Leo Brizola é fiel seguidor dos rigores da pintura tradicional – técnica cujo esgotamento, não raras vezes, é decretada por críticos ou pela imprensa especializada. Entretanto, quando se propõe a fazer exposição – como a da Galeria de Arte Contemplo, que será aberta hoje –, o artista consegue surpreender e instigar, além de trazer frescor ao velho estilo.
Nessa nova mostra, o pintor aproxima o espectador de um mundo atemporal. Signos se transformam em escrituras enigmáticas e luzes se acasalam com imagens para dar origem a outro personagem: as sombras. Elas aparecem limpas, recortadas e, não raras vezes, como protagonistas de todo o quadro.
Nessas obras, é possível perceber um pintor sensível, que lança mão com facilidade de elementos formais e subjetivos. Suas figuras, sejam solitárias ou compartilhadas, surgem em estado meditativo, buscando criar uma síntese poética do desamparo, marginalidade e da dor. A mulher se apresenta como paradigma da beleza ou como mito da criação.
A maioria dos trabalhos da mostra O gabinete adamascado surgiu de um período angustiante para o artista. “Elas refletem algo que ocorre muito em BH: a destruição das casas para dar lugar a prédios. Moro em uma casa e, no ano passado, apareceu a possibilidade de erguerem um edifício no terreno. Como vivo e trabalho aqui há 40 anos, a memória seria destruída, como se toda a minha história fosse abaixo. Isso me deixou sem chão”, lembra.
As telas nasceram durante as discussões sobre a possível mudança de endereço, o que acabou não se concretizando. Elas trazem diferenças em relação a outras criações de Leo. Como a galeria é pequena, os quadros são menores, adequados à proporção do espaço.
“Resolvi tentar fazer uma pintura mais sofisticada. Também forrei as paredes de tecidos antigos amassados, como se fosse uma caixa de joias, algo que acabou inspirando o nome da exposição”, conclui Leo.