“Pintar o retrato de alguém é a busca de captar a alma de algo que está além do físico”, explica José Maria Ribeiro. Trata-se de uma experiência de autoconhecimento para o modelo, sobretudo pela possibilidade de alguém se ver por meio da ótica de outra pessoa. É difícil expressar em palavras o sentimento despertado pela musa: “Um encanto misterioso”, arrisca José Maria. Ele fez cerca de 200 pinturas de Fátima, trabalhos que chama de “retratos imaginários”, além de desenhos.
A longa dedicação à imagem de Fátima não foi planejada. “É sempre algo novo”, assegura o pintor, que, aliás, tem outra musa: “Minha filha Iara, de 32 anos, que pinto desde que nasceu. E também o Humberto”, acrescenta, referindo-se ao filho de 34 anos.
Dada a explicação, Sérgio Nunes se desdobra em tentativas de descrever o encanto. Que nem tanto se deve à beleza do quarteto, mas ao modo como as irmãs mexem os cabelos, a olhares expressivos e a gestos sensuais.
“Fico observando o jeito delas, sinto que convidam ao desenho”, garante Sérgio. Em 1983, ele descobriu Ana e a irmã gêmea, Lídia, no Festival de Inverno da UFMG. Inclusive, já desenhou a filha de Lídia. “Há entre nós forte relação de amizade e proximidade, o que permite a abordagem e o pedido de poses e movimentos”, conta ele.
Se a inspiração das musas é poderosa, o artista explica ser necessário um platonismo para aproveitá-la. Sérgio revela que nunca fez retratos das mulheres por quem se apaixonou.
MUSO “Meu muso é Caetano Veloso”, afirma Vânia Toledo. Mineira de Paracatu, ela mora em São Paulo há décadas. Conhecida por retratar dezenas de artistas, a fotógrafa publicou seus trabalhos em livros, capas de discos e revistas. “Caetano é o exemplo de homem moderno da minha geração. Temos alto grau de cumplicidade, vejo isso no olhar dele. Respeito-o muito, e ele o que faço. Nunca tive um senão dele na hora de fotografar”, conta.
Para se ter ideia do grau de intimidade dos dois, foi para Vânia que o baiano posou sem roupas em 1979. A imagem integraria um livro de nus. “Ele se entrega, confia no que estou fazendo”, agradece a mineira.
A fotógrafa não diz, mas ao comentar seu trabalho, deixa claro que não não mira no mito e em celebridades. “Trato qualquer homem como João e qualquer mulher como Maria. Faço musos e musas todos os que se entregam a mim. Adoro gente, quero sempre mostrar o melhor lado do ser humano”, conclui.
PERSONAGEM DA NOTÍCIA
. Fátima Inchausti, pintora
Perto da alma
“Tenho um sentimento bom quando vejo cerca de 200 retratos meus que o José Maria fez. Sinto-me bonita. Em outros momentos, sinto que ele me pegou mais séria, mais preocupada. É a minha vida, uma biografia em imagens”, afirma a pintora Fátima Inchausti, mulher do artista plástico José Maria Ribeiro. “Os retratos têm muito da minha alma, algo que ele percebe sem que eu tenha de falar nada”, garante. Para ela, artistas que se voltam recorrentemente para determinado modelo gostam da figuração e têm facilidade para o retrato, um gênero difícil. “É a atração pelo humano, a tentativa de desvendar o mistério que é o ser humano”, acredita.
AS BELAS
» A obra de Picasso (1881–1973) é dividida de acordo com as seis mulheres com quem ele viveu relacionamentos conturbados.
*Durante sete anos, a mulata Marina Montini (1948–2006), miss e madrinha de blocos de carnaval que posou nua para a Playboy, foi a musa do pintor Di Cavalcanti (1897–1976).