Tavinho fotografa 150 espécimes de aves e reúne imagens em um livro

O músico levou seis anos para concluir o projeto

por Eduardo Tristão Girão 27/10/2012 07:00

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Leandro Couri/EM/D.A Press
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Aos olhos do desavisado, poderia ser um ornitólogo. Mas é Tavinho Moura. Cantor e compositor do primeiro time da música mineira, ele agora ataca como fotógrafo no livro Pássaros poemas – Aves na Pampulha, que traz registro valioso de 150 espécimes que moram no entorno da famosa lagoa de Belo Horizonte, todas merecedoras de poemas assinados por ele e por convidados. O lançamento será quarta-feira, na galeria de arte do BDMG Cultural, em Belo Horizonte.

A intimidade de Tavinho com o tema é impressionante. Além de saber de cor dezenas de nomes científicos das aves, ele reconhece o canto de várias delas e as identifica de longe – às vezes, em pleno voo. “Gosto de aves desde a infância. Quando comecei a caminhar em volta da lagoa, por volta de 2006, contei uns 40 espécimes numa única manhã de setembro. Pensei em registrar isso, imaginando que acharia muito mais”, conta ele. 

O músico começou a trabalhar no projeto naquela época, acompanhado por um fotógrafo profissional. Não deu certo. Tavinho, então, pediu uma câmera emprestada. Munido de binóculo, assumiu sozinho a responsabilidade de localizar e fotografar as aves. Ao longo de cinco anos, caminhou (sempre vestido de verde) quase todos os dias pela região. Chegou a ficar até quatro horas por conta da missão. “Tive muita dor de pescoço de tanto olhar para cima”, lembra. Fora os carrapatos. 

Tavinho fez cerca de cinco mil fotos, as mais recentes com câmera semiprofissional própria (trazida dos Estados Unidos pela filha) e zoom potente. Perfeccionista, resolveu voltar a campo mesmo depois de obter todas as fotos necessárias. Trocou quase metade delas. Já na gráfica, mudou outras 25. O esforço valeu a pena: acredita ter fotografado a gaivota-trinta-réis pela primeira vez em Belo Horzionte.

Tavinho Moura/Divulgação
Coruja-orelhuda na toca se confunde com a árvore, um dos "troféus" do fotógrafo (foto: Tavinho Moura/Divulgação)


Outro “prêmio” foi a coruja-orelhuda, flagrada em sua toca depois de paciente espera. Em belas fotos aparecem biguatinga, martim-pescador-azul, choca-barrada, periquito-rico e galo-de-campina, que fugiu da mira da câmera quando Tavinho ainda era acompanhado por fotógrafo. 

Do início ao fim, o livro registra um deslumbre, que, geralmente, escapa aos olhos dos belo-horizontinos. Afinal, quem já viu colhereiro na Pampulha, reparou no elmo que o anu-preto ostenta ou na cor de ferrugem do joão-de-barro?


Por outro lado, Tavinho não conseguiu incluir no livro o socó-boi-malhado, a águia-pescadora e a pipira-da-taoca, porque as fotos não ficaram boas o suficiente. Ele chegou a ser avisado da presença de um tuiuiú na lagoa, mas não o encontrou. “Também eliminei as menos expressivas da região, privilegiando as que estão sempre na Pampulha”, explica ele, que costuma receber visita de tucanos em casa. O livro traz aquarelas de Sandra Bianchi. O projeto gráfico é de Mariana Hardy. 

Além da lagoa, foram visitados o brejo próximo ao Pampulha Iate Clube, a Fundação Zoo-botânica (e vizinhança), a Universidade Federal de Minas Gerais e os parques municipais Ursulina de Andrade Mello e Fazenda Lagoa do Nado. 

LETRAS

Imagens feitas, Tavinho partiu para as letras. “A primeira ideia era de textos que auxiliassem as pessoas a conhecer e identificar esses pássaros. Ao começar a escrevê-los, percebi que estavam ficando todos iguais, muito chatos. No dia em que vi um gavião agarrando uma pomba, decidi escrever sobre isso e acabou virando um poema. Como já conhecia trechos de Drummond, Guimarães Rosa, Mário de Andrade e Raul Bopp sobre pássaros, resolvi seguir essa linha poética”, conta. 

Tavinho assina 77 poemas, como o dedicado à marreca-caneleira. “Esse escrevi usando lembranças das minhas férias em Porteirinha, no interior de Minas, onde se caçava essa ave.” Outros textos são assinados por Milton Nascimento, Fernando Brant, Carlos Herculano Lopes, Almir Sater, Nelson Ângelo, Chico Amaral e o naturalista alemão Hermann Burmeister. As palavras de Manoel de Barros e Tom Jobim foram cedidas especialmente para o livro. 

Tavinho explica que seu livro não é um instrumento de denúncia, mas acredita que o caráter de exaltação pode ajudar a conscientizar sobre a importância de cuidar melhor da Pampulha. “Quero despertar admiração nas pessoas, que provavelmente não sabem da existência de tantas aves por lá. Que elas percebam, conheçam e ajudem a preservar essa riqueza. A Pampulha virou lugar de lixo mas, na verdade, ela é Belo Horizonte no mundo”, conclui.

PÁSSAROS POEMAS – AVES NA PAMPULHA
Lançamento do livro de Tavinho Moura. Quarta-feira, às 19h, na galeria de arte 
do BDMG Cultural 
(Rua Bernardo Guimarães, 1.600, Lourdes). 
O livro estará à venda no local por R$ 70. 
Informações: (31) 3219-8691 e www.bdmgcultural.com.br

BASTIDORES

Clube
Como muitos entusiastas do gênero, Tavinho Moura faz parte da ONG Ecoavis, que reúne em Belo Horizonte interessados em observar aves em passeios, cursos, palestras e viagens.

Gravador
Uma das técnicas para atrair determinadas aves consiste em gravar seu canto e reproduzi-lo durante a busca, pois algumas são territorialistas e vêm procurar o “inimigo”.

Ridículo 
Nem tudo é poesia nesse ofício. “Passei por muitas situções ridículas, como ficar vestido de verde e escondido para esperar uma ave. Todo mundo que caminhava em volta da lagoa me via daquele jeito”, lembra ele.

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