Atualmente, além das 20 horas semanais que cumpre na PUC, onde dá aulas de literatura medieval portuguesa e linguística histórica, às terças, quintas e sextas-feiras, para alunos de mestrado e doutorado em letras, a professora anda às voltas com vários projetos. Entre eles, está preparando, para sair em breve, as reedições de alguns livros de sua autoria: Histórias de palavras, de 1961, que será relançado pela Editora da PUC Minas; e Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio – Aspectos culturais e literários, em versão ampliada, que sairá pela Editora Veredas & Cenários.
Seu interesse pelas Cantigas de Santa Maria, que segundo ela estão entre as grandes obras da literatura medieval, começou há 20 anos, quando também passou a ensinar a respeito do tema na PUC Minas. A repercussão foi tão grande, com alunos chegando de todo o país, que em decorrência disso a universidade – quando era reitor o padre Geraldo Magela – adquiriu, na Espanha, por US$ 12 mil, os dois únicos fac-símiles dos cânticos que existiam em edição comercial, e que hoje fazem parte do acervo da universidade.
Apegada aos livros “desde que se entende por gente”, atualmente a professora Ângela Vaz Leão está lendo, “maravilhada”, A história da Bíblia contada como uma só história do começo ao fim, da Editora Sextante. Por falar na Bíblia, na sua biblioteca, que ocupa um quarto inteiro do apartamento onde vive, no Gutierrez, ela tem várias versões do livro sagrado, em línguas como o latim, espanhol, inglês, francês, alemão romeno e português. “Algumas dessas versões consigo ler no original, sem nenhum problema. Outras, como a versão em romeno, por exemplo, já tenho algumas dificuldades de compreender”, conta. Depois das Cantigas de Santa Maria, a Bíblia está entre suas leituras preferidas.
Henriqueta
Ela também conhece como poucos a obra do escritor paraibano Ariano Suassuna, sobre a qual já desenvolveu diversos trabalhos. Tanto que há alguns anos, quando teve um problema de saúde, o autor de O auto da compadecida pegou um avião no Recife e veio a Belo Horizonte visitá-la. Na parede da sua casa, com todo orgulho, mostra uma foto emoldurada, na qual aparece ao lado do romancista de A Pedra do Reino. Outra paixão literária de dona Ângela (como é carinhosamente chamada pelos alunos) é Henriqueta Lisboa, de quem foi amiga. Em 2004, ela lançou o livro Henriqueta Lisboa: o mistério da criação poética, no qual faz uma leitura original da obra da poetisa mineira.
Nascida em Formiga, a professora Ângela conta que se mudou para Belo Horizonte no início de 1947, logo depois de ter passado num concurso público para ser funcionária da Receita Federal. Naquele mesmo ano, irrequieta como sempre, começou a estudar letras na UFMG, quando o curso ainda era realizado no Edifício Acaiaca. Só alguns anos depois a faculdade foi transferida para o prédio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), na Rua Carangola, onde Ângela fez doutorado e se tornou catedrática de língua portuguesa.
“Mas antes começar a dar aulas na UFMG, onde fiquei durante mais de 30 anos, até me aposentar e ir para a PUC, passei ainda pelo Instituto de Educação e pelo Colégio Municipal. Foi um tempo de muito aprendizado”, conta. Eventualmente, ainda costuma dar alguns cursos na UFMG. Outro orgulho, ao se lembrar desse período, foi o fato ter feito parte da equipe que, no início dos anos de 1960, trabalhou na reforma universitária. Do grupo – faz questão de citar os nomes – participaram ainda os professores Alisson Guimarães, Pedro Parafita de Bessa e Emanuel Brandão.
Cantigas de Santa Maria, aulas na PUC, convívio com a família e leituras da Bíblia à parte, os olhos de Ângela Vaz Leão, como os de uma adolescente, brilham mesmo é quando se lembra do marido, o livreiro Wilson Leão, com quem foi casada por mais de 30 anos. A livraria no Edifício Maletta fez história em Belo Horizonte. “Ah!, para que ficar falando dessas coisas. Foi uma época tão boa...”, diz Ângela, que viveu com Wilson até a morte do marido, em 1982. Tiveram cinco filhos: Athos, Mário, Regina, Beatriz e Ângela Maria, que lhes deram 11 netos e seis bisnetos.
Universo de Maria
Entre as obras de Ângela Vaz Leão destaca-se o belo volume Cantigas de Afonso X a Santa Maria – Antologia, tradução e comentários, da Editora Veredas e Cenários. A professora traduz em português moderno 42 dos 427 poemas das Cantigas de Santa Maria, com comentários e paráfrases da cantigas, além de um caderno de iluminuras, mapa e CD com canto coral e instrumentos de época, e uma leitura em português contemporâneo e galego-português de algumas traduções. Uma introdução feita com amor de cantigueira e competência de pesquisadora que formou várias gerações de especialistas no texto clássico.