Em cartaz no Espaço Sesc Arena, de Copacabana, no Rio de Janeiro, Amir diz estar aprendendo novamente “as dores e delícias de ser ator”, lembrando que o teatro é uma eternidade, além de profundamente renovador. “O teatro precisa de gente como o Gustavo”, acredita o ator-diretor, que não atuava em palcos desde 1998, quando participou da montagem de Deus, de Woody Allen, ao lado de Murilo Benício, sob a direção de Mauro Mendonça Filho. “Depois fiz O castiçal, de Giordano Bruno, que também dirigi, além de A maconha de mamãe é a mais gostosa, de Dario Fo, sob a direção de Antônio Pedro”, recorda Amir, que, especializado em teatro em espaços públicos, fundou, há 32 anos, o Grupo Tá na Rua.
Mineiro de Guaxupé, que trocou o estado pelo Rio aos 5 anos, Amir Haddad diz que está cada vez mais voltado para a arte em espaço público, o que considera importante instrumento de inclusão social. “Essa é a natureza da arte, que não pode segregar e muito menos criar elites”, prega o diretor, salientando o envolvimento dele com o futuro e o encantamento com o presente. “O futuro só ocorre no presente”, defende Amir, lembrando que o Tá na Rua deu a ele uma grande liberdade. “Além de uma linguagem, o grupo me deu possibilidade de ser ilusionista. Ele me deu verdade”, sintetiza.
Ética das ruas
“Com a rua também aprendi a ética que estabelece com o espectador a horizontalidade, o que me dá muita liberdade em cena”, admite Amir Haddad, julgando-se um ator aberto. Como ele faz questão de lembrar, Tônia Carrero disse certa vez que ele era “a Dercy Gonçalves dos intelectuais”. “Dercy é um veio para o ator de todos os tempos, ela deu dignidade ao ofício”, reconhece o discípulo assumido.
O coletivo, para Amir, é o aspecto mais importante da arte. Como gosta de lembrar, personalidades do mundo do teatro como Constantin Stnaislavski, Bertolt Brecht, Eugenio Barba e Jerzy Grotowski viveram o teatro coletivamente. “Quando sou contratado para dirigir um espetáculo, levo a ciência que aprendi e a técnica de coletivização”, garante Amir.
Artista irrequieto, ele não se afasta nem mesmo da TV, em que fez pequena participação em Lado a lado, novela das 18h da Globo. “Participação é boa porque a gente vai um, dois dias, grava tudo e não volta”, diz ele, admitindo que gosta de aparecer. “Até porque a família, vendo TV, diz que a gente venceu na vida”, ironiza o ator, que tem familiares em Uberaba e Uberlândia, além da terra natal Guaxupé, onde admite ter raízes profundas. “Isso sem falar na relação que tenho com o pessoal do teatro no estado”, diz Amir, que é amigo do elenco do Grupo Galpão, também adepto do teatro de rua.
Teatro para todos e musical sobre Ary
Predecessor do grupo Tá na Rua, fundado em 1980, o Grupo de Niterói, que Amir Haddad ajudou a criar em 1977, em pleno governo do general Ernesto Geisel, ocupou o prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE), que o Exército havia invadido pouco antes. “Ocupamos o espaço por três anos e restauramos o prédio, que estava todo queimado por dentro”, salienta o ator, que na mesma época chegou a fazer temporada de ensaios abertos em Belo Horizonte (no Teatro Francisco Nunes) do espetáculo Morrer pela pátria, de Carlos Cavaco, encenado por mais de três anos.
Para Amir, a longa sobrevivência do Grupo Tá na Rua é um acontecimento inusitado. “Até então, o Rio de Janeiro não tinha esse modelo de teatro”, justifica. Ele lembra que hoje o teatro de rua é praticado no Rio por grupos como a Cia. Brasileira de Mistérios e Novidades, além de companhias menores, como Boa Praça e Cia. Oficina de Teatro, adepta do circo-teatro de rua.
Em grupo O teatro de grupo, no entanto, há muito é feito na cidade, como faz questão de lembrar o ator-diretor. “O Tablado, de Maria Clara Machado, é uma instituição do Rio”, comemora o feito da autora, também mineira, um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo. “Há também a Cia. dos Atores, que trabalha em esquema empresarial”. Na verdade, o primeiro grupo em sua carreira foi o célebre Oficina, já antecipando a linha de trabalhos feitos sempre de forma coletiva.
No momento, Amir Haddad faz supervisão do musical sobre a vida de Ary Barroso, que Diogo Villela irá estrear ainda este ano. “Gostaria que o teatro não precisasse do diretor, com o qual fica o desgaste diário”, constata, admitindo que o melhor – a criação – fica com o supervisor.