma Nei Lopes, foi a militância que fez com que os governos começassem a voltar seus olhos para a questão no Brasil. “Foi assim que chegamos ao Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010), que embora bastante esvaziado em relação ao projeto original, é um texto importante. A própria Constituição federal, promulgada em 1988, já contém dispositivos inovadores, provocados por reivindicações do movimento negro”, defende.
Letra e música
Nei Lopes, que está finalizando o 'Dicionário da história social do samba', em parceria com Luiz Antônio Simas, lamenta o fato de a presença negra no Brasil só ter visibilidade forte na música e nos esportes. “Mas se a gente levar em conta que, por exemplo, Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto, Mário de Andrade, Gonçalves Dias, Irineu Marinho, Theodoro Sampaio, André Rebouças, João do Rio e Milton Santos eram afrodescendentes, já vai dar vontade de saber onde estão os outros”, conclui.
No momento, ele ainda aguarda o lançamento do CD 'Samba a rigor', gravado com a Orquestra Coisa Fina, de São Paulo, sob a direção do músico Guga Stroeter. Nei, que acaba de entregar a Íris Amâncio, da Nandyala Editora & Livraria, de Belo Horizonte, um volume de artigos, muitos dos quais publicados em jornais, atualmente mantém também o blog Meu lote, em seu site oficial.
NEI LOPES – OFÍCIO DA PALAVRA
Terça-feira, 19h30, no Museu de Artes e Ofícios, Praça da Estação, s/nº, Centro. Entrada franca. Informações: (31) 3248-8600.