Obra inacabada de Pirandello, escrita em 1936, 'Os gigantes da montanha' convida o espectador a entrar em um universo de sonhos. A trama gira em torno da chegada de uma companhia teatral decadente a uma vila misteriosa. De maneira muito colorida e musical, o Galpão pega no braço do italiano para falar sobre o valor do teatro, da poesia e da arte no mundo atual. “Não é uma peça realista, muito menos naturalista. É um surrealismo lírico do Pirandello. Ele obriga o espectador a dar uma fugida”, comenta Villela.
A menos de 10 dias da estreia, percebe-se o alívio dos atores. No Galpão, não há aquele corre-corre de última hora. O cenário, composto por 12 mesas de madeira de demolição, está pronto, montado e testado. O mesmo vale para os figurinos e adereços, todos elaborados por Gabriel e carregados de referências que vão de Minas Gerais, passam pelo Peru até o longínquo país de Mianmar, de onde vieram alguns tecidos. A iluminação, assinada por Chico Pelúcio e Wladimir Medeiros, também já foi ajustada.
POPULAR No elenco, para juntar-se a Antônio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Eduardo Moreira, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Simone Ordones e Teuda Bara, foram convidados os cantores-atores Regina Souza e Luiz Rocha, este conhecido pelo trabalho como músico no grupo Todos os Caetanos do Mundo. “Eles trabalham incansavelmente, têm uma dedicação pelo teatro e a todo o entorno. É uma estrutura realmente muito profissional”, diz Regina.
A montagem de 'Os gigantes da montanha' começou em outubro do ano passado. Desde então, era desejo tanto do diretor quanto dos atores minimizar o aspecto sisudo que a obra de Pirandello poderia carregar, já que se trata de um autor amplamente estudado pela academia e até vencedor de Prêmio Nobel de literatura. Nesse caminho para a popularização, a música surgiu – e se consolidou – como ponto-chave.
“É um elemento muito forte e visceral de comunicação, porque toca diretamente na sensibilidade que passa pelo intelecto e está além dele”, observa o ator Eduardo Moreira. A trilha sonora, também com seleção de Gabriel Villela, mescla canções italianas e brasileiras. Outro aspecto que tornou o processo de 'Os gigantes da montanha' diferente foi a parceria com a musicista italiana Francesca Dell Monica. Junto com Ernani Maletta e Babaya, antigos colaboradores do grupo, ela colocou em prática pesquisa sobre antropologia da voz.
Segundo a atriz Teuda Bara, o método mudou substancialmente o modo como eles dizem o texto em cena. “Nem acreditava. Eu, que tenho uma voz grave e canto com os tenores, com a Francesca estou quase cantando com as meninas”, diz. “Nessa mistura do trabalho musical e vocal há uma alquimia com o teatro que o Gabriel propõe. Tudo é muito instigante artisticamente”, completa Eduardo Moreira.
OS GIGANTES DA MONTANHA
Espetáculo do Grupo Galpão, texto de Luigi Pirandello e direção de Gabriel Villela. Dias 30 e 31 de maio, 1º e 2 de junho. Quinta a sábado às 20h e domingo às 19h. Praça do Papa. Dias 8 e 9 de junho, 18h, Parque Ecológico da Pampulha. Entrada franca.
Obra inacabada
'Os gigantes da montanha' foi a última peça escrita por Luigi Pirandello. O texto ficou inacabado, já que o autor foi vítima de uma pneumonia fatal em 1936. Consta que, no leito de morte, Pirandello teria relatado ao filho Stefano o fim do roteiro. A versão que será apresentada pelo Grupo Galpão foi traduzida por Beti Rabetti, com dramaturgia de Eduardo Moreira e Gabriel Villela. Como se trata de uma obra aberta, eles partiram das sugestões registradas por Pirandello e condensaram na versão à la Galpão.
"Gosto de pensar nos meus devaneios que tem essa coisa bonita de estrear no topo da montanha, onde corre o vento puro", Gabriel Villela, diretor.